Fazemos parte de uma fase determinante na história da tecnologia, que vive uma das maiores revoluções. Uma nova Era que é necessariamente mais digital. E quem não a acompanhar só tem a perder! Rui Barros é Managing Director da Accenture Portugal, responsável pela área de Tecnologia sobre o impacto da Inteligência Artificial, Metaverso e Cloud, […]
Fazemos parte de uma fase determinante na história da tecnologia, que vive uma das maiores revoluções. Uma nova Era que é necessariamente mais digital. E quem não a acompanhar só tem a perder!
Rui Barros é Managing Director da Accenture Portugal, responsável pela área de Tecnologia sobre o impacto da Inteligência Artificial, Metaverso e Cloud, e um verdadeiro entusiasta do digital. «A tecnologia faz as empresas ganharem oportunidades cruciais para a manutenção ou evolução das suas posições de mercado. A premissa é simples: é preciso tirar o maior valor do que esta tecnologia nos pode dar de forma segura e ética. É também ela que nos irá levar a ocupar lugares de liderança», assegura.
Neste “futuro”, uma empresa pode construir por completo o seu próprio metaverso antes de dar um passo no mundo real. Não restam dúvidas: «é exigida uma preparação estratégica para uma realidade que une a capacidade humana – que nunca será diminuída – e o potencial trazido pelas diferentes soluções tecnológicas», explica.
Atualmente, não existe negócio sem tecnologia, por isso todas as organizações necessitam de uma estratégia comum que abranja as duas áreas de forma integrada. Mas Rui vai mais longe e sublinha: «As empresas terão de se concentrar nas suas pessoas tanto quanto na tecnologia».

Vive-se uma pequena revolução na história da IA generativa: a introdução de modelos pré-treinados com notável adaptabilidade de tarefas. Para os mais desatentos o que se está a passar?
Os modelos de linguagem de grande dimensão (LLM) e os modelos de base que impulsionam estes avanços na Generative AI constituem, tal como refere, um ponto de viragem significativo. Não só decifram o código da complexidade da linguagem, permitindo às máquinas aprender o contexto em que se inserem, inferir a intenção e ser criativas de forma independente, como também podem ser rapidamente ajustados para uma vasta gama de tarefas diferentes, o que tem contributos notórios para a produtividade em inúmeros setores de atividade.
Esta tecnologia está destinada a transformar várias áreas, desde a Ciência, às empresas, aos Cuidados de Saúde, até à própria Sociedade. O impacto positivo na criatividade e na produtividade humanas está a ser de facto enorme e com uma grande expectativa de crescimento.
A Inteligência Artificial, o Metaverso e a Cloud estão a transformar o modo como as pessoas trabalham e vivem socialmente. O que acontece se as empresas ignorarem estas (r)evoluções?
Ao ignorarem esta nova vaga de transformação digital, as empresas vão perder oportunidades cruciais para a manutenção ou evolução das suas posições de mercado, o que irá levar a que outras ocupem lugares de liderança.
Neste sentido, as empresas e organizações que se quiserem destacar perante os seus pares, devem estipular uma estratégia que assente numa premissa: é preciso tirar o maior valor que esta tecnologia nos pode dar de forma segura e ética.
A nível global, estima-se que as despesas em tecnologia atinjam 6,5% do PIB até ao final de 2023 e aumentem para 8,6% até 2030, pelo que será de esperar uma total revolução nos vários setores e uma agilidade e capacidade de adaptação das empresas a uma nova Era que será necessariamente mais digital. Mas para que tal seja possível, é exigida uma preparação estratégica para uma realidade que une a capacidade humana – que nunca será diminuída – e o potencial trazido pelas diferentes soluções tecnológicas.
De que forma devem os líderes preparar-se para estas novas realidades?
A adaptação a estas novas realidades exige, antes de mais, uma noção clara sobre os diferentes potenciais e o valor que se pretende extrair de cada solução. A par desta identificação, a estratégia deve priorizar a fase de implementação, a qual passa pela integração das pessoas e pela sua capacitação. Se tomarmos como exemplo a Generative AI, acreditamos que as empresas terão milhares de formas de aplicar os modelos de base para maximizar a eficiência e impulsionar a vantagem competitiva. Porém, e mesmo com a linguagem natural a oferecer uma interface fácil de utilizar, são necessários alguns conhecimentos de engenharia de software para criar com êxito aplicações em torno de modelos de base e que permitam, posteriormente, responder às metas propostas aquando da idealização destas mesmas soluções tecnológicas.
Nestas matérias o que é essencial, às empresas e ao tecido empresarial português, dominar?
As empresas nacionais devem potenciar e tirar partido das tecnologias desenvolvidas pelos parceiros globais, investindo na adequação da sua utilização à realidade do contexto nacional, bem como na qualidade dos dados do seu negócio – os quais alimentam estes modelos de IA. O facto destas tecnologias potenciarem capacidades de processamento de linguagem natural em múltiplos idiomas facilita a sua adoção no suporte a processos de negócio junto dos clientes nacionais e internacionais, minimizando eventuais barreiras linguísticas e potenciando a escala do negócio fora das fronteiras tradicionais do nosso país. Adicionalmente há que capacitar o talento das empresas de forma transversal para que a adoção das tecnologias seja um sucesso capaz de evitar riscos de segurança e reputacionais, algo que poderá acontecer caso estas soluções não sejam utilizadas de forma ética e responsável.
Há alguma “receita” para aumentar os lucros?
Embora não exista um caminho “one size fits all” para aumentar os lucros das empresas, podemos concluir que a transformação digital é, nos dias de hoje, uma necessidade primordial de investimento no seio das organizações.
A tecnologia tem desempenhado um papel fundamental como catalisador de novas soluções que promovem respostas mais eficientes em áreas chave da sociedade e da economia, abrindo portas para um futuro mais ligado e com um alto potencial de inovação.
Para que tal aconteça, dever-se-á começar por considerar os requisitos para a infraestrutura, arquitetura, modelo operacional e estrutura de governação, de modo a potenciar determinadas tecnologias, mantendo-se um olhar atento ao seu custo/ retorno. Após esta consideração, é necessário aceder aos recursos e conhecimentos associados à transformação tecnológica que se pretende criar, tirando partido das melhores práticas do setor e de insights relevantes oferecidos por parceiros do ecossistema – grandes empresas de tecnologia, start-ups, empresas de serviços profissionais e instituições académicas.
Por último, deve-se incorporar controlos para avaliar os riscos na fase de implementação das várias soluções e incorporar princípios e abordagens responsáveis que possam assegurar o sucesso das mesmas.
Não existe uma estratégia genérica, uma vez que cada empresa terá um conjunto único de contributos para os mundos futuros e uma apetência diferente para equilibrar as exigências atuais com o que pretende construir. Atualmente, não existe negócio sem tecnologia e como tal, todas as organizações necessitam de uma estratégia comum que abranja as duas áreas de forma integrada.
O caminho deve estar concentrado na tecnologia ou/e nas pessoas?
As empresas terão de se concentrar nas suas pessoas tanto quanto na tecnologia que pretendem implementar. Esta é uma premissa base para a transformação tecnológica, a qual dita um maior investimento em talentos que detenham conhecimentos para a abordar e novas competências não só para a criação de soluções, mas também para gerir a sua utilização.
Isto significa apostar na formação de pessoas em toda a organização para que sejam capazes de trabalhar eficazmente com processos baseados em novas tecnologias.
Como é que estas tecnologias têm transformado o dia-a-dia das empresas?
Em diversas situações, a Cloud já demonstrou vários dos seus benefícios. A migração de sistemas e aplicações tornaram-se especialmente evidentes e até vitais para o aumento de resiliência e crescimento de inúmeras empresas em períodos de maior instabilidade e de incerteza. Pela sua relevância, esta é uma tendência tecnológica que se irá manter e que se posiciona de forma indissociável ao sucesso das organizações, permitindo uma agilidade considerável e comprovada que se manifesta como uma vantagem competitiva. A cloud tornou-se numa solução urgente para responder à necessidade de controlo de custos, maior velocidade, confiabilidade, escalabilidade e inovação. Dadas as capacidades e impacto na competitividade das empresas, a cloud é hoje uma das áreas de investimento mais premente no âmbito da estratégia de recuperação pós-pandemia.
Por sua vez, o Metaverso permitiu uma interseção de duas realidades – a física e a virtual – e abriu portas ao desenvolvimento de novos mundos onde agora se desenvolvem produtos e serviços capazes de alavancar o negócio de múltiplas empresas. Neste “futuro”, uma empresa em crescimento poderá construir completamente o seu próprio metaverso antes de dar um passo efetivo no mundo real. Antes de colocar um tijolo para uma fábrica, poderá construir um gémeo digital que mostre exatamente o seu aspeto. Antes de contratar uma única pessoa, pode criar um sistema de avatares. Antes de receber um único dólar ou de passar um cartão de crédito, pode ter delineado o seu próprio sistema NFT.
Quando falamos de Inteligência Artificial, e à semelhança das tendências mencionadas, as empresas devem apostar numa estratégia consolidada que traga maior valor às suas operações. Para aumentar o valor da Generative AI e dos modelos de base em casos de utilização comercial específicos, as empresas deverão ser capazes de personalizar cada vez mais os modelos pré-treinados, por via da afinação com os seus próprios dados – desbloqueando novas fronteiras de desempenho que terão impacto no seu quotidiano.
A Tecnologia tem chegado, de forma massiva, ao quotidiano dos consumidores.
A massificação de utilização de smartphones transformou a maneira como as pessoas comunicam, acedem a informações e realizam transações. Potenciou a utilização de redes sociais como Facebook, Instagram, Twitter e TikTok por milhões de consumidores. Esta utilização massiva só foi possível através da utilização em escala da cloud como suporte e mecanismos de IA que fazem com que os conteúdos que acedemos sejam os mais apelativos e personalizados. Serviços de streaming de vídeo como Netflix, Amazon Prime e Disney+ revolucionaram a forma como as pessoas assistem a programas de TV e filmes, substituindo as transmissões tradicionais. Serviços como Spotify e Apple Music também utilizam algoritmos avançados de IA que permitem personalizar a experiência de consumo de música e podcasts nos dispositivos móveis.
Em plena pandemia assistiu-se a um incremento significativo do comércio eletrónico em que empresas como Amazon e Alibaba tornaram as compras online uma parte essencial da vida quotidiana de muitas pessoas, oferecendo uma ampla variedade de produtos e entregas rápidas. Mais recentemente, tem vindo a existir a adoção de assistentes virtuais no serviço a clientes, utilizando os recentes avanços de Generative AI em múltiplos idiomas, permitindo a interação e controle por voz de dispositivos e a obtenção de informações. Para o mundo do entretenimento e da educação tem vindo a crescer a utilização de realidade aumentada e realidade virtual em jogos, aplicativos de RA em dispositivos como Oculus Rift, HoloLens e Apple Vision Pro para suporte a experiências imersivas.
E o ChatGPT veio para ficar?
A popularidade associada ao ChatGPT proporcionou um ponto de inflexão sobre a utilização pública e generalizada da Generative AI. Este é um formato que permite que todos os utilizadores possam experimentar e perceber o potencial disruptivo da tecnologia. Seja esta ou outra plataforma, a comodidade associada ao uso alargado desta solução será valorizada pelos utilizadores ao longo dos próximos anos, pelo que consideramos que terá uma expressão duradoura.
À medida que a tecnologia avança, quais são os perigos eminentes?
Os perigos associados à tecnologia podem ter algumas derivações, porém, o principal ponto está relacionado com a segurança.
A título de exemplo, e para falarmos de algo que é já do domínio comum, o ChatGPT levanta questões importantes sobre a utilização responsável da IA. A velocidade de evolução e adoção da tecnologia exige que as empresas prestem muita atenção a quaisquer riscos legais, éticos e de reputação em que possam estar a incorrer. Terão de responder a questões fundamentais sobre propriedade intelectual, privacidade e segurança dos dados, discriminação, responsabilidade pelos produtos, confiança e identidade.
Estamos a construir um mundo digital rico e significativo, mas acha que está conciliado com o mundo físico?
Atualmente, e no ponto de transição digital em que nos encontramos, podemos afirmar que os mundos físico e digital se tornaram inextricavelmente ligados, o que apresenta uma oportunidade empolgante de inovação tecnológica para as empresas. A fusão destes dois mundos não está apenas a gerar novos produtos e serviços – é a força por detrás de uma nova Era, que promove a criação de um conjunto de ferramentas e nos vão permitir reescrever a forma como a sociedade e a economia funcionam.
De acordo com a Accenture, qual é a tecnologia que vai moldar o futuro das empresas?
Acreditamos que a Inteligência Artificial e a Cloud são as principais tendências com maior impacto no sucesso das empresas no curto prazo e a adoção do Metaverso uma tecnologia emergente com elevado potencial disruptivo.
Como está o tecido empresarial em Portugal a comportar-se?
Tem vindo a massificar a utilização de cloud no desenvolvimento de novas soluções e a migrar outras existentes para novas arquiteturas baseadas em cloud que potenciem a inovação, agilidade e controlo de custos. À semelhança do que aconteceu há uns anos com a revolução das telecomunicações e adoção de dispositivos móveis, Portugal começa, por norma, mais tarde na adoção destas tecnologias, mas também aceleramos mais rapidamente do que outras economias.
Acreditamos que em breve estaremos com níveis de adoção de soluções cloud em linha com as economias mais inovadoras e de referência a nível global. Ainda estamos um pouco atrás na adoção em escala de IA no suporte aos processos de negócio, apesar de existirem excelentes casos de êxito, nomeadamente em empresas de cariz tecnológico e inovador como a Talkdesk, Farfetch ou Feedzai que potenciam a IA no desenvolvimento dos seus produtos. No tecido empresarial mais tradicional há uma crescente adoção de tecnologia de IA no suporte aos processos de negócio, em particular serviço a cliente, vendas e marketing e um espaço enorme de massificação nos processos corporativos e de backoffice. Em relação ao Metaverso existem exemplos disruptivos, nomeadamente, no sector bancário.
Falemos também dos riscos que acompanham alguns dos maiores impulsionadores da revolução entre a Ciência e a Tecnologia, como a biologia sintética e a computação quântica.
Como serão as empresas do futuro?
Há mais de 10 anos, a Accenture ressalvou que todas as empresas seriam obrigadas a ter negócios digitais por via da chegada de uma nova Era que vinha a transformar e Economia. Hoje, mais do que nunca, as empresas do futuro serão caracterizadas pela sua inovação, pelo olhar disruptivo com que encaram a velocidade de mutações no mercado e pela adaptação a novas exigências por produtos e serviços que incorporem a tecnologia para uma maior rapidez na obtenção dos objetivos de negócio desejados.
O futuro digital terá o toque do Homem ou vai escapar-lhe por entre os dedos?
O Homem estará sempre presente nesta equação que visa aumentar as capacidades operacionais das empresas por via de soluções tecnológicas. Pretende-se que haja uma simbiose entre o conhecimento humano e aquilo que é permitido pela maior digitalização do poder de trabalho. Podemos esperar o surgimento de um grande número de novas tarefas, a serem desempenhadas por pessoas, como por exemplo, a garantia da utilização exata e responsável das várias soluções.


