Passou o tempo eleitoral e as masterclass de debate ideológico. É bom debater ideias, mas as ideologias – ou melhor as crenças em geral, incluindo as políticas e as religiosas – quando inquestionadas, são perigosas. Como escreveu Simon Kuper no Financial Times, a abordagem ideológica leva-nos a olhar para o mundo com apenas um olho […]
Passou o tempo eleitoral e as masterclass de debate ideológico. É bom debater ideias, mas as ideologias – ou melhor as crenças em geral, incluindo as políticas e as religiosas – quando inquestionadas, são perigosas. Como escreveu Simon Kuper no Financial Times, a abordagem ideológica leva-nos a olhar para o mundo com apenas um olho aberto. Dois exemplos para acompanhar em 2024.
- À esquerda, a ideia de que Israel é o novo maligno desemboca na defesa do Hamas. Pessoas bem-intencionadas e progressistas, defensoras de agendas inclusivas, são capazes de defender um grupo terrorista. A ação das IDF tem certamente muitos pontos dignos de crítica e rejeição, mas é possível criticar a ação das forças armadas israelitas sem defender o Hamas. Como escreveu Clara Ferreira Alves a propósito do 7 de Outubro, “chamar a estes serial killers e sádicos ‘libertadores da Palestina’ e ao massacre um ‘ato de resistência política’ não passa de pornografia para consumo de alucinados. Vai para além da pornografia.” (Expresso, 3 de novembro).
- E, no entanto, é isso que segmentos da universidade americana têm defendido, com o beneplácito dos dirigentes. As mesmas autoridades que vigiam as ‘microagressões’ deixam passar as palavras de ordens anti-semitas. Perante estes alucinados levanta-se a frente da alucinação contrária: os apoiantes de Trump, na sua deriva fascista, capazes de normalizar o ataque ao Capitólio como uma ação de rua, tão ao agrado das vanguardas ideológicas.
Os extremos tocam-se, pelo que convém proteger a democracia, essa meta-ideologia, uma ideologia de ideologias, da ferocidade dos crentes de um (Team Palestine) ou do outro extremo (Team Israel), como lhes chamou Simon Kuper. Olhemos, pois, a ideologia com uma dose de ceticismo. Afinal, mais que uma questão de identidade, a política deve servir para resolver os problemas das pessoas.
PS outro exemplo do mal ideológico: a obsessão de Putin com a Ucrânia, que o leva a ver a mão ucraniana mesmo nas ações do Daesh. Se “hallucinated” foi a palavra do ano por causa do ChatGPT, também a podemos usar para falar de Putin. Alucinou.
