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Home Entrevistas «Não podemos pensar que o tijolo é o último grito da tecnologia na construção» (Nuno Vale)

Entrevistas

«Não podemos pensar que o tijolo é o último grito da tecnologia na construção» (Nuno Vale)

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21 Novembro, 2024 | 11 minutos de leitura

O futuro da construção é modular e em madeira, quem o diz é Nuno Vale, CEO da Kozowood, uma empresa portuguesa sediada em Esposende que conta com 74 colaboradores e projetos que representam investimentos de mais de 20 milhões de euros.   Das traseiras de uma garagem, para o chão de fábrica com 10 mil metros […]

O futuro da construção é modular e em madeira, quem o diz é Nuno Vale, CEO da Kozowood, uma empresa portuguesa sediada em Esposende que conta com 74 colaboradores e projetos que representam investimentos de mais de 20 milhões de euros.  

Das traseiras de uma garagem, para o chão de fábrica com 10 mil metros quadrados, tudo começou no Porto, com o gosto pela Arquitetura e o desenho, e a ambição de industrializar o setor da construção. A habitação modelar parte de uma ideia simples: construir uma casa a partir de painéis produzidos em série, para depois serem transportados e assemblados em obra.   

A Líder foi conhecer a história da empresa que partiu de um investimento de 5 mil euros e seguiu o sonho de modernizar o setor da construção em Portugal. E, tal como nos diz Nuno Vale, tudo começa e termina, para no futuro continuar, com uma premissa: ter paixão pelo que se faz. 

Tudo começa por um princípio. Como foi o início até chegar a CEO da Kozowood?  

Tudo começou em plena crise económica, entre 2012 e 2013, quando estava a trabalhar na direção de obras na FDO Construções. A empresa passava por grandes dificuldades financeiras e eu acabei por sair. Também nessa altura passei por um problema cardíaco que me fez estar internado um mês. No final, acabei no desemprego e a Isabel, minha mulher, que era na altura professora, fica também desempregada. Tínhamos acabado de ter a nossa filha e eu comecei a criar na minha cabeça várias possibilidades de negócio ligadas à construção pré-fabricada, pois já a idealizava.  

 

Já pensava na ‘industrialização da construção’? 

A habitação é um dos pilares da sociedade, mas, ao mesmo tempo, é uma das coisas que não está verdadeiramente industrializada. Não temos um setor prêt-à-porter, como em tudo o resto. Nos dias de hoje, ainda continuamos a ter o pedreiro com um balde de massa e um tijolo na mão! Há 100 anos fazemos a mesma coisa, só mudamos de pedra para tijolo.  E tudo o resto é industrial, como nos automóveis, vestuário e comida. Já há algum tempo que eu imaginava formas de pré-industrializar a construção. Naturalmente, comecei pela ideia da construção metálica. Mas, no decorrer dos meus estudos, percebi a potencialidade da opção das estruturas de madeira, e o caminho que estava a tomar na direção da sustentabilidade. 

 

O que o fez despertar para arriscar e tornar as ideias reais?  

Nessa altura, fomos de férias até ao Algarve, com a nossa filha ainda bebé. No caminho acampamos na Figueira da Foz, numa tenda, e foi horrível! O colchão não era bom, passámos mal a noite, e no dia seguinte fomos para o Z-Mar (eco-resort na Zambujeira do Mar que já não existe). Como já me doíam as costas, tentei alugar um bungalow e disseram-me que estava tudo esgotado. Voltei a dormir na tenda, mas resolvi esquiçar alguns modelos de bungalows de madeira já idealizados. Apresentei-os à administração do Z-mar e tentei dar a ideia de que já tinha a empresa. Gostaram e perguntaram se tinha capacidade de fornecimento. Entusiasmei-me com a ideia, e segui para o Algarve onde fiz um catálogo em papel com os modelos em 3D. Ganhei coragem e fui estudando o mercado.  Num dos últimos parques de campismo que visitei, em Armação de Pera, perguntaram-me o preço e mostraram interesse em comprar, assim que tivesse uma produção.  

 

O que se seguiu após esse clique? 

Voltei para cima e iniciei o processo de certificação e de patentear o produto. Eu tinha de produzir um modelo em tamanho real, mas tinha um problema grave – não havia dinheiro para o construir. Vendi o meu carro à minha irmã, por cinco mil euros, e com esse dinheiro comprei matéria-prima e as primeiras máquinas. Montei a bancada na garagem e ‘pus as mãos na massa’. Desde o início que eu pensei numa perspetiva que me permitisse produzir as peças em série, e em painéis, para a exportação e o transporte. Com a ajuda da minha mulher, comecei a construir o primeiro módulo sozinho, e a montar os elementos nas traseiras de casa. Aquilo era uma loucura, mas era um sonho! Percebi que tinha funcionado, tirei fotografias e fiz flyers que entreguei nos parques de campismo, onde todos mostravam muito interesse. Por volta de 2015, recebi a primeira encomenda para um parque de campismo na Praia do Meco. Criei a empresa, montei um espaço de exposição e o primeiro módulo saiu da parte de trás de minha casa! E foi assim que vendi os primeiros três. 

Quais foram os principais desafios ao início? 

Não tinha uma equipa para construir os módulos e recorri a uma fábrica, hoje minha concorrente, para produzir as primeiras estruturas, segundo as minhas orientações e de acordo com um NDA (non-disclosure agreement). A primeira grande encomenda foi para um clube de futebol francês, o Lille Olympique, onde em três meses construímos 32 módulos, com decks, corredores e arranjos exteriores, para usufruto dos jogadores. Terminámos três dias antes, correu tudo muito bem. Ganhámos mais credibilidade e os pedidos começaram a surgir em escala. Nessa altura, abrimos a nossa primeira fábrica, em Apúlia (Esposende). Tínhamos dois mil metros quadrados e um investimento de 100 mil euros para comprar as primeiras máquinas.  

 

E foi então que começaram a fazer casas para viver. 

Sim, nessa altura entrou para a equipa um arquiteto, hoje nosso diretor de produção, com quem começamos a fazer uma linha de casas, com três modelos. Na primeira semana, em desenhos 3D, vendemos 20 casas. Em 2021 era preciso mudar de espaço e passamos para 10 mil metros quadrados na zona industrial de Esposende. Candidatamo-nos e ganhamos o concurso à construção das 175 casas na Muda (Comporta), mas não tínhamos o capital para executar. Já se tratava de um investimento de mais de 20 milhões de euros. A Vanguard, promotor imobiliário do projeto, mostra interesse no nosso modelo de negócio, no sistema construtivo, e numa linha de produção CLT (Cross Laminated Timber), que é um sistema que permite construir estruturas maiores e em altura, com uma capacidade semelhante à do betão ou metal.  

Hoje, já existem edifícios com 20 pisos, construídos em estrutura CLT. Em meados de 2022, a Vanguard entrou como sócia da empresa e foi quando instalamos a linha de cross-laminated timber. Hoje, na Península Ibérica, somos a empresa mais tecnológica do setor, na produção industrial em escala off-site, em sistemas sustentáveis, com estruturas em madeira. 

Quais as vantagens da construção em madeira? 

A madeira traz a vantagem de resolver os problemas da construção tradicional, com a ausência de patologias, a vantagem térmica, acústica e a rapidez construtiva. Para além disso, tem a capacidade, face ao desenvolvimento tecnológico que já existe, de se poder construir praticamente qualquer estrutura. Produzir em painéis off-site e a assemblagem em obra,  permite-nos construir em fábrica para exportar para qualquer parte do mundo.

 

Quanto tempo demora a construir uma casa modular? 

Um T2, em wood frame, demoramos em fábrica um dia a produzir e dois dias em CLT. A parte estrutural, na obra, pode demorar entre três e cinco dias. Depois há os acabamentos que vão dar o timing mais real de construção. O tempo de estrutura, tradicionalmente entre cinco e seis meses, passa para uma questão de dias.  

 

É possível estar ‘em sintonia com a natureza’ e usar um recurso finito como as árvores e a madeira? 

Não, pelo contrário, é exatamente o oposto. A vantagem da madeira é que ela cresce. E isso já está legislado em termos europeus, isto é, não podemos simplesmente chegar a uma floresta e cortar as árvores. A  legislação obriga à utilização de matéria-prima proveniente de florestas com certificação de sustentabilidade. Estes sistemas construtivos  não são nenhuma novidade. O sistema tradicional construtivo na Suécia, Finlândia e na Noruega, nos países centro-norte da Europa, e também nos EUA, Canadá, Austrália e grande parte da Ásia, são em madeira. Comparativamente ao que já se fazia nos Estados Unidos, apesar de construírem mal e com uma legislação muito fraca, na Europa a legislação é muito exigente e nós temos o exemplo dos países escandinavos.  

 

O futuro da construção é, então, em madeira? 

Nós não podemos pensar que o tijolo é o último grito da tecnologia na construção! Hoje a tecnologia e o potencial da construção em madeira é enorme, e em Portugal, estamos na crista da onda. Estamos muito bem posicionados, temos tecnologia de ponta e estamos alinhados com as políticas de descarbonização. A madeira é carbono puro, um metro cúbico de madeira é uma tonelada de carbono. Uma casa (T3/4) construída integralmente em betão, desde utilizações energéticas, transportes, materiais, etc, produz 150 toneladas de carbono. Se for construída em madeira, são 150 toneladas negativas que capta da atmosfera. A madeira é essencialmente isso. E, em termos de construção, é a única matéria-prima que nós temos disponível que realmente pode crescer. O caminho é este, eu diria mesmo que não há outro caminho.  

Que skills de liderança destaca que foram essenciais para fazer este percurso? 

Acima de tudo ambição, acredito que tudo é possível desde que tenhamos força de vontade e acreditar que vamos chegar lá. Todos nós, se estivermos a executar aquilo que realmente gostamos de fazer, e tivermos esta ambição de querer ser melhor e crescer, vamos ser excelentes profissionais. É importante entender se a pessoa realmente gosta do que faz, isso percebe-se quando se fala com as pessoas, nos olhos, na atitude, na forma como falam, se têm, ou não, essa ambição, essa força de vontade. E depois, é a capacidade de trabalhar em equipa. Tem de haver uma perceção de união nas pessoas que estão à frente dos departamentos. Atualmente, eu sou um orientador do caminho a trilhar para toda esta equipa. Mas, também já existe um Conselho de Administração, e eu próprio estou sujeito a algumas guidelines. Enquanto lideranças, temos de transmitir confiança, certeza no caminho que estamos a tomar,  espírito de equipa e de união.  

 

Uma pessoa é naturalmente ambiciosa?  

Podemos nascer com mais propensão à ambição como qualquer outra característica nossa, individual, contudo eu acredito que não tem de ser assim. Por isso, é extremamente importante a pessoa estar confortável, se está ou não a fazer aquilo que gosta, porque todos nós somos ambiciosos. Às vezes, é mais uma percepção de incapacidade de se conseguir atingir, o que não é verdade. Eu não duvido que há pessoas extremamente ambiciosas que acabam desiludidas, a fazer coisas que não gostam. Tem de haver uma conjugação de fatores para que essa característica se exponha, e se apresente.  É importante as pessoas saberem qual é o caminho e para acreditar nelas têm de gostar do que estão a fazer.  

 

Também é preciso coragem.  

Sim, também. ‘Se eu fizer isto, será que vai resultar?’, eu tive de acreditar, é uma tomada de decisão interna. Podia continuar num outro caminho, que era a minha área, mas não era realmente o que eu gostaria de estar a fazer. E com aquele conjunto de fatores, abriu-se essa oportunidade. ‘O que é que eu tenho a perder?’, pensei e arrisquei. O facto de ter ao meu lado a minha mulher foi também importante. A Isabel  começou como minha sócia, com 30% da empresa, e hoje é diretora de Marketing da Kozowood. Ninguém faz nada sozinho, é sempre preciso dar as mãos e acreditar. É preciso confiar e entregar um bocado essa confiança a quem se está a dar as mãos. As coisas podem correr mal, mas é a única forma de crescermos. Sozinhos é possível, mas vai demorar uma vida inteira. No nosso caso, foi sempre um processo de crescimento sustentado até ao momento em que entreguei também parte da minha vida nas mãos de parceiros.   

Rita Rugeroni Saldanha,
Diretora de Conteúdos

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