João V (1689-1750), o rei “Magnânimo”, sobe ao trono aos 17 anos e coloca Portugal no centro das luzes do estilo barroco, da riqueza e do luxo. Fantasma do despesismo, do escândalo, dos excessos, das turbulências e do sexo. Quem foi este homem e que marcas deixou na História? Depois da Biografia de Marquês de […]
João V (1689-1750), o rei “Magnânimo”, sobe ao trono aos 17 anos e coloca Portugal no centro das luzes do estilo barroco, da riqueza e do luxo. Fantasma do despesismo, do escândalo, dos excessos, das turbulências e do sexo. Quem foi este homem e que marcas deixou na História?
Depois da Biografia de Marquês de Pombal, De Quase Nada a Quase Rei, (Contraponto), Pedro Sena-Lino publica El-Rei Eclipse, a biografia de D. João V, a partir das cartas pessoais, correspondência diplomática, jornais de época e narrativas de viajantes.
Neste livro, o biógrafo procura revelar o que fez deste homem o rei-sol: «o que fez e como fez esta pessoa para tornar-se ela mesma?» A Líder esteve presente na sessão de lançamento, no Palácio Marquês de Pombal, em Oeiras, no início de novembro, após a qual seguiu-se a entrevista com o autor.
Guilherme Oliveira Martins referiu que com Dom João V ‘temos os prolegómenos (conjunto de noções preliminares) do nosso iluminismo’ – o que está neste livro que corrobore esta afirmação?
João V foi um líder notável, sobretudo porque nele se vê o caminho para se tornar ele mesmo, os medos interiores e exteriores que escalou até que se tornasse ele mesmo. Nasceu para ser rei, foi ‘sebasticamente’ desejado, mas em muitos casos sofreu um eclipse, tão natural nos homens e nos astros, onde aprendeu a ser. Tanto, que desenhou rei e até parcialmente reino à sua imagem.
A esse processo de desocultação identitária correspondem também várias decisões que são consciente e projectadamente iluministas, e de que destaco: a Real Academia da História (de onde saíram o primeiro dicionário, a primeira descrição bibliográfica, fundamentais livros de História como a História Genealógica da Casa Real Portuguesa); enviou músicos e pintores para estudar em Roma; comprou e fundou bibliotecas que queria abertas com aulas práticas. Sonhara viajar pela Europa porque queria rasgar rios de conhecimento, como Pedro o Grande fizera pouco tempo antes na sua viagem (1697-98) pela Alemanha, Holanda e Inglaterra. Na sua vida pessoal, emerge da minha investigação o rei leitor compulsivo, sobretudo de Geografia e Matemática. Um homem que gostava de aprender como as coisas funcionavam: mete-se no meio das obras, quer aprender. Adorava conversar, perdia-se a falar com pintores, músicos, cientistas: que queria aprender. Ao contrário de Luís XIV não fazia da sua vida privada um espetáculo, embora fosse espetacular.
O que tinha D João V, tanto de luz como de sombra, que o faz ser um eclipse?
O título é uma provocação de várias formas; queria que fosse um daqueles claro-escuros barrocos, tão labirinto quanto joia. Mencionando apenas duas leituras: que dizer de D. João V que ele foi o rei-sol português é uma redução, e que a sua ação e a sua personalidade estão-nos quase ocultas, mas ainda assim emitem brilho. Era um homem convicto, corajoso, orgulhoso, mas também tomado por pesadas noites da alma. Contudo, no título queria igualmente vincar que subiu ao trono durante o eclipse da guerra, e que demorou tempo a encontrar o próprio brilho; mas também o outro eclipse, no fim da vida, durante 8 anos acamado e limitado. É um convite à desocultação. Ele também é eclipse porque não quiseram ver de frente a sua luz por vezes escura.
Não tivesse havido o ouro do Brasil, como seria este Rei?
Sobre isso não sei responder, porque entraríamos no campo da história virtual. O que juram os diplomatas franceses é que na década de 1710 se dependia tanto do ouro do Brasil que enquanto não chegavam os barcos quase se esvaziavam as caixas das esmolas em desespero. Assim conta o diplomata quase espião Viganego: «há bastante inquietação pois não há dinheiro aqui, nem na corte, nem na cidade; é quase incrível até onde esta necessidade vai. Não se pensa mais nem na paz, nem na guerra, nem nos embaixadores; só se pensa e fala na frota.»
O certo é que havia um plano cultural – das ideias que encena e realiza. Se imita Luís XIV é porque este vai procurar os modelos do império romano para se construir. D. João vai à fonte romana para recriar o tecido artístico e intelectual português. Com que fundos o teria feito não sei; mas o reinado abunda de boas medidas que talvez tivessem dado frutos e que são bem pensadas: ao seu ministro principal cardeal da Motta, contrariamente ao que se diz, não faltava um pensamento económico claro, o seu secretário Alexandre de Gusmão assinou várias visões económicas. Penso que ser Midas cegou o arquiteto que nele havia.

Referes a influência de duas mulheres ‘invisíveis’ no seu caminho. Quem era esta dupla feminina e o papel de cada uma individualmente?
A imagem frequente do rei é de um homem obcecado com a religião, beatão, de vida dupla: incontáveis as amantes, entre as quais freiras – mas que prendia os outros amantes de freiras. Achava-se acima da sua lei, e mesmo para as leis divinas achava poder ter qualquer tipo de exceção ou desconto.
O problema de D. João V é que foi usado um padrão repetitivo e redutor para o ler. E tão frequentemente, tantas reduções escondem uma amplificação. A Madre Paula representa isso: é a mulher que a ele associamos pelo escândalo de namorar uma freira de Odivelas e de ter um filho com ela, aí fazer um pequeno palácio dourado para os seus encontros, ter um filho que fez fazer Arcebispo. Escolheu-a e certamente amou-a ao seu jeito e contra todas as potências da terra e do céu.
Ora isto esconde as duas mulheres que o fizeram ser, que o tornaram ele mesmo. A mãe, a rainha D. Maria Sofia, segunda mulher de D. Pedro II, verdadeira chave perdida para compreender o final do reinado daquele e o sistema joanino. Morreu quando D. João V tinha quase 10 anos, mas educou-o na fé e na consciência de que era um grande príncipe europeu. Tudo o que a mãe decidiu em vida vai cumprir nos primeiros anos de reinado. Uma dessas decisões traz consigo precisamente a segunda mulher, prima direita de D. João V por via materna, arquiduquesa de Áustria, com quem a mãe o queria casar.
Ligando Portugal de novo ao centro da Europa, aos Habsburgo, era também pressionar a questão da igualdade entre potências católicas que será uma das obsessões joaninas. Esta mulher, D. Maria Ana, chega a Lisboa durante a Guerra da Sucessão Espanhola e encontra D. João V amancebado no Paço com uma das suas aias, a quem fizera promessas de casamento. Se D. João sobe ao trono com ideias claras – um programa a cumprir com Roma, por exemplo, passa os primeiros anos fazendo muito pouco.
Os franceses passam a ideia de que ele vive entre devoções e sexo, ambas excessivas. Nesse sentido é um excesso do pai, um marialva exemplar, e a mãe, quase uma santa viva. É, porém, a mulher e a doença que o acordam para o papel que tem de cumprir. É ela que dinamiza o Paço com música e novos rituais, que o acompanha silenciosamente nas decisões difíceis, que sabe sempre o seu lugar, mas que não deixa de lhe apontar o que pensa, enquanto educa e prepara os filhos. Tiveram zangas longevas, por causa das múltiplas amantes e porque os assuntos internacionais se metiam entre eles. No final da vida, quando lhe passa a regência, doente, sem bem a passar (outra desfeita…), chama-lhe “à rainha minha sobre todas minha muito amada e prezada mulher”. Não sei o que teria sido sem ela. Olhamos para a fachada de Mafra e lá está: a igreja no centro, a ala da rainha de um lado e do rei de outro, iguais; uma assunção, uma prova de amor.
Começas pela Biografia do Marquês de Pombal, cronologicamente posterior a D. João V, e agora, deste um passo ‘atrás’ para, tal como diz José Eduardo Franco, no prefácio, ‘ligar as fontes e fazer as fontes falar’?
Creio que essa é a pergunta que um biógrafo tem como estrela polar ao longo do seu processo – e que se torna depois em page-turner, espera-se, para o leitor: o que fez, quem fez, como fez esta pessoa para tornar-se ela mesma? Como deu à luz a si mesma? E o que isso significa, para além da sua identidade?
Foi esse precisamente o motivo que me afastava de D. João V; mais, que me fez hesitar na escolha sobre ele, que me levou tanto tempo na biografia a começar a conseguir compreendê-lo. É que D. João é um homem que nasce no cargo, vem ao mundo para o trono; é quase messiânicamente aguardado e trombeteado pelo Padre Vieira. Interessava-me mais compreender como um homem passara da quase irrelevância para a luz, e mais, criara uma identidade única para si mesmo, na sua representação e no sistema de poder – como foi o caso de Sebastião José. O seu trono de ministro, foi feito da matéria de muita exclusão, mas também da madeira de muitos caixões por si selados. D. João V, por seu turno, parecia-me, como dizem os brasileiros, um “filhinho de papai”, nascido no ouro. Nada mais errado, compreendi-o depois de terminar a biografia. Em dimensões diferentes, com opostos obstáculos, D. João V teve até maiores dificuldades em tornar-se ele mesmo do que Sebastião José. Depois de ver Sebastião José construir-se do quase nada, era um desafio perceber o mundo onde ele emergiu contra tantas adversidades, e compreender o rei que nascera para isso. Um reverso inescapável.
Que pontos em comum encontras entre os dois homens e o que julgas ser incompatível?
No tempo em que ambos confluíram, D. João V entreviu o talento de Sebastião José, mas não conseguiu ver o homem que em boa parte o eclipsaria. D. João gostaria de ter tido as luzes de Londres e Viena que Sebastião José bebeu com dor. Ambos aprenderam com solidão, mas tiveram extraordinárias mulheres que lhes abriram consciências.
Quando Sebastião José tem de decidir, o modelo é muito joanino, sendo que ele não é rei. Sebastião José é um alpinista que se cima com ventos favoráveis e uma capacidade de trabalho tirânica e titânica. Unia visão e a ação de raríssima forma. D. João V teria apreciado isso, mas gostava ele mesmo de fazer e decidir. E gostava de sábios e de gente verdadeira, da puta ao sábio. Era um homem de amizades fortes e afetivas, com imenso sentido de humor (e um mau humor épico). Percebe-se que recebeu da Mãe um amor incondicional e do Pai uma certa leveza, um gosto pela vida, mas triste. Com os seus amigos não era rei: com o astrónomo Carbone discutia descobertas astronómicas e mandava aos embaixadores pedidos que encontrassem novos artigos e dados cosmológicos. Metia as mãos na terra, engenheiro, vivendo em Mafra num quartinho simples. Tinha crises místicas e fechava-se na Arrábida como um monge. Já de Sebastião José disse celebremente antes de morrer a mulher de D. João V: «refalsado».
Como biógrafo, acreditas que ‘o poder do mais pequeno gesto gera consequências intergeracionais irreversíveis’. Que gestos, pela mão de D. João V, ressoam até hoje?
É um redemoinho que sofregamente liga a minha memória e a minha imaginação abraçados num vórtice: pensar como um gesto, uma decisão, uma hesitação, causaram tanto dano na vida de tantos, e sucessivamente. Na biografia de Sebastião José, o silêncio de Lisboa custou-lhe em Londres e Viena a saúde e grandes ideias que se tivessem ido em frente teriam causado grandes diferenças, como a criação de uma Companhia Oriental.
Nesta biografia, cada início de manhã de trabalho, quando me detinha à secretária, olhos fechados, antes de começar a trabalhar, limitado por um cansaço quase de Sísifo, podia por vezes quase entrever essa tapeçaria finíssima, mas a cada segundo adensando-se: eram vidas que se entrecruzavam e que esbatiam e esfarelavam, por causa de atos tão banais. O vórtice é maior quando o poder e a riqueza estão concentrados em demasia nas mãos de um ser só. Os pobres trabalhadores que morriam sem comida nem condições em Mafra: quantas crianças ficaram por nascer, quantos filhos desse projeto poderiam ter gerado tantos outros artesãos ou artistas?
A biografia desses seres esmagados e esquecidos – eram essas que eu gostaria de contar. Entendo a biografia histórica literária como uma forma de intervenção. Se é evidência limitante e classista que me foco num rei, no topo da pirâmide e não no leito de invisíveis e cadáveres sobre quem o seu poder se construiu é porque me move a urgência de compreender como e de que modo a sua personalidade, como raios, se intrometeu e como no seu raio de ação.
A biografia desperta e gera uma luta que deveria ser incansável pela igualdade de oportunidades. Com que erros do passado podemos aprender?
Gostaria de pensar que eu escavo o passado quebrado para o voltar a unir como um espelho de consciência. Ao alargar a consciência pessoal, expande-se a de pertencer a uma comunidade, espraia-se a nossa consciência coletiva. Não suporto biografias romanceadas porque encanar a perna à verdade é não crescer, é não ver a partir dos factos e permitir uma consciência real e alargada.
A biografia não é apenas descrição da vida – é representação da vida para que a consciência acorde do seu eclipse e uma nova consciência pessoal possa emergir. E até uma alertada consciência coletiva, sobre as feridas dos nossos líderes que se tornaram operativas e nossas, parte da nossa identidade comum. De como mecanismos feridos pessoais se tornaram vícios que bloqueiam um fluir de comunicação e de progresso. Não apenas aprendemos com as vidas dos outros – elas não são apenas monumentos, mas falhas tectónicas para nos acordar e nos expandir.
Nas notas finais da tua apresentação, referes: ‘Este não é o livro que eu queria ter escrito. É um livro que fica muito aquém do que eu gostaria de ter feito’. Se pudesses voltar atrás o que terias feito diferente?
Não se trata tanto de fazer de forma diferente: há uma técnica, entre escavação de arquivos, stalking de passos perdidos e obsessões arquitetónicas de construção que já fazem parte de mim. A biografia forma, mas também educa e amplia. Este livro precisava de uma década em vez de quatro anos para ser escrito. Esse tempo, infelizmente, eu não lhe poderia dar. Espero que eu tenha aberto suficientes escadas para leitores e escritores as explorarem.
Afirmas que por agora, as biografias acabaram, mas o que gostarias ainda de escrever?
Agora quero reaprender: quero ver o tempo escrever em mim. Não me sirvo da escrita, sirvo-a. Aguardo, escutando, o que o tempo e o silêncio me quiserem dar para que trabalhe: aqui estou, à porta da História.



