Celso Teixeira (42 anos) encontra-se no Centro Penitenciário de Badajoz, desde janeiro de 2024, a cumprir uma pena de quatro anos e meio por tráfico internacional. Vive num ‘regime aberto’, em que pode sair aos fins de semana, tem acesso ao telemóvel e internet. Em Portugal já passou por quatro prisões: Estabelecimento Prisional de Lisboa, […]
Celso Teixeira (42 anos) encontra-se no Centro Penitenciário de Badajoz, desde janeiro de 2024, a cumprir uma pena de quatro anos e meio por tráfico internacional. Vive num ‘regime aberto’, em que pode sair aos fins de semana, tem acesso ao telemóvel e internet. Em Portugal já passou por quatro prisões: Estabelecimento Prisional de Lisboa, Monsanto, Alcoentre e Pinheiro da Cruz.
O testemunho que se segue resulta de uma conversa telefónica, via whatsapp, e a sua publicação tem o consentimento e autorização do próprio.

A minha história conta-se como a de muitas pessoas que têm uma vida abaixo da média – sei que isso não é desculpa para tudo, mas é o que acontece com a maioria das pessoas que vivem, ou nascem, num determinado meio social e tentam conquistar o seu dia-a-dia. Uns seguem o caminho longo, que é o caminho certo, e outros procuram o mais curto, com os melhores e mais rápidos rendimentos. Foi o que se passou na minha infância. Sou nascido e criado em Loures, no Bairro de Fetais (Camarate), numa família sem recursos.
A primeira pena que cumpri, tendo sido condenado por seis anos e quatro meses, foi em 2015, no Serviço Prisional de Alcoentre, e depois as coisas não ficaram por aí. Nós queremos sempre mais e eu sou uma pessoa ambiciosa.
Quando estamos presos existem duas regras: a do Estabelecimento e a regra do próprio detento. Eu não falo com ninguém, não dou muita confiança, gosto de estar no meu canto, porque aprendi a ser assim. E tanto aqui, como em Portugal, escolho estar em silêncio. Aqui, o silêncio é uma vantagem. Há funcionários que dão ‘mais espaço’ ao preso, o que acho ser importante, e são esses com quem nos ligamos mais. Outros escolhem o silêncio total e eu também opto por essa regra.
Mas quando entro na cela sou aquela pessoa que chora, que pensa no erro que fez. Sofro e converso muitas vezes em silêncio, tentando procurar respostas na minha mente. Depois, quando saio da cela, tento ter um sorriso para transmitir às pessoas que estou bem. E não estou.
A minha liberdade é a minha mente
Para mim, o silêncio é um bom conselheiro e o trabalho também me ajuda. Aqui trabalho todos os dias como ‘ordenança’, um género de faz-tudo, em Portugal estive nas vindimas e a fazer limpezas. A minha liberdade é a minha mente, isto é, é aquilo que eu ainda tenho dentro de mim. E temos de acreditar nisso, porque senão, ao passarmos quase todo o dia trancados numa cela, o pouco que resta de nós perde-se. Há um filme que me inspira muito sobre a liberdade de um preso que é O Furacão (Hurricane), com o Denzel Washington.
Tento estar, o mais tempo possível, aberto, ‘livre’ dentro da cadeia, seja a trabalhar ou a estudar. Neste momento, tenho acesso a telemóvel e internet e é assim que passo melhor o meu tempo. Quando não era assim, havia uma parte do silêncio que, à mínima coisa, nos causava uma aflição. Situações às quais, lá fora, não damos importância, aqui dentro tornam-se graves, porque a nossa mente está esgotada.
Ao estarmos anos aqui dentro, encerrados, à procura do nosso espaço, basta um suspiro mal dado do companheiro do lado, ou uma palavra de um funcionário, que mandamos tudo por água abaixo e depois vêm as consequências, os castigos ou um processo interno, o que nos vai atrasar a vida.
Para evitar isso, ando praticamente sempre sozinho, pois isso também descreve muito da pessoa em si, principalmente aos olhos dos guardas. Há um livro onde anotam todas as ocorrências do dia e eu não quero fazer parte desses registos. Já existe um preço a pagar por ser negro. Em Portugal, 80% dos reclusos são negros, há racismo e a maioria das confusões que existem é à volta das pessoas de cor. Eles vitimizam-se a eles próprios – não é a maneira como as pessoas são vistas dentro da cadeia, é a forma como nós escolhemos andar dentro da cadeia.
Quando estive preso em Portugal, onde o ambiente é muito diferente, há muita confusão e violência, valeu-me não só a minha experiência de vida na rua, mas o silêncio que prevaleceu muito. Se estamos em silêncio, não damos uma opinião sobre a confusão de outra pessoa. O silêncio protege-me, é o meu escudo, e quebrá-lo pode trazer consequências irreparáveis.
Para não ser mais uma estatística, tento afastar-me, passar despercebido e ser reconhecido de outra forma, o que é difícil porque tenho 1,90 m e peso 110 quilos! Aqui em Espanha, assim que conquistei o meu espaço comecei a ter oportunidades de trabalho, como este que agora tenho, o que me leva a chegar ao final de mais um dia com alegria. O que me permite resistir é o silêncio – é a melhor coisa. O silêncio é, por isso, para mim, 100% valioso.
Este artigo foi publicado na edição nº 28 da revista Líder, sob o tema Silêncio. Subscreva a Revista Líder aqui.

