Cozinhar é uma prática antiga e universal. Porém, as oportunidades e o reconhecimento de quem a exerce como profissão foram, como por vezes ainda o são, influenciadas por estereótipos de género. Historicamente, o trabalho na cozinha surgiu como uma extensão do trabalho doméstico que se atribuía às mulheres. No entanto, quando a cozinha se profissionalizou, […]
Cozinhar é uma prática antiga e universal. Porém, as oportunidades e o reconhecimento de quem a exerce como profissão foram, como por vezes ainda o são, influenciadas por estereótipos de género.
Historicamente, o trabalho na cozinha surgiu como uma extensão do trabalho doméstico que se atribuía às mulheres. No entanto, quando a cozinha se profissionalizou, os homens passaram a dominar o sector. Esta realidade passou a ser justificada pelas condições duras e exigentes das cozinhas que muitas vezes eram comparadas a ambientes militares. Além disso, enaltecia-se o espírito competitivo e as qualidades de liderança e de organização que erradamente se acreditava serem predominantes nos homens. E assim começaram a crescer os estereótipos de género.
Hoje, a maioria dos restaurantes de alta-gastronomia ainda é liderada por homens. Felizmente, muitas mulheres têm vindo a enfrentar o desafio e, apesar das dificuldades, têm provando o quão competentes e talentosas são. O preconceito começa a atenuar-se. O tema da inclusão está cada vez mais presente no meio da gastronomia e da restauração e as mulheres estão a ganhar vez mais visibilidade e reconhecimento. Entre as muitas mulheres chefs que se têm vindo a destacar e a quebrar barreiras são de mencionar, em Portugal, a chef Justa Nobre, a chef Marlene Vieira e a chef Noélia Jerónimo e, a nível internacional, a eslovena Ana Roš, chef e proprietária do restaurante Hiša Franko, que em 2017 foi reconhecida como “Melhor Chef do Mundo” pela academia do ‘The World’s 50 Best Restaurants’, e que em 2023 foi distinguida com três estrelas Michelin, ou Dominique Crenn, a primeira mulher a receber três estrelas Michelin nos Estados Unidos.
É fundamental combater os mitos relacionados com as capacidades das mulheres enquanto líderes/chefs. A ideia de que a liderança masculina é superior deve ser desconstruída.
As mulheres que queiram seguir esta carreira devem ter as mesmas oportunidades para assumir papéis de liderança e para serem agentes de inovação e de evolução. É essencial promover um ambiente inclusivo que valorize as contribuições de todos, independentemente do género.
Para que esta mudança de paradigmas seja efetiva, é necessário um compromisso coletivo e a implementação de ações concretas, em todo o mundo, tais como: a criação de programas de mentoria que conectem chefs em início de carreira a profissionais mais experientes, a criação de redes de contactos e de apoio (networking), cursos e programas de formação em liderança feminina e a promoção de congressos, festivais e eventos que destaquem o trabalho de mulheres chefs. Além disso, os restaurantes e organizações devem adotar políticas que promovam a diversidade de género nas suas equipas e que assegurem oportunidades de crescimento justas e a adopção de critérios de mérito para o acesso a posições de liderança.
A pertença e a inclusão na gastronomia não devem ser um tema secundário, mas uma prioridade a longo prazo. O papel das mulheres na cozinha é tão vital quanto o dos homens. Reconhecer que grandes chefs podem ser mulheres é um passo importante para transformar o panorama gastronómico e quebrar barreiras. Ao promovermos a igualdade de género na cozinha, enriquecemos a experiência gastronómica e contribuímos para uma sociedade mais justa, onde o talento e a criatividade são valorizados independentemente do género. É essencial que se divulguem as histórias de sucesso, que se celebrem as conquistas das mulheres chefs e que dê voz às muitas mulheres que fazem parte do universo da gastronomia para que inspirem as próximas gerações.
Nota do editor: No fecho desta edição, a chef Marlene Vieira foi distinguida com uma estrela Michelin, tornando-se a primeira mulher portuguesa a ganhar o prémio nos últimos 30 anos.
Este artigo foi publicado na edição nº 29 da revista Líder, sob o tema Incluir. Subscreva a Revista Líder aqui.


