Portugal vive uma das transformações mais rápidas da Europa na representação feminina em cargos de topo. O impacto das quotas impostas em 2017 tornou-se evidente: em oito anos, a presença de mulheres nos conselhos de administração das empresas cotadas disparou de 15,5% para 36,6%, uma subida de 136%. É mais do que duplicar, e coloca […]
Portugal vive uma das transformações mais rápidas da Europa na representação feminina em cargos de topo. O impacto das quotas impostas em 2017 tornou-se evidente: em oito anos, a presença de mulheres nos conselhos de administração das empresas cotadas disparou de 15,5% para 36,6%, uma subida de 136%. É mais do que duplicar, e coloca o país entre os que mais avançaram no continente. Os dados são do Innovators Forum’25 – powered by Sonae, que na semana passada reuniu mais de 500 participantes no Terminal de Cruzeiros do Porto de Leixões, num encontro dedicado ao papel da diversidade na competitividade empresarial.
Uma escalada rara na Europa
O ritmo de crescimento português é o quinto mais acelerado entre os 30 países analisados. Apenas a Roménia, Grécia, Malta e Irlanda avançaram mais depressa. A subida nacional é também muito superior à média dos países da União Europeia, que não ultrapassa os 44%. Este salto permitiu a Portugal ganhar terreno no ranking europeu: passou do 20.º para o 15.º lugar na lista dos países com maior presença feminina em conselhos de administração das cotadas.
Ainda assim, Portugal continua aquém dos líderes europeus. França mantém a dianteira, com 46,9% de mulheres nestes órgãos, seguida da Islândia, Itália, Dinamarca e Reino Unido, todos acima de 44%. A distância mostra que a evolução portuguesa foi robusta, mas o fosso histórico ainda não está totalmente colmatado.

O verdadeiro desafio está na gestão executiva
Se os conselhos de administração mostram progresso acelerado, as funções executivas, onde se tomam decisões operacionais e estratégicas, continuam a ser o terreno mais difícil de conquistar. Ainda assim, houve evolução. A presença feminina nas equipas executivas das cotadas cresceu 112% desde 2017, passando de 8,2% para 17,4%. É o quarto maior aumento entre os países europeus, apenas atrás da Áustria, Irlanda e Alemanha.
Mas os números absolutos revelam outra realidade: Portugal continua entre os sete países com menor peso de mulheres em funções executivas. Fica abaixo da média da União Europeia (23,7%) e só ultrapassa Polónia, Eslováquia, Chéquia, Áustria, Bulgária e Luxemburgo. No extremo oposto, Reino Unido, Noruega, Islândia, França e Suécia registam valores acima dos 30%, demonstrando que a paridade em cargos de decisão ainda é um objetivo distante para a maioria das empresas portuguesas.
Quotas: efeito visível, impacto estrutural ainda em construção
A evolução portuguesa não se explica apenas pela imposição das quotas. Segundo os organizadores do Innovators Forum’25, há uma mudança cultural em curso dentro das empresas, que começam a reconhecer que equipas mais diversas tomam decisões mais amplas, mais eficazes e mais alinhadas com o mercado.
Mas o mesmo estudo evidencia que, apesar das melhorias, o país continua preso a um padrão estrutural: mulheres chegam mais facilmente aos conselhos de administração, onde se discutem políticas e direções gerais, do que às equipas executivas que gerem o dia a dia do negócio. É aí que permanece o maior desequilíbrio e é também aí que reside o maior desafio para a próxima década.
Innovators Forum’25: diversidade como motor de competitividade
O encontro desta edição procurou lançar luz sobre essa mudança necessária. A sessão de abertura ficou a cargo de Cláudia Azevedo, CEO da Sonae, que reforçou a importância de assumir a Diversidade, Equidade e Inclusão como prioridade estratégica para qualquer organização que queira manter-se competitiva. A mensagem é clara: criatividade, inovação e performance dependem de equipas plurais e representativas.
O evento contou ainda com duas vozes de referência internacional. Oana Iordachescu, especialista europeia em talento inclusivo, conduziu uma intervenção centrada na cultura e na liderança que as empresas precisam de construir para acelerar a mudança. Já Sundiatu Dixon-Fyle, uma das figuras mundiais mais influentes em crescimento inclusivo, partilhou uma visão abrangente sobre o impacto concreto das políticas de DE&I nos resultados das organizações.
O programa incluiu vários painéis com especialistas nacionais e internacionais, que discutiram evidências científicas, metodologias e casos práticos de implementação de medidas de diversidade no tecido empresarial.
Uma década que mudou o rosto do poder mas não o suficiente
Os últimos oito anos deixaram marcas visíveis na composição do poder empresarial em Portugal. A presença feminina cresceu a um ritmo que poucos previam e o país deixou de estar entre os lanternas-vermelhas da Europa. Mas a distância entre administração não executiva e gestão executiva continua a ser o ‘ponto cego’ da transformação.
O Innovators Forum’25 lança por isso um desafio claro às empresas: acelerar a mudança, consolidar o progresso e promover talento feminino para posições de decisão real. O evento é aberto ao público e transmitido online, mediante registo em innovatorsforum.pt.
É um momento de balanço, mas também um aviso: a diversidade avançou e agora falta garantir que chega onde sempre deveria ter estado.



