Em pleno início de 2026, o mundo do trabalho continua a viver um momento de tensão entre práticas tradicionais e modelos que emergiram durante a pandemia de COVID-19. Embora muitas empresas fortaleçam mandatos de retorno ao escritório, outra parte significativa da força de trabalho e dos empregadores defende a flexibilidade, gerando desafios para gestão de talento, produtividade e cultura organizacional.
Nos últimos meses, várias organizações, incluindo grandes empresas e instituições financeiras, anunciaram políticas mais rígidas de retorno ao escritório (RTO). A Financial Conduct Authority (FCA), reguladora britânica, revelou recentemente que exigirá que seus funcionários trabalhem em média metade do tempo presencialmente a partir de setembro de 2026, com membros dos comités executivos a comparecer ainda com maior frequência. A medida pretende reforçar a colaboração, a comunicação e o desenvolvimento profissional dentro da organização.
Simultaneamente, relatos recentes indicam que algumas das ‘Fortune 100’ – conglomerados globais que dominam setores estratégicos – estão a reverter políticas de trabalho híbrido em favor de requisitos presenciais mais rígidos, chegando em muitos casos a cinco dias por semana no escritório para determinados cargos.
No entanto, esta mudança não se traduz de forma linear em maior presença física. Economistas e investigadores como Nick Bloom, da Universidade de Stanford, destacam que apesar dos mandatos organizacionais, cerca de 25 a 30% do trabalho continua a ser feito remotamente sob a superfície, muitas vezes através de acordos informais entre equipas e gestores. Este fenómeno, apelidado de ‘work-from-home dark matter‘, mostra que o trabalho remoto persiste mesmo em ambientes com políticas mais estritas.
Produtividade, ambiente e expectativas dos trabalhadores
O debate sobre retorno ao escritório não se prende apenas à presença física. Um estudo recente de uma empresa de tecnologia revelou que 71% dos trabalhadores afirmam que presença no escritório pode reduzir a produtividade por causa de fatores como ruído, más condições ambientais e interrupções frequentes.
Esses dados colocam em evidência a importância de transformar espaços físicos para além do modelo tradicional de trabalho sentado em frente a um computador. Empresas que redimensionam e reconfiguram as suas zonas colaborativas e silenciosas podem melhorar a experiência do trabalhador e justificar melhor os mandatos presenciais.
Ao mesmo tempo, as expectativas dos colaboradores em relação à flexibilidade nos modelos de trabalho continuam fortes. Pesquisas realizadas em mercados como os Estados Unidos indicam que uma grande parte da força de trabalho está disposta a procurar um novo emprego caso a flexibilidade seja retirada, sinalizando que qualquer estratégia rígida de retorno ao escritório pode resultar em perda de talento ou maior rotatividade.
Executivos e gestores também em contradição
Embora muitos esforços de RTO partam da liderança das empresas, as próprias equipas executivas e departamentos de recursos humanos mostram reservas. Uma análise recente demonstra que 45% dos líderes séniores estariam dispostos a aceitar uma redução salarial para manter regimes de trabalho remoto, enquanto uma parte significativa admite dificuldades em aplicar e fazer cumprir políticas de retorno ao escritório.
Este cenário evidencia uma contradição estratégica em muitos conselhos de administração: a intenção de reforçar a cultura e a colaboração presencial versus o reconhecimento de que a flexibilidade pode ser uma vantagem competitiva clara na atração e retenção de pessoal qualificado.
Flexibilidade como benefício competitivo
No plano prático, muitos especialistas de carreira e estudos institucionais destacam que o trabalho remoto e híbrido deixou de ser visto apenas como uma medida de emergência pandémica, transformando-se num benefício competitivo. Organizações que oferecem opções de trabalho flexível tendem a reportar maior retenção e atração de talento, especialmente entre gerações mais jovens que valorizam equilíbrio entre vida profissional e pessoal.
Por outro lado, modelos híbridos ‘estruturados’, em que a presença no escritório está vinculada a atividades colaborativas ou a fases específicas de um projeto, surgem como alternativas que equilibram objetivos corporativos com preferências individuais, reduzindo os atritos causados por políticas uniformes.
O futuro do trabalho no limiar de 2026
O quadro que emerge em 2026 é, portanto, multifacetado: empresas reforçam mandatos presenciais para reforçar cultura, colaboração e aprendizagem presencial; trabalhadores e gestores valorizam cada vez mais flexibilidade e qualidade de vida; e modelos intermédios tentam conciliar objetivos estratégicos com a autonomia do profissional.
A tendência geral aponta para uma evolução contínua, longe de um retorno unilateral ao passado, mas também distante da simplicidade do trabalho remoto absoluto. As organizações que conseguirem articular políticas claras, ambientes de trabalho adaptados aos novos tempos e benefícios que respeitem as expectativas modernas estarão melhor posicionadas para capturar talento, melhorar produtividade e construir culturas organizacionais resilientes no coração do século XXI.


