As eleições no Líbano voltaram a ser empurradas para fora do calendário político. É o adiamento, por dois anos, da democracia num país onde o tempo há muito deixou de andar ao ritmo normal, agora travado por uma guerra com Israel que se instalou no sul sem fim à vista.
E isso vê-se nos números: o Líbano é classificado como ‘regime híbrido’ pelo índice da Economist Intelligence Unit, com uma pontuação a rondar os 4,5 em 10, um lugar incerto entre democracia e disfunção. Já a participação eleitoral nas legislativas de 2022 ficou perto dos 41%, baixa para um país onde o equilíbrio político depende tanto do voto. Ainda assim, existe uma sociedade civil inquieta, capaz de encher ruas como em 2019, de atravessar linhas religiosas e gritar contra o sistema inteiro, o que cria um contraste estranho e quase doloroso: pouca gente acredita nas urnas, mas grande parte da população ainda deposita esperança que o país pode ser outra coisa.
Um sistema feito para evitar guerra, mas incapaz de a travar
O sistema político libanês é um equilíbrio delicado, quase barroco, onde o poder é dividido mais por religião do que por ideologia, numa tentativa histórica de impedir que o país volte a mergulhar numa guerra civil como a que o devastou no século XX. Por essa razão, o Presidente é sempre cristão maronita, o primeiro-ministro sunita, o presidente do Parlamento xiita, e os 128 lugares parlamentares são distribuídos milimetricamente entre comunidades. Uma arquitetura política que, como explica este guia da BBC, de alguma forma, é ao mesmo tempo engenhosa e paralisante, porque ao tentar representar todos, muitas vezes impede qualquer decisão estrutural de avançar.
No Líbano, há ainda um interveniente que mede forças com o mundo e também com o próprio povo. O Hezbollah é ao mesmo tempo partido político, força armada e ator social, e isso faz com que a perceção sobre ele dependa fortemente de região, comunidade religiosa e contexto político imediato. Em termos gerais, dentro da comunidade xiita — especialmente no sul do país e nos subúrbios de Beirute — o Hezbollah mantém um apoio significativo, visto por muitos como força de resistência contra Israel e como rede de proteção social num Estado frequentemente ausente. Já entre muitos cristãos, sunitas e setores urbanos mais laicos, cresce a sensação de que o grupo se tornou um Estado paralelo armado, com poder de veto sobre decisões nacionais e capacidade de arrastar o país para conflitos que a maioria não escolhe.
Além disso, é nesse espaço de bloqueio que o Hezbollah cresce, arma-se, transforma-se em ator político com base social real, ganha presença institucional e capacidade de influenciar — ou travar — qualquer tentativa de mudança. Uma encruzilhada de um grupo que há muito deixou de ser apenas visto como revolucionário, porque para uma parte do país ele continua a ser proteção e identidade, enquanto para outra já é limitação e risco permanente, e é precisamente nessa fratura que o Líbano vive politicamente desequilibrado, sem consenso interno suficiente para o integrar plenamente no Estado nem força suficiente para o eliminar do jogo político.
Israel afirma que está a agir em legítima defesa, respondendo aos ataques do Hezbollah ao longo da fronteira, uma narrativa consistente com a sua doutrina de segurança e amplamente repetida nos fóruns internacionais, mas quando se desce do nível estratégico para o chão concreto das cidades libanesas, o que se encontra são destroços e muitas dúvidas.
Um país que insiste em não caber na tragédia
O conflito não existe num vazio moral ou jurídico, e tem sido acompanhado por acusações graves em várias frentes, incluindo denúncias de ataques em áreas civis e uso desproporcionado da força, debatidas em instâncias internacionais e acompanhadas por organizações de direitos humanos, enquanto o próprio contexto regional é inseparável da guerra na Faixa de Gaza e das acusações de crimes de guerra associadas a esse conflito.
Neste cenário, o nome de Benjamin Netanyahu surge frequentemente no debate internacional sobre responsabilização em instâncias como o Tribunal Penal Internacional, ainda que esses processos sejam complexos, contestados e longe de consenso global. Os processos seguem lentos, disputados, muitas vezes inconclusivos, e as consequências no terreno continuam imediatas.
Todavía, há algo no Líbano que resiste à simplificação. Beirute continua a ser uma cidade onde a noite acontece, com uma riqueza gastronómica profunda com alguns dos pratos mais celebrados do Médio Oriente, como o mezze que faz parte da vida quotidiana. No fundo, no Líbano há uma convivência cultural que desafia os estereótipos mais preguiçosos sobre o mundo árabe.
As mulheres circulam com uma liberdade que contrasta com outros contextos regionais, a influência ocidental não é importada, está integrada, e há uma vida cultural que sobrevive, quase teimosamente, à sucessão de crises.
Talvez seja isso que torna tudo mais difícil de aceitar: o Líbano é vibrante, não está à margem, e continua a ser colocado, repetidamente, no centro de conflitos que não controla. Quando as eleições finalmente acontecerem (e neste momento isso é mais uma hipótese do que uma certeza) serão mais um teste à própria ideia de Estado libanês.
Será possível reduzir o peso armado do Hezbollah através da via política? Conseguirá o Estado recuperar soberania real sobre o seu território?
Ou continuará o país a existir num equilíbrio instável entre instituições formais e poderes paralelos? E a relação com Israel, que para todos os efeitos não deixa de ser vizinho?
Tudo é uma incógnita e, por agora, ficam os números que nunca contam tudo, proliferam as análises que raramente chegam às pessoas certas, e resistem os libaneses que continuam a dançar, com ameaças de bombas a cair, a mostrarem ao mundo o ato mais político de todos: continuar vivos.


