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Home Leading Opinion Opinião A Liderança e a Pluralidade dos Silêncios

Opinião

A Liderança e a Pluralidade dos Silêncios

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1 Janeiro, 2025 | 5 minutos de leitura

O silêncio pode contribuir para tranquilizar a mente e o corpo, refletir e ponderar sobre os nossos planos, analisar as raízes dos nossos erros, e fazer introspeção. Sem silêncio, é mais difícil escutar a voz interior que nos ajuda a compreender quem somos e o impacto que estamos a gerar nos outros. Esse esforço orientado […]

O silêncio pode contribuir para tranquilizar a mente e o corpo, refletir e ponderar sobre os nossos planos, analisar as raízes dos nossos erros, e fazer introspeção. Sem silêncio, é mais difícil escutar a voz interior que nos ajuda a compreender quem somos e o impacto que estamos a gerar nos outros. Esse esforço orientado para o autoconhecimento é crucial nos líderes – pois a liderança é, acima de tudo, um processo de influência sobre os outros.

Quem não toma consciência do efeito que exerce sobre os liderados dificilmente consegue mobilizar-lhes as energias – e pode tornar-se cego à realidade. A consequência pode ser perversa para a organização, os liderados e o próprio líder. Jan Masaryk (1886-1948), diplomata e político, ministro dos Negócios Estrangeiros da então Checoslováquia, entre 1940 e 1948, terá dito que «os ditadores são governantes a quem tudo corre bem até aos últimos dez minutos».

Este pensamento ajuda a explicar o que ocorreu a déspotas como o líbio Kadhafi ou o romeno Nicolae Ceaușescu. Quando se deram conta de que estavam perante o “cadafalso”, já era tarde. A tese de Masaryk também ajuda a compreender porque o outrora bem-sucedido Carlos Ghosn foi apanhado de surpresa quando, chegado ao aeroporto de Haneda, em Tóquio, em 19 de novembro de 2018, foi preso sob acusações de ilegalidades.

Tanto havia instigado o silêncio obediente das pessoas que liderava que deixou de estar informado do impacto que algumas das suas decisões exerciam sobre a empresa e vários stakeholders. Com estas ideias em mente, em vez de me focar na prática do silêncio como instrumento que ajuda os líderes a desconectarem-se do “ruído” do mundo e “meditarem”, discutirei o silêncio como veículo que os líderes podem usar para compreender e escutar os liderados. Fá-lo-ei em sete reflexões. 

  1. Se pretende conhecer o que os liderados verdadeiramente pensam sobre uma dada matéria, cale-se até que eles falem. O seu silêncio criará espaço para que eles se expressem francamente e lhe deem a conhecer a interpretação que fazem da realidade e de modo como com ela lidar.
  2. Se, numa reunião, os participantes se mantêm em silêncio, não assuma que concordam consigo. Podem simplesmente recear expressar o que pensam – temendo ser repreendidos, desautorizados ou rotulados de “fracos jogadores de equipa”. 
  3. As pessoas podem fazer silêncio, dentro ou fora das reuniões, com intuitos cooperativos – para evitar conflitos, manter a harmonia interpessoal, ou preservar a coesão. Mas essa cooperação pode ser perigosa se ocultar problemas ou remover da discussão assuntos que, embora melindrosos, são essenciais para a tomada de boas decisões.
  4. Mesmo quando o silêncio resulta do respeito pela autoridade, o resultado pode ser catastrófico. Em janeiro de 1989, um Boeing 737 da companhia aérea British Midland sofreu um acidente fatal porque, perante um incêndio do reator esquerdo, o piloto desligou o… do lado direito. Soube-se depois que alguns comissários de bordo se haviam dado conta do erro – mas, segundo um sobrevivente, não comunicaram essa informação porque «não quiseram minar a autoridade dos pilotos». Quantos erros de liderança se cometem, no quotidiano das nossas organizações, porque os liderados não querem “minar a autoridade” dos líderes?
  5. O silêncio dos liderados pode simplesmente resultar da convicção de que é inútil (ou mesmo fútil) expressar voz – ou da necessidade de se protegerem. Essas são formas passivas de silêncio. Mas outras são mais proativas. Cuide-se: os seus liderados podem ficar em silêncio com o intuito maquiavélico, ou cínico, de o conduzirem a “meter o pé na poça” e, ao mesmo tempo, desresponsabilizarem-se das consequências. A probabilidade desta conduta é enorme se, anteriormente, os desancou por terem discordado de si. O silêncio dessas pessoas é, pois, uma tática retaliatória.
  6. Rodeie-se de pessoas que se expressam francamente e são capazes de “comunicar a verdade ao poder”. O seu silêncio, como líder, pode ser o espaço de que elas necessitam para “abrirem o bico”. 
  7. Contudo, não assuma sempre que, com o seu silêncio, nada está a comunicar. Eis um princípio básico da comunicação: “Não é possível não comunicar”. A razão é cristalina: os liderados interpretam o seu silêncio e atribuem-lhe intenções. O seu silêncio pode não comunicar o que pretende (não) comunicar-lhes, mas comunica o sentido que os liderados lhe atribuem. Por conseguinte, é fundamental saber usar o silêncio com sabedoria e sensatez. 

O silêncio é importante para escutar. Escutar é fundamental para aprender. E aprender é essencial para crescer como pessoa, como profissional e como líder. A consideração destes aspetos é particularmente relevante para mitigar alguns perigos de uma moda: a da autenticidade dos líderes.

Alguns líderes francos e autênticos falam mais do que devem. Francos mas desprovidos de prudência, ou simplesmente desejosos de mostrarem o seu “verdadeiro eu”, estes líderes veiculam alguma arrogância e acabam por nutrir climas de silêncio perigosos. Podem até escutar a voz interior – mas essa está desconectada da realidade, pelo que o silêncio lhes permite ouvir apenas o que desejam ouvir. 

Arménio Rego,
LEAD.Lab, Católica Porto Business School

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Arménio Rego https://lidermagazine.sapo.pt/wp-content/uploads/Armenio-Rego-1-600x400-1-600x400.jpg
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