Tendo estado uns dias fora do país, no regresso encontrei Portugal concentrado em dois palcos: o das JMJ e o de Keyla Brasil, nova celebridade transgénero. Creio que quando Debord ou Vargas Llosa falaram de uma sociedade do espetáculo não pretendiam ser tão literais. Em Portugal às vezes parecemos levar as coisas demasiado à letra. […]
Tendo estado uns dias fora do país, no regresso encontrei Portugal concentrado em dois palcos: o das JMJ e o de Keyla Brasil, nova celebridade transgénero. Creio que quando Debord ou Vargas Llosa falaram de uma sociedade do espetáculo não pretendiam ser tão literais. Em Portugal às vezes parecemos levar as coisas demasiado à letra.

Entretanto porque the show must go on, já havia outro número: o prémio da presidente da TAP, algo como dois milhões. Num país pobre, o dinheiro que os outros ganham é sempre um problema, mas a onda de indignação parece confirmar que passámos a viver destes números (no duplo sentido da palavra): cada escândalo parece ser cuidadosamente alimentado para distrair as atenções do anterior. E assim, caso após caso, se vai criando espaço para os populistas redentores. Quando estes chegarem ao governo vai ser, como é óbvio, um novo escândalo que, todavia, ninguém viu chegar.
O prémio da presidente da TAP só seria um escândalo em países como Portugal: que é indecoroso, que a empresa está a despedir pessoas, que recebeu ajudas do governo. Tudo certo. Mas quem quereria ser presidente de uma empresa nas condições da TAP com salário de função pública? Talvez alguém com grande desapego material, um assolapado amor à pátria, um traço masoquista e nenhum currículo. Ao mesmo tempo que o escândalo era comentado, fechava o mercado de inverno no futebol com os milhões a jorrar: 30, 50, 120. Mas nesse caso tudo bem: jogar à bola é certamente mais merecedor de recompensa que ajudar a alcançar os objetivos da TAP. Limitação minha, por certo, mas eu é que não alcanço.
