“Transformação digital” é uma expressão com três palavras. A palavra escondida, mas não menos importante, é “pessoas”. Refiro-me, aqui, aos membros organizacionais, stakeholders fundamentais do processo transformativo, por duas razões. Primeira: essa transformação destrói postos de trabalho, transforma o conteúdo dos existentes, e cria funções que requerem novas competências. Para algumas pessoas, a nova vaga […]
“Transformação digital” é uma expressão com três palavras. A palavra escondida, mas não menos importante, é “pessoas”. Refiro-me, aqui, aos membros organizacionais, stakeholders fundamentais do processo transformativo, por duas razões. Primeira: essa transformação destrói postos de trabalho, transforma o conteúdo dos existentes, e cria funções que requerem novas competências. Para algumas pessoas, a nova vaga é uma fonte de oportunidades. Para outras, é uma ameaça. É necessário que as organizações e as sociedades desenvolvam mecanismos e medidas que promovam a aplicação, a adaptação e o desenvolvimento de novas competências. Caso contrário, alargar-se-á o fosso entre os abençoados com as competências necessárias e os que ficarão excluídos. As desigualdades agravar-se-ão, com consequências nefastas para a estabilidade social e a saúde das democracias liberais. É igualmente crucial que as pessoas (e.g., os gig workers) não sejam transformadas em “abstrações” ou “objetos” geridos por algoritmos que, embora repletos de “inteligência”, tomam decisões estúpidas ou humanamente destrutivas.
A segunda razão para colocar as pessoas no cerne do processo é que o êxito da transformação depende do envolvimento das mesmas. Tsedal Neely (Harvard Business School) e Paul Leonardi (Universidade da Califórnia, Santa Bárbara) recomendam, a esse propósito, o desenvolvimento de um mindset digital – uma cultura de aprendizagem contínua, uma forma de pensar e atuar que coloque a transformação digital na vida quotidiana da organização. O desenvolvimento dessa mentalidade requer o cumprimento de duas condições. Primeira: é necessário que as pessoas acreditem nas potencialidades da transformação digital, sob pena de não aderirem ao processo nem se empenharem na implementação do mesmo. Essa crença é mais provável quando as pessoas são encaradas como parceiras do processo, capazes de contribuírem para o sucesso do mesmo e beneficiárias desse êxito. Segunda condição: é crucial que as pessoas desenvolvam autoconfiança para aprender as novas competências. Envolvê-las, apoiá-las, estimulá-las e investir na sua formação e desenvolvimento é imprescindível.
As pessoas que não estão cientes das vantagens da transformação digital nem se sentem confiantes para aprender as novas competências encararão a transformação como opressiva. Resistirão ou sentir-se-ão alienadas. Outras pessoas poderão estar cientes das vantagens da transformação digital – mas, ao mesmo, tempo, não acreditar que são capazes de cumprir a sua parte. Desenvolverão frustração por não se sentirem capazes de participar ativamente na construção da nova realidade. Finalmente, algumas pessoas poderão ter confiança nas suas capacidades de aprendizagem e adaptação – mas, ao mesmo tempo, não estar cientes da importância da transformação. Desenvolverão indiferença.
Sentimentos de opressão, frustração e indiferença hipotecarão os esforços de transformação digital. E terão consequências ao nível societal, sobretudo nas economias operando num estádio precoce de digitalização e com sistemas educativos e de formação menos desenvolvidos. Termino, pois, reiterando o que escrevi, em parceria com Miguel Pina e Cunha, no livro Ágil – Transformação Organizacional para o Digital (Principia, 2022): “As tecnologias não podem ser desinventadas! Por conseguinte, importa considerar os possíveis ganhos, mas também os riscos – para que, em parceria, empresas, Estado e sociedade civil usem a oportunidade tecnológica para criar sociedades mais justas e equilibradas. As gritantes e crescentes desigualdades podem representar pólvora social que, mais dia menos dia, explode. Se a transformação digital ignorar essa possibilidade, há sérios riscos de que se cave um fosso ainda maior entre os alfabetizados digitais-tecnológicos e os analfabetos. Convém atuar antes que seja tarde.”
