O presentismo é a mentalidade segundo a qual as ideias geradas no tempo em que eu vivo são melhores do que as outras, pelo facto de terem sido geradas no tempo em que eu vivo. Conclusão: o século XXI é que é. Lá atrás, no corredor escuro do passado, encontram-se algumas ruínas com certo interesse […]
O presentismo é a mentalidade segundo a qual as ideias geradas no tempo em que eu vivo são melhores do que as outras, pelo facto de terem sido geradas no tempo em que eu vivo. Conclusão: o século XXI é que é. Lá atrás, no corredor escuro do passado, encontram-se algumas ruínas com certo interesse turístico, na melhor das hipóteses.
Esta forma de ver as coisas, notavelmente provinciana, corresponde a uma concepção quase mágica da história, que faz equivaler a passagem do tempo a uma marcha imparável da Humanidade em direcção a um lugar melhor. Assenta numa crença curiosa: os homens enganam-se mas a história não. E traduz-se num princípio de orientação vital: se é novo, se acabou de aparecer, então deve ser bom; se está associado a um tempo remoto, lamentamos mas…
Há factores pragmáticos a alimentar o êxito do presentismo nos dias que correm. Ele é potenciado por uma organização da sociedade marcada pelo bombardeamento constante de estímulos, estímulos esses que apontam para o presente como ponto de encontro exclusivo de todas as possibilidades interessantes. Estar a par daquilo que se apresenta como a actualidade é hoje um trabalho a tempo inteiro, como se sabe.
Puxados a cada minuto pelos mecanismos da economia da atenção, lá vamos nós — funcionários obedientes e sem esperança de um regime que não nos entusiasma particularmente — espreitar a mais recente notícia do jornal, responder à derradeira mensagem de WhatsApp, navegar pelas redes sociais entre frequentes tempestades publicitárias, num ciclo tão frenético quanto monotonamente repetido.
Uma das consequências deste afunilamento no imediato é perder de vista a riqueza que a tradição oferece. A actualidade passa a ocupar todo o espaço e acaba por soterrar o património cultural do passado — que poderia ajudar a ver melhor o presente, mas exige, para isso, outro tipo de disponibilidade da parte dos indivíduos.
Esquecido sob a tralha que se vai acumulando no espaço público e determinando a paisagem das relações sociais, jaz pacientemente o tesouro das grandes ideias que os grandes espíritos reuniram ao longo dos séculos. A Grécia antiga e o Cristianismo, em particular, nunca deixam de oferecer luz a quem lhes oferecer o seu tempo.
Se eu tivesse de recuperar hoje uma dessas peças soterradas — uma só peça desse tesouro de perspectivas menosprezado pela cultura contemporânea — seria a consciência de que nós recebemos a vida. A consciência de que somos resultado de uma espécie de beneplácito alheio, talvez cruel, talvez generoso, mas em todo o caso alheio.
De facto, nenhum ser humano parece ter vindo parar aqui por decisão própria, nem consta que algum tenha tido uma palavra a dizer na construção da encrenca em que está metido. Damos por nós já configurados de uma determinada forma, com nariz e paixões e língua e memória e vontade de ir à casa-de-banho e aspirações principescas e toda uma constituição de deixar boquiaberto o mais sábio dos sábios. Damos por nós determinados de uma maneira que não escolhemos e sem notícias do propósito de isto ser como é.
É certo que, com uma naturalidade também ela digna de espanto, tendemos a lidar com a forma da existência como se fôssemos velhos amigos que se tratam por tu.
Mas, dando um passo atrás e procurando ver as coisas pela primeira vez, assombrar-nos-emos com a circunstância de termos recebido, vindo sabe-se lá de onde, o desafio de assistir e participar nesta vida, nesta vida tão exigente e tão sem mapa, com todas as possibilidades grandiosas e miseráveis que contém. Descobrir que se está vivo é ser tomado pela estranheza de uma dádiva desmesurada.
É evidente que este tipo de pasmo radical está na origem de quase todas as produções culturais relevantes. A poesia portuguesa — isto é, a poesia de um povo que nem sequer tem uma propensão metafísica muito vincada — é um caso sintomático. Abrimos um poema de Camões e lá está ele a lamentar a forma desconcertada como o Mundo se organiza.
Abrimos um poema de Pessoa e lá está ele às voltas com o mistério insondável de “haver ser”. Se destaco hoje esta ideia do carácter recebido e estranho da vida, não é, portanto, com qualquer pretensão de originalidade, mas apenas porque se trata de um dado básico da consciência de si que a cultura contemporânea tem varrido para debaixo do tapete. Sondando a cultura actual, é notório que a ênfase foi deslocada para a questão da auto-determinação. O que queremos ser, a maneira como a sociedade impede que o sejamos, a distância entre os desejos já estabelecidos e o Mundo, etc. No princípio era o Desejo Humano, proclama-se por todo o lado. Mas trata-se de uma mentira.
No princípio — se quisermos ser rigorosos quanto aos fenómenos — era o facto de a vida, com a sua peculiaríssima forma e como um enigma por decifrar, nos ter chovido em cima.
Talvez a ansiedade do Homem contemporâneo esteja relacionada com esta novidade histórica: ter sido dispensado pela própria época de procurar a verdade sobre o enigma que é e convidado a assumir — com um sorriso amarelo e um aceno morno para as câmaras — que está radiante por poder ser o que quiser.
O ponto que pretendo sublinhar, porém, é outro. As consequências psicológicas das formas de sentido existencial em voga têm sido alvo de destaque, com referências múltiplas à saúde mental e problemas afins. Menos referidas são as suas consequências cognitivas.
É precisamente esse o aspecto digno de nota: não descurando a quantidade de maravilhas que a cultura contemporânea nos oferece, ela promove, através da multiplicação dos estímulos e da obsessão mono-maníaca com o direito à auto-determinação, uma forma de lidar com o Mundo inimiga desse espanto radical que é o início de toda a lucidez. Vendo bem, tomar consciência de que nascemos com o poder de decidirmos que rumo seguir só deveria agravar o espanto de as coisas serem como são.
O que me posso determinar a ser, por mim próprio, ocorre já no interior do constrangimento do que me constitui — ser um sujeito com pernas e desejos, filho dos seus pais, etc. — e, mais relevante do que isso, em virtude desse mesmo modo-de-ser que me calhou em sorte: eu não determinarei nada de nada se antes o livre-arbítrio não me tiver sido concedido. É nesse sentido que a descoberta da capacidade de auto-determinação reforça a impressão de estranheza descrita atrás. Porque é que me tiraram da paz do sono do nada, obrigando-me a tomar decisões nesta encruzilhada de alternativas? Através de que artes mágicas, por que razões obscuras, fui eu atirado para este lugar em que tudo sabe a tão pouco e em que não posso não definir um caminho? Mas há mais. Tomar consciência deste poder de auto-determinação não só aprofunda o espanto, como transforma o seu conteúdo numa interpelação: que faço eu com isto?
Temos em cima da mesa, assim, duas versões do espanto significativamente diferentes. De um lado, a versão corrente, acerca da qual não há muito a dizer. O espanto como exercício intermitente, arejamento mental, passatempo burguês. Uma actividade com hora de abertura e hora de fecho, quando tiramos a tarde de folga e compramos bilhetes para o museu.
Do outro lado, o espanto de quem acordou para o facto primeiro: haver ser, comigo cá dentro. Um espanto que é a inteligência a rir-se dela própria e o coração em curto-circuito por se descobrir estrangeiro de si mesmo. O horror sagrado perante a existência, que Coleridge afirma ter acometido as mentes mais nobres das idades antigas.
Este artigo faz parte da edição de outono da revista Líder, com o tema Humanity is Calling – Be Silent, Decide with Truth. Subscreva a Líder aqui.
Simão Lucas Pires
Nasceu em Lisboa, em 1990. Formado em Filosofia, tem estudado sobretudo o pensamento de Blaise Pascal — em particular as reflexões acerca da extraordinária aspiração dos homens e da extraordinária incompetência para lhes dar resposta. Foi Professor do ensino secundário e escreve textos sobre literatura em publicações como o jornal Observador e a revista LER. A Trombeta Vaga (Quetzal, 2023) é o seu primeiro livro de ficção, um livro de contos.

