O futuro digital é rico em promessas utópicas e em ameaças distópicas. A realidade ficará porventura algures no meio. Costuma ser assim. Senão vejamos… Sonhos utópicos. Era uma vez um tempo em que acreditávamos que o mundo trazido pelo digital resolveria vários problemas. Por exemplo, e tal como demonstrado pelas chamadas Primaveras Árabes, seria possível […]
O futuro digital é rico em promessas utópicas e em ameaças distópicas. A realidade ficará porventura algures no meio. Costuma ser assim. Senão vejamos… Sonhos utópicos. Era uma vez um tempo em que acreditávamos que o mundo trazido pelo digital resolveria vários problemas. Por exemplo, e tal como demonstrado pelas chamadas Primaveras Árabes, seria possível ao povo depor ditadores, em parte devido às possibilidades organizativas trazidas pelas novas tecnologias sociais. O povo juntava-se e as ditaduras caíam como peças num dominó. Surgiria assim uma nova visão do poder como processo mais democrático, mais transparente, mais partilhado.
A transformação digital, facilitada pela pandemia de COVID-19, também permitiu mudar o trabalho: trabalhar em híbrido ou remoto permitiu em muitos casos mudar práticas seculares, talvez suportando novas formas de equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional. Surgiram novos modelos de negócio que oferecem novas experiências, expandidas até ao metaverso. Enfim, a transformação digital alavancou um conjunto importante de alterações que mudaram e continuarão a moldar o mundo em que vivemos. Mas nem tudo são utopias. Ameaças distópicas. Aprendemos que o mundo digital tem potencial distópico. As primaveras árabes deram lugar a outonos ou mesmo invernos. Nenhuma democracia floresceu realmente no mundo islâmico nem mesmo a Tunísia, o farol democrático desse mundo, conseguiu manter a trajetória de consolidação das instituições. Aprendemos que as redes sociais, se podem funcionar como um mecanismo de empoderamento, também funcionam como instrumento de manipulação.
O resultado é a utilização de inteligência artificial para subverter processos eleitorais e corromper a democracia. Os regimes autoritários aprenderam a fazer das redes uma ferramenta de controlo e não de libertação. As redes sociais pressionam-nos para pensar “bem”, sendo muito agressivas face aos “malpensantes”, um processo com ressonâncias orwellianas. Apreendemos a realidade que nos querem dar a conhecer e não aquela que resulta das nossas leituras do mundo. Os nossos gostos são manipulados por sistemas tecnológicos que temos dificuldade em interpretar e a realidade virtual compete com a material. Jogamos e-sports e perdemos o contacto com a rua.
Em resumo, agir no digital é navegar num novo mundo. Como sempre, compete-nos fazer hoje as escolhas com que teremos de viver amanhã. Algumas escolhas serão mais promissoras que outras. Mas não esqueçamos: neste momento de transição, o futuro começa… hoje.
Ágil

Este é um livro de autores cá da casa (Miguel Pina e Cunha e Arménio Rego). Defende que não obstante a importância da tecnologia, o grande desafio do digital é a transformação organizacional: como preparar a cultura e a organização para tirar partido das potencialidades das novas tecnologias.
Metaverso

Metaverso, de Matthew Ball ajuda a compreender a nova tecnologia, para muitos de nós ainda obscura, que tudo promete revolucionar, uma versão da realidade virtual que ameaça alterar o modo como vivemos, como trabalhamos e como nos entretemos. Este livro é porventura, neste momento, a melhor introdução ao tema. Um mergulho num futuro em construção.
Este artigo foi publicado na edição de inverno da revista Líder
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