Sob um olhar menos atento, sim. Mas na realidade, só a conduta ética conduzirá a um modelo de desenvolvimento que seja sustentável, pois o atual, (ainda) não o é. A definição de desenvolvimento sustentável é uma das maiores declarações éticas dirigidas à humanidade, pela ênfase que coloca no outro, particularmente nas gerações ainda não nascidas.
O conceito remete-nos para o Relatório Brundtland, resultado do trabalho da Comissão Mundial sobre Ambiente e Desenvolvimento que, em 1987, foi incumbida de estudar o modelo de desenvolvimento adotado pelos países industrializados. “Uma agenda global para a mudança, foi o que foi solicitado à Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento” são as palavras da líder da Comissão, Gro Brundtland, nas páginas de abertura do relatório. Um apelo urgente da Assembleia Geral das Nações Unidas para definir uma estratégia que colocasse o Mundo numa trajetória diferente, porque a pressão sobre os recursos naturais e o desrespeito pelos limites do Planeta já se faziam sentir. Esta Comissão deu então origem ao documento O nosso futuro comum, que contém a definição e desenvolvimento sustentável que utilizamos até hoje, e que não podia estar mais atual: o desenvolvimento que permite satisfazer as necessidades atuais sem comprometer a capacidade de as gerações futuras satisfazerem as suas próprias necessidades.
iriam vigorar entre 2000 e 2015, e que precederam a Agenda 2030 e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável em vigor até 2030. Foi sob a liderança de Kofi Annan que surgiu a primeira agenda para a humanidade enquanto um todo. Visionária, altruísta, humana e ambiciosa. Imperfeita, mas uma agenda de coesão que pretende partilhar uma visão comum para o bem da humanidade. Não há nada mais ético. A ética é isto. É decidir em função do que é melhor para todos os envolvidos. É uma visão de longo prazo por oposição ao benefício imediato. É difícil. Mas é certo.
Difícil porque implica mudar, reinventar, criar, inovar. Difícil porque implica abdicar. Abdicar de uma forma de estar, de um determinado estilo de vida, de consumos vazios com aparência de felicidade. E é o que está em causa neste momento. E nós resistimos. É normal, porque mudar o status quo implica deixar a zona de conforto e aceitar um certo nível de risco, de desconhecido. Mas é preciso.
Um longo caminho foi percorrido desde 1987, quando foi escrito o enquadramento do relatório O nosso futuro comum onde se refere o apelo da Assembleia Geral das Nações Unidas à Comissão Brundtland para que fossem propostas estratégias ambientais de longo prazo para alcançar o desenvolvimento sustentável até ao ano 2000. Mais tarde foi percebida a interação entre Economia, Ambiente e Inclusão Social. Foi também percebido que a forma como produzimos e consumimos tem efeitos sobre o aquecimento global, os ecossistemas e a disponibilidade de recursos naturais e que esses fatores teriam implicações sobre a vida humana e o bem-estar. Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável traduzem estas diferentes interações e prioridades nas suas metas, tendo sempre os direitos humanos fundamentais e a preservação ambiental como denominadores comuns. E tornam-se mais comuns no léxico empresarial conceitos como economia verde, economia circular, descarbonização, e muitos outros. E são vitais a este modelo de desenvolvimento em que os recursos são escassos e em que as alterações climáticas pressionam as agendas globais pela ameaça que representam às comunidades e à sustentabilidade da espécie humana.
A economia verde é um tema abrangente que junta tópicos como a conservação da natureza com o alívio da pobreza, a prosperidade económica, a tecnologia e a inovação. É definida como uma economia de baixo carbono, orientada para a eficiência na utilização dos recursos naturais e inclusiva, favorecendo a competitividade das empresas. A economia circular é uma das componentes da economia verde sendo particularmente atrativa para o mundo empresarial pelos conceitos associados de eco-design onde a eficiência de recursos e redução de resíduos presidem, ou pelo conceito de resíduo como recurso. O centro do conceito de circularidade e a característica que permite ter uma economia mais verde: eficiência na utilização dos recursos e redução das emissões de CO2 pela redução de extração de recursos e transporte até aos locais de produção. Um círculo virtuoso com reflexos positivos nos custos. Estamos a assistir à aprendizagem das empresas na aplicação do conceito às suas áreas de produção e transformação, suportadas por incentivos públicos e de mercado.
Mas enfim, após diversas décadas de iniciativas supranacionais, dos governos e academia, uma nova forma de produzir e consumir chegou ao domínio de muitas empresas e dos cidadãos. Porque demorou tanto tempo? Porque as políticas públicas e os incentivos à transformação eram insuficientes ou inexistentes. Porque não era uma prioridade. Porque não havia modelo económico associado ao conceito de sustentabilidade e agora há. Mas agora a estratégia de crescimento da União Europeia assenta na sustentabilidade e no seu objetivo de ser o primeiro continente neutro em carbono e essa afirmação determina uma série de ações que influenciam as políticas vigentes.
A sustentabilidade neste momento é uma estratégia, um atributo de produtos e serviços, uma marca, uma forma de inovar, de reduzir custos, de repensar modelos de negócio para as empresas. Atrai investidores, clientes, consumidores e oportunidades. É um terreno fértil para novos negócios, empresas e empreendedores. Produz emprego e riqueza. Para as pessoas é uma nova forma de estar, de se alimentarem, de consumir. É cool e um admirável mundo novo.
Este artigo foi publicado na edição de primavera da revista Líder
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