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Leonor Wicke

Quando o silêncio devolve a liberdade

27 Dezembro, 2024 by Leonor Wicke

Celso Teixeira (42 anos) encontra-se no Centro Penitenciário de Badajoz, desde janeiro de 2024, a cumprir uma pena de quatro anos e meio por tráfico internacional. Vive num ‘regime aberto’, em que pode sair aos fins de semana, tem acesso ao telemóvel e internet. Em Portugal já passou por quatro prisões: Estabelecimento Prisional de Lisboa, Monsanto, Alcoentre e Pinheiro da Cruz. 

O testemunho que se segue resulta de uma conversa telefónica, via whatsapp, e a sua publicação tem o consentimento e autorização do próprio. 

A minha história conta-se como a de muitas pessoas que têm uma vida abaixo da média – sei que isso não é desculpa para tudo, mas é o que acontece com a maioria das pessoas que vivem, ou nascem, num determinado meio social e tentam conquistar o seu dia-a-dia. Uns seguem o caminho longo, que é o caminho certo, e outros procuram o mais curto, com os melhores e mais rápidos rendimentos. Foi o que se passou na minha infância. Sou nascido e criado em Loures, no Bairro de Fetais (Camarate), numa família sem recursos.  

A primeira pena que cumpri, tendo sido condenado por seis anos e quatro meses, foi em 2015, no Serviço Prisional de Alcoentre, e depois as coisas não ficaram por aí. Nós queremos sempre mais e eu sou uma pessoa ambiciosa. 

Quando estamos presos existem duas regras: a do Estabelecimento e a regra do próprio detento. Eu não falo com ninguém, não dou muita confiança, gosto de estar no meu canto, porque aprendi a ser assim. E tanto aqui, como em Portugal, escolho estar em silêncio. Aqui, o silêncio é uma vantagem. Há funcionários que dão ‘mais espaço’ ao preso, o que acho ser importante, e são esses com quem nos ligamos mais. Outros escolhem o silêncio total e eu também opto por essa regra.  

Mas quando entro na cela sou aquela pessoa que chora, que pensa no erro que fez. Sofro e converso muitas vezes em silêncio, tentando procurar respostas na minha mente. Depois, quando saio da cela, tento ter um sorriso para transmitir às pessoas que estou bem. E não estou. 

 

 

A minha liberdade é a minha mente 

Para mim, o silêncio é um bom conselheiro e o trabalho também me ajuda. Aqui trabalho todos os dias como ‘ordenança’, um género de faz-tudo, em Portugal estive nas vindimas e a fazer limpezas. A minha liberdade é a minha mente, isto é, é aquilo que eu ainda tenho dentro de mim. E temos de acreditar nisso, porque senão, ao passarmos quase todo o dia trancados numa cela, o pouco que resta de nós perde-se. Há um filme que me inspira muito sobre a liberdade de um preso que é  O Furacão (Hurricane), com o Denzel Washington.  

Tento estar, o mais tempo possível, aberto, ‘livre’ dentro da cadeia, seja a trabalhar ou a estudar. Neste momento, tenho acesso a telemóvel e internet e é assim que passo melhor o meu tempo. Quando não era assim, havia uma parte do silêncio que, à mínima coisa, nos causava uma aflição. Situações às quais, lá fora, não damos  importância, aqui dentro tornam-se graves, porque a nossa mente está esgotada. 

Ao estarmos anos aqui dentro, encerrados, à procura do nosso espaço, basta um suspiro mal dado do companheiro do lado, ou uma palavra de um funcionário, que mandamos tudo por água abaixo e depois vêm as consequências, os castigos ou um processo interno, o que nos vai atrasar a vida.  

Para evitar isso, ando praticamente sempre sozinho, pois isso também descreve muito da pessoa em si, principalmente aos olhos dos guardas. Há um livro onde anotam todas as ocorrências do dia e eu não quero fazer parte desses registos. Já existe um preço a pagar por ser negro. Em Portugal, 80% dos reclusos são negros, há racismo e a maioria das confusões que existem é à volta das pessoas de cor. Eles vitimizam-se a eles próprios – não é a maneira como as pessoas são vistas dentro da cadeia, é a forma como nós escolhemos andar dentro da cadeia. 

Quando estive preso em Portugal, onde o ambiente é muito diferente, há muita confusão e violência, valeu-me não só a minha experiência de vida na rua, mas o silêncio que prevaleceu muito. Se estamos em silêncio, não damos uma opinião sobre a confusão de outra pessoa. O silêncio protege-me, é o meu escudo, e quebrá-lo pode trazer consequências irreparáveis.  

Para não ser mais uma estatística, tento afastar-me, passar despercebido e ser reconhecido de outra forma, o que é difícil porque tenho 1,90 m  e peso 110 quilos! Aqui em Espanha, assim que conquistei o meu espaço comecei a ter oportunidades de trabalho, como este que agora tenho, o que me leva a chegar ao final de mais um dia com alegria. O que me permite resistir é o silêncio – é a melhor coisa. O silêncio é, por isso, para mim, 100% valioso. 

Este artigo foi publicado na edição nº 28 da revista Líder, sob o tema Silêncio. Subscreva a Revista Líder aqui.

Arquivado em:Artigos, Leadership

Porque existem anos bissextos?

27 Dezembro, 2024 by Leonor Wicke

Raramente nos lembramos deles, e celebramos a sua ocorrência com o mesmo entusiasmo com que celebramos, por exemplo, o Dia de Reis (exceto em Espanha). Os anos bissextos são, para muitos, apenas mais um dia — menos para as pessoas que tiveram a raríssima sorte de nascer no dia 29 de fevereiro de um ano bissexto. No entanto, mal sabemos nós que, ao ignorar este dia extra, estamos a ignorar um dos mais caricatos e complexos triunfos da matemática que a nossa espécie alguma vez ousou produzir.

Qual é afinal explicação para que, de quatro em quatro anos, tenhamos anos bissextos?

Digamos que tudo se deve a um pequeno acidente que acontece na noite de Réveillon. Estamos habituados a pensar que no nosso calendário, o calendário Gregoriano, a contagem de um ano é determinada pelo tempo que a Terra leva a dar uma volta completa em torno do Sol, ao longo de 365 dias de 24 horas cada um.

Contudo, as coisas não funcionam assim, porque ao contrário do que pensamos, à meia-noite do dia 31 de dezembro a Terra ainda não completou uma volta em torno do Sol e, na verdade, quando assinalamos o dia um de janeiro, a Terra ainda está a seis horas de completar a sua órbita. O que acontece é que nós basicamente decidimos ignorar estas seis horas, não por querermos festejar mais cedo, mas para não estragar a forma como organizamos os dias do calendário e o modo como medimos o tempo.

Fazendo contas, ao ignorarmos estas seis horas durante quatro anos, ganhamos o tal dia extra em fevereiro, porque seis a multiplicar por quatro dá as 24 horas do dia 29 — e esta é a razão pela qual nós temos anos bissextos.

Mas os problemas não ficam resolvidos, porque na realidade não são bem seis horas que nós ignoramos: são cinco horas e 48 minutos — o que a multiplicar por quatro dá 23 horas 12 minutos.

Por esta razão, nos anos bissextos, nós na realidade estamos a acrescentar tempo a mais ao calendário, o que faz com que ao fim de 100 anos estejamos a acumular tempo suficiente para um dia a mais que não devia estar no calendário. Por isso, todos os séculos há um ano bissexto a menos, para corrigir este tempo a mais. Porém, a verdade é que este mecanismo também não é perfeito e, ainda assim, deixa um bocadinho de tempo a mais no calendário, pelo que de 400 em 400 anos há um século no qual não é subtraído o dia extra.

Embora todos estes acertos pareçam confusos e tenham resultado do capricho humano de controlar o tempo, o nosso calendário é fruto de um engenhoso equilíbrio matemático que tem como objetivo manter o início e o fim de cada estação dentro dos mesmos dias e meses — o que se revelou muito útil para o desenvolvimento da nossa civilização, ajudando-nos, entre outras coisas, no registo e planeamento das campanhas de agricultura. E a principal razão pela qual era necessário estabelecer um calendário como o nosso é pelo facto de que o calendário sazonal, que mede o ciclo das estações, é ligeiramente diferente do calendário sideral, que mede a órbita da Terra em torno do Sol. É por essa mesma razão que a posição dos astros no céu muda a cada primavera, por exemplo; é graças ao nosso calendário que a primavera é sempre em março, porém o céu muda todos os marços.

Portanto, isto significa que, ao contrário do que pensamos, na prática, nós decidimos marcar os nossos anos pelo ritmo do respirar da natureza, e não ao ritmo preciso da órbita da Terra em torno do Sol. E o dia extra, em fevereiro dos anos bissextos, é justamente produto deste nosso modo de medir o tempo e de ajustar o nosso calendário ao ciclo das estações.

 

Calendário Gregoriano vs. Calendário Lunar de 13 meses, de 28 dias

Quando falamos da utilização do pouco ortodoxo, mas muito eficaz, calendário gregoriano e do famoso dia extra dos anos bissextos, é recorrente levantar-se uma questão: porque é que o nosso calendário não se baseia antes nos ciclos lunares, em vez de seguir o ciclo sazonal, resultando num calendário mais simples com 13 meses iguais, de 28 dias, com um dia isolado para celebrar a passagem de ano.

A resposta mais rápida é que, acreditemos ou não, por mais sofisticados e astronomicamente complexos que sejam a maior parte dos calendários já inventados por diferentes civilizações ao longo dos tempos, nenhum está perto de ser tão simples e eficiente como o nosso.

Os gregos antigos usavam um calendário lunissolar, baseado nos ciclos lunar e solar, com 13 meses de 29 dias, mas tinham que ir adicionando e removendo meses para o calendário bater certo com as estações. Já os Maias utilizavam um sistema dividido em dois calendários: o Tzolk’in, composto por um calendário ritual de 260 divididos em «períodos» de 13 dias; e o Haab, que era um calendário solar de 365 dias divididos em 18 meses de 20 dias, acrescidos de um mês de cinco dias vazios. Estes dois calendários eram contabilizados em paralelo e só se alinhavam uma vez a cada 52 anos, num grande ciclo conhecido por Roda Calendárica. A somar a estes dois sistemas unos, existia ainda a famosa Contagem Longa (popularizada pelo pseudoapocalipse de 2012), que é subdividido em unidades como baktun (144 000 dias); katun (7200 dias), tun (360 dias), winal (20 dias) e os k’in (1 dia) e cujo ciclo durava 5125 anos.

Embora os Gregos ou os Maias revelassem uma notável ligação aos astros e fossem bastante sofisticados na medição dos ciclos astronómicos, estes povos estavam muito distantes de terem o conhecimento científico e os instrumentos de medição que temos ao nosso dispor e, por essa razão, não eram muito eficazes na medição dos ciclos sazonais. E, convenhamos: eram muito mais complexos do que os gregorianos 12 meses de 30 ou 31 dias, com um dia extra nos anos bissextos. Entretanto, historicamente sempre se debateu a ideia de adotarmos um calendário de 13 meses com 28 dias com 1 dia extra, que seria o dia da passagem de ano. Este calendário seria mais simples, com todos os meses a terem os mesmos dias. Mas por que razão continuamos a preferir o nosso calendário atual?

A razão mais forte é que aquilo que a nossa civilização moderna procura medir é o tempo que as estações levam a repetir-se e calendarizar o nosso tempo em função disso, e não pelo tempo que a Lua leva a completar os seus ciclos, nem o tempo que a Terra leva a orbitar em torno do Sol, como vimos acima, nem outros tantos ciclos astronómicos que não ofereciam nenhum benefício prático. E nenhum calendário é tão preciso a medir as estações quanto o calendário gregoriano, o nosso calendário.

O calendário Gregoriano, que foi uma atualização ao calendário Juliano que usamos até hoje e que, é o mais eficaz para definirmos o nosso ano em função das estações. Gostemos ou não, o calendário que usamos atualmente pode parecer uma manta de retalhos, mas é o calendário mais preciso e útil alguma vez desenhado pela humanidade.

De resto, o nosso calendário é também uma pequena amostra de como, ao longo da história, a religião também soube parar para olhar o céu à noite e fazer ciência, estudando com precisão o comportamento dos astros e o respirar da natureza no nosso planeta. Essa é uma das razões pelas quais hoje a maior parte dos cientistas não abandona o uso do Anno Domini que marca o período anterior e posterior ao ano primeiro do nosso calendário (Antes de Cristo e Depois de Cristo): justamente para homenagear o legado científico dos jesuítas, no modo como medimos o tempo.

 

Este artigo consiste num excerto adaptado, do livro As 100 maiores curiosidades sobre o cosmos (Oficina do Livro, 2024), de Fábio da Silva, com o consentimento do autor.

Arquivado em:Ciência, Notícias

Story Studio Sortelha: a nova história do centro de Portugal

27 Dezembro, 2024 by Leonor Wicke

Localizado nas muralhas do Castelo de Sortelha, o Story Studio Sortelha é um refúgio único que une história, ecoeficiência e conforto. Este projeto de alojamento turístico apresenta 17 studios que transformam edifícios seculares em espaços sustentáveis e modernos, preservando a autenticidade da arquitetura da aldeia histórica.

Com tipologias T0, T1 e T2, as unidades estão completamente equipadas, garantindo o máximo conforto. A kitchenette funcional, o acolhedor piso radiante e a lareira a bioetanol tornam a Story Studio a opção ideal para escapadinhas a dois, férias em família ou convívios entre amigos. Sortelha é o terceiro capítulo desta marca de turismo eco-friendly, depois de Coimbra e Piódão. Privilegiando o bem-estar dos hóspedes e refletindo as crescentes preocupações ambientais do setor, o projeto é um exemplo de como o turismo pode evoluir em harmonia com o património.

Através das suas muralhas imponentes, ruas de pedra e histórias que ecoam em cada canto, Sortelha é uma viagem no tempo. Márcia Vilar, fundadora da Story Studio, revela que «foi este cenário único que nos inspirou a criar o Story Studio Sortelha, um espaço que celebra o passado e, respeitando a sua autenticidade, reflete conceitos contemporâneos, como a ecoeficiência e o ecodesign».

Durante a estadia, os hóspedes podem explorar um dos destinos históricos mais bem preservados de Portugal, cuja arquitetura se mantém praticamente inalterada desde o século XVI. Uma das atrações principais é o Castelo de Sortelha, construído em 1228, e as respetivas muralhas, que oferecem vistas deslumbrantes sobre a paisagem circundante. A Igreja Matriz, dedicada a Nossa Senhora das Neves, fundada no século XII e ampliada no século XVI, é outro ponto de visita obrigatória, assim como o Largo do Corro, onde é possível admirar a Casa Número Um. Trata-se de um exemplar perfeito da arquitetura tradicional da região, com o seu balcão alpendrado e a escadaria exterior.

Para complementar a experiência, nada como conhecer a gastronomia local. Restaurantes como o D. Sancho ou O Celta servem pratos típicos da região, como o veado guisado e o arroz de lebre, que, seguidos pelo tradicional arroz doce, proporcionam uma verdadeira imersão nos sabores beirões. No Story Studio Sortelha, cada estadia é um convite para desacelerar e vivenciar uma forma de turismo que respeita o património e o planeta.

 

Este artigo foi publicado na edição nº 28 da revista Líder, sob o tema Silêncio. Subscreva a Revista Líder aqui.

Arquivado em:Artigos, Leading Life

Liderança no feminino: o papel da formação e o impacto na gestão organizacional

27 Dezembro, 2024 by Leonor Wicke

A questão de saber se a liderança tem género continua a ser amplamente debatida, particularmente no que diz respeito aos estereótipos e à importância da formação no desenvolvimento de líderes em ambientes competitivos.  

Embora muitos associem certos traços de liderança a pré-conceitos ou rotulagens, é cada vez mais claro que a liderança não está ligada ao género, mas sim às competências, habilidades e experiências adquiridas socialmente. A formação é crucial para capacitar líderes, permitindo que os indivíduos, independentemente de quaisquer predisposições biológicas, se desenvolvam de forma a alcançar uma igualdade plena, criando um ambiente de trabalho mais plural e eficiente. 

O “Women in Business and Management” da International Labour Organization revela que, embora as mulheres desempenhem um papel essencial no progresso económico global, ainda estão sub-representadas nos níveis de gestão sénior e em conselhos de administração, apesar de superarem os homens no ensino superior.  

Outros relatórios, como o “Women in the Workplace” da McKinsey & Company, destacam que as empresas com maior diversidade de género em cargos de liderança têm uma probabilidade 21% superior de alcançarem uma rentabilidade acima da média. Além disso, equipas lideradas por mulheres promovem ambientes mais inclusivos, estimulando o engagement e atraindo talentos, o que contribui para a inovação e a resiliência organizacional. 

A liderança é uma habilidade moldada pelo contexto, pela cultura organizacional, e quando as organizações criam ambientes mais justos e equitativos e valorizam estilos diversificados nos seus líderes, as disparidades de desempenho entre homens e mulheres tornam-se irrelevantes uma vez que a liderança eficaz depende exclusivamente das competências de gestão adquiridas.  

É por isso decisivo que se implementem políticas que reconheçam a formação contínua e acessível a todos como uma ferramenta estratégica na eliminação das desigualdades estruturais e culturais e na promoção da equidade de oportunidades. Este é um passo fulcral para melhorar as competências individuais e para transformar as culturas corporativas ainda muito assentes nos preconceitos e estereótipos do passado. 

Este é o caminho para aumentar o desempenho financeiro e a inovação organizacional e para uma gestão moderna, o que permitirá valorizar e reter o talento, gerando um impacto positivo tanto nas pessoas como nas organizações. Este é o caminho para as lideranças do futuro que, queremos acreditar, nada terão a ver com o género, mas sim com as suas aprendizagens e conhecimentos e só a formação pode providenciar isso!   

 

Esta opinião foi publicada na edição nº 28 da revista Líder, sob o tema Silêncio. Subscreva a Revista Líder aqui.

Arquivado em:Opinião

Pausa e Silêncio: A Resistência no Século XXI

26 Dezembro, 2024 by Leonor Wicke

O silêncio é sonho único de vida. Sempre que me interrogo sobre o futuro, há um cenário certo, pormenorizado, específico. Uma pintura, outra pintura e tantas mais em alinhamentos de repouso. O silêncio da observação, acompanhado por pensamento sem fim. Passar o resto dos meus dias nesse silêncio, em pausas prolongadas, a contemplar obras de arte, acertos de pedra, poesias e cor, entre outras mais voltas de mão. Um gesto contínuo de olhar em silêncio para o mundo. 

Em tempos de aceleração e de exaustão, a iniciativa Open Conventos 2024 propôs uma reflexão urgente: o que nos resta do silêncio e da pausa no século XXI? Num dia de maio, iluminado por uma primavera subtil, à sala onde as paredes guardavam ecos e tranquilidades que desafiam o ruído juntaram-se para, uma conversa aberta, cinco pessoas, de distintas áreas, para conversar sobre Pausa e Silêncio, numa sociedade que se esquece de como parar. 

Ana Margarida de Carvalho, romancista e jornalista, trouxe a experiência de uma vida dedicada às palavras e a necessidade de silêncio, em busca das palavras. A pausa é onde a vida acontece. É no intervalo entre as palavras que a história se forma. O espaço vazio nos textos, tal como nas vidas, permite que a criação surja. Os seus livros revelam-nos que o ritmo de uma narrativa é tanto sobre o que é dito quanto sobre o que é omitido. 

Inês Tavares Lopes, maestra, reforçou o papel essencial do silêncio na música: «Sem pausa, não há melodia; o silêncio é o que dá forma ao som.» Como maestra adjunta do Coro Gulbenkian, explicou como o silêncio entre as notas não é feito de vazio, mas o momento em que a música respira e se torna compreensível. 

O P. João Norton, arquiteto e jesuíta, trouxe a ligação entre a arquitetura e a espiritualidade, ao defender que o espaço vazio é tão significativo quanto o espaço ocupado. O silêncio é o elemento central na criação de ambientes que convidam à contemplação e à introspecção, algo aprendido tanto na arquitetura quanto na vivência espiritual. 

As irmãs Anatália e Mailys, monjas de Belém, compartilharam a prática diária de um silêncio que transcende o ruído: «Quando silenciamos, descobrimos que há algo para ser ouvido». Para as monjas, o silêncio é uma escuta ativa, uma forma de se reconectarem com o divino e consigo mesmas. 

Este breve retrato de uma breve conversa, entre pessoas de tão variadas funções, sobre a importância do Silêncio e da Pausa nas nossas vidas, quer pessoais, quer profissionais, remete-nos imediatamente para a pergunta: O que andamos nós a fazer ao mundo, se pouco o escutamos, se quase não o olhamos?  

Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano, que tanto gosto de ler, alerta-nos no seu livro O Aroma do Tempo (Relógio D’Água) que vivemos sem tempo para nos demorar nas coisas, pois já não estamos familiarizados com a pausa. O tempo perde o seu aroma. Inspiremo-nos nesta ideia: o silêncio e a pausa podem ajudar-nos a reencontrar a essência do tempo. 

Há cerca de sete anos, decidi sair de Lisboa para viver no campo. A busca pelo silêncio inexistente numa profissão obrigatoriamente exercida em espaço aberto, de televisões aos berros, de gente a passar em corrida ininterrupta, de luzes brancas em camadas intensamente incomodativas, levou-me à Aldeia do Silêncio. Bem que poderia ser este o seu verdadeiro nome. Desde essa altura, a recuperação dos dias atribulados, dos ruídos stressados, dos atropelos do pensamento, acontece por aqui, neste lugar de onde vos escrevo. Aqui, a pausa é feita de passeios entre vinhas, de cheiros a cidreira nascida no pomar, de ventos ouvidos. Atualmente, a pausa é um ato de resistência, contra a obsessão da conexão. Parar não é apenas um momento de descanso. É essencialmente um valor ético. A pausa é a oferta à contemplação, a negação do excesso. O desejo de futuro passa por esta Aldeia do Silêncio e pelas pausas feitas nos corredores dos museus do mundo inteiro.  

A questão primordial permanece: que pessoas queremos ser? A resposta pode estar na assunção de que o mundo é um lugar melhor onde o silêncio e a pausa são necessidades fundamentais e não luxos ou exuberâncias.  

Se pararmos, poderemos começar a ouvir.  

E a ouvir, em silêncio, saberemos imaginar. 

 

BIO 

Como jornalista, trabalhou na RTP entre 1996 e 2023, onde desempenhou funções de Editora de Arte e Cultura e foi Autora e Coordenadora do programa “As Horas Extraordinárias”, transmitido na RTP3, de 2015 a 2023. Foi também Autora da crónica diária homónima na Antena 1 entre 2021 e 2023. Hoje, escreve a crónica “Um quarto que seja seu”, publicada no Jornal de Letras e frequenta o doutoramento em Media e Sociedade na Universidade Autónoma de Lisboa, como bolseira de mérito. 

 

Este artigo foi publicado na edição nº 28 da revista Líder, sob o tema Silêncio. Subscreva a Revista Líder aqui.

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Leading Books: conheça as escolhas do nosso Diretor

26 Dezembro, 2024 by Leonor Wicke

Este inverno trouxe boas novidades às nossas livrarias. Eis alguns novos títulos publicados e a publicar, lidos e a ler.

 

Nexus, Yuval Noah Harari

Elsinore

Um novo Yuval Noah Harari é um acontecimento. Harari tornou-se, com Sapiens, uma estrela global. Agora regressa com Nexus (Elsinore), um livro em que discute a inteligência artificial e as suas implicações para a Humanidade. À sua maneira, vai muito atrás para ir para a frente. Nessa caminhada faz ligações interessantes e surpreende quem o lê.

 

Autocracia, Inc, Anne Applebaum

Bertrand

Outra estrela do firmamento, Anne Applebaum, regressa com Autocracia, Inc (Bertrand). Applebaum é uma arguta pensadora que agora regressa com um livro que explica o mundo. A autora indica o modo como o nosso mundo é movido por uma corporação de autocratas movidos por interesses mais que por ideologias. Este pragmatismo autocrático explica as estranhas ligações entre figuras que, em princípio, nada deveriam ter a ver umas com as outras.

 

Determinado, Robert Sapolsky

Temas e Debates

Muito desafiador é também Robert Sapolsky, autor de Comportamento, que agora regressa com Determinado (Temas e Debates). O subtítulo explica a ideia: uma ciência da vida sem livre-arbítrio. O professor de Stanford explica como o que fazemos pode estar predeterminado, uma ideia que merece ser estudada.

 

Sangue na Neve, Robert Service

Temas e Debates

Na vertente da História, Robert Service, outro autor-estrela, regressa com Sangue na Neve (Temas e Debates), uma obra sobre a revolução russa (1914-1924). Professor em Oxford, Service ajuda a compreender um período-chave da História recente. Escrito de forma muito cativante não é ficção mas lê-se com o gosto da boa ficção.

 

A Última Cruzada, Nigel Cliff

Dom Quixote

Noutro departamento histórico, A última cruzada, de Nigel Cliff (Dom Quixote), é um livro sobre, anuncia o título, as viagens épicas de Vasco da Gama. Quando agora são mencionados, os Descobrimentos suscitam discussões frequentemente castigadoras. Todavia, nem só de misérias se fez a história naval de Portugal. Uma leitura muito sedutora, de resto.

 

Banho de Sangue Americano, Paul Auster

Asa

JD Vance, candidato com Trump, veio há umas semanas lamentar mais um tiroteio escolar como um lamentável facto da vida. A circulação de armas e a facilidade de acesso às mesmas nos EUA parecem ser uma não questão. Neste contexto, Banho de Sangue Americano, de Paul Auster, com fotos de Spencer Ostrander (Asa), é mais um contributo para o debate. Falecido em maio, Auster instiga os seus compatriotas a repensarem a questão com este breve manifesto.

 

Um Espião Perfeito, John Le Carré

Dom Quixote

 

Este Verão, à maneira dos tempos da Guerra Fria, houve troca de prisioneiros entre os EUA e a Rússia. Alguns eram espiões. Por coincidência ou talvez simplesmente não haja coincidências, a Dom Quixote anda a reeditar John Le Carré. Um dos textos saídos das rotativas é Um Espião Perfeito. Talvez seja o livro de espionagem maior do maior mestre do género.

 

Space to Grow, Matthew Weinzierl e Brendan Rosseau

Harvard Business Review Press

Antecipando o próximo ano, prestes a ser publicado, Space to Grow, de Matthew Weinzierl e Brendan Rosseau (Harvard Business Review Press) é um dos livros obrigatórios para 2025. O espaço ainda é visto como terreno de astrofísicos, engenheiros aeroespaciais e outros especialistas. Trata-se também, crescentemente, de um setor relevante para as empresas. Weinzierl e Rosseau ajudam a criar literacia relativamente à última fronteira económica. É desfrutar!

 

Jaime Neves, Rui de Azevedo Teixeira

Guerra e Paz

Chegou também Jaime Neves, Homem de Guerra e Boémio, de Rui de Azevedo Teixeira (Guerra e Paz). Como ficcionista, Teixeira publicou uma magnífica trilogia à volta da guerra colonial – esses três volumes merecem muita atenção. Esta biografia mostra o talento do autor na sua área de eleição. Um escritor sem punhos de renda mas com muito punch.

 

Este artigo foi publicado na edição nº 28 da revista Líder, sob o tema Silêncio. Subscreva a Revista Líder aqui.

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