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Leonor Wicke

Leaders gonna lead

6 Janeiro, 2025 by Leonor Wicke

Seguir a corrente é fácil. É previsível, seguro, e, em teoria, parece uma boa jogada. Mas aquilo que distingue as marcas memoráveis das restantes é a coragem de ignorar o hype e focar no que importa: valores e consumidores. Porque, às vezes, o verdadeiro desafio está em dizer “não, obrigado, sabemos quem somos.” 

Ainda eu cá não andava e já a Volkswagen o fazia com o Beetle no final dos anos 50, num dos case studies mais citados de sempre: enquanto a concorrência apostava em carros maiores, a Volkswagen foi na direção oposta. Com o Think Small, a marca evidenciou a sua essência: simplicidade e eficiência. O impacto? Redefiniu o mercado automóvel e mostrou que ser diferente pode ser o caminho certo. 

Ao saltar para cada tendência, corremos o risco de parecer… desesperados. Quem nunca viu uma marca tentar ser cool e acabar a soar àquele amigo que insiste em usar expressões completamente datadas? 

A interação cringe entre Meta, Pepsi e Budweiser durante o boom do Metaverse no ex-Twitter é um perfeito exemplo, em que as marcas tentaram usar gíria do meio sem propriedade, virando rapidamente meme na comunidade… pelas piores razões. WAGMI, frens! 

Por outro lado, às vezes a falta de tato mascara-se de coragem… 

Vivemos numa sociedade polarizada, em que a estupidez natural parece desenvolver-se mais rápido do que a inteligência artificial, e é preciso que as marcas estejam seguras das suas escolhas. Nem todas estão preparadas ver os seus feeds invadidos por go woke, go broke – nem para o impacto que isso possa ter no seu negócio. 

O caso da Bud Light tornou-se um exemplo emblemático disto. Em 2023, a marca colaborou com a influenciadora trans Dylan Mulvaney, gerando uma reação negativa massiva de segmentos conservadores – muitos deles, consumidores da marca – incluindo boicotes, vídeos a destruir produto e uma queda significativa nas vendas. Simultaneamente, grupos LGBTQIA+ também criticaram a empresa por não defender a campanha e recuar sob pressão, resultando numa situação lose-lose para marca. 

Assim, é importante que a rebeldia tenha contexto. Se soubermos qual o nosso propósito e com quem estamos a comunicar, tomar uma posição assertiva, com risco calculado, pode ter um retorno e um efeito de seleção natural que se sobrepõe a todo o backlash, construindo confiança a longo prazo. 

A Patagonia é um excelente exemplo – ao priorizar a sustentabilidade acima do lucro rápido, tem vindo a criar uma lealdade genuína e duradoura. O seu fundador, Yvon Chouinard, transferiu a participação na empresa para uma ONG focada em combater as alterações climáticas e proteger reservas naturais, que passou a dispor de $100M por ano – o lucro da marca – para o fazer. 

Mais do que diferente, é importante ser relevante e agir em contexto. No meio de um mercado saturado por modas passageiras, a autenticidade continua a ser o verdadeiro ato de coragem. E sejamos sinceros: há algo de irresistivelmente poderoso em ser a marca que decide nadar contra a corrente. 

 

Esta opinião foi publicada na edição nº 28 da revista Líder, sob o tema Silêncio. Subscreva a Revista Líder aqui.

Arquivado em:Opinião

Multipessoal é agora o Clan

6 Janeiro, 2025 by Leonor Wicke

A empresa de Recursos Humanos Multipessoal é a partir de 2025 o Clan, assumindo para toda a operação o nome da solução 100% digital, lançada em 2022. Com mais de 30 anos de experiência no mercado, a organização evolui para uma plataforma digital focada na simplificação e otimização da ligação entre talento e oportunidades. 

O Clan, já reconhecido no setor como plataforma da Multipessoal, assume agora um papel central, impulsionando a transformação digital da empresa e reforçando o seu compromisso com a inovação no setor de Recursos Humanos.  

 

O que muda com a transição para Clan? 

A mudança para Clan representa uma evolução natural da Multipessoal, centralizando todos os serviços numa única plataforma digital. Esta mudança de identidade surge após o lançamento da plataforma Clan Pulse, no fim de outubro de 2024, que passou a oferecer aos clientes da Multipessoal as potencialidades que o Clan já proporcionava aos candidatos que recorriam à plataforma para procurar emprego.  

Através de um portal exclusivo, o Pulse oferece novas competências como ferramentas de melhoria contínua ou um acompanhamento local e permanente das operações nas empresas. Para os candidatos, a plataforma continua a oferecer uma experiência de pesquisa de emprego otimizada e inteligente, com filtros por localização e informação detalhada sobre as vagas, mantendo o já conhecido processo 100% digital (da candidatura à assinatura de contrato) ou uma área personalizada de gestão de perfil e acesso a informações relevantes. 

Para as empresas, o Clan continua a oferecer uma plataforma digital completa, que agiliza o recrutamento e otimiza a gestão de recursos humanos. Desde a visão holística e total controlo de operações oferecidos pelo portal Pulse, às Pulse Tools que permitem gerir turnos, entrevistas, formações e avaliar desempenhos, a digitalização continuará a permitir uma comunicação mais próxima e transparente com candidatos, colaboradores, clientes e parceiros, melhorando a experiência de todos os envolvidos. 

Esta transformação para Clan reflete a nossa visão de futuro para os Recursos Humanos. Ao adotar o nome Clan, escolhemos assumir que somos uma organização na qual a palavra de ordem é a colaboração. Uma colaboração que garantimos através da tecnologia, da criação de relações que potenciam confiança, lealdade, satisfação e compromisso a longo-prazo através de poderosas ferramentas de gestão para as empresas e de eficazes mecanismos de busca para quem procura oportunidades. No fundo, é a concretização da nossa assinatura: ligar pessoas ao emprego.

André Ribeiro Pires, Chief Operating Officer do Clan 

Arquivado em:Corporate, Notícias

O silêncio na poesia de Eugénio de Andrade

3 Janeiro, 2025 by Leonor Wicke

«A música que me sai dos dedos ama o silêncio, e a suprema ambição do poeta é integrá-lo no canto» 

Eugénio de Andrade, in Da Palavra ao Silêncio 

 

Imaginai que o orador se senta, tira o relógio, dispõe sobre a mesa as folhas da comunicação e, durante o tempo que é suposto ela durar, permanece calado. O silêncio que fazeis para escutar poderia ler nesse silêncio um desrespeito, ignorância, até loucura. Mas foi o que fez o pianista David Tudor, em 29 de Agosto de 1952, ao interpretar a peça 4’ 33” do compositor John Cage, no Maverick Concert Hall de Nova Iorque. Enquanto na sala iam penetrando os sons do vento e da chuva, durava a mudez das teclas. Estupefactos, intrigados, incomodados, os mecenas do Benefit Artists Welfare Fund agitavam-se, murmuravam, resmungavam, programas caíam, os pés dos que saíam indignados ressoavam pelo chão. Após 4 minutos e 33 segundos o pianista levantou-se e o público irrompeu num tumulto. Não compreendeu que com os seus sons incidentais participara ele próprio na composição da obra e na interpretação. 

A intenção de John Cage não foi provocar o escândalo ou insultar os espectadores: o conceito da peça consiste numa moldura de silêncio preenchida por sons ambientais não intencionados.

Em 1951, Cage fizera a experiência de entrar numa câmara anecoica do laboratório da Universidade de Harvard, concebida para eliminar toda a fonte sonora. Mas, em vez de provar o silêncio, escutou os seus próprios batimentos cardíacos, a circulação sanguínea e o sistema nervoso. Percebeu que não podemos sair do nosso corpo sonoro, somos som e instrumento de ressonância. E habitamos uma sonosfera, os nossos ritmos e a nossa vida estão envolvidos por um universo de sons. O silêncio, concebido como total ausência de som, não existe, desde que existe alguém para escutar.  

Num texto do livro Rosto Precário, escreve o poeta Eugénio de Andrade: «É da tentação do silêncio, da apetência do silêncio, da condenação ao silêncio que falam todos os meus “afluentes”, em prosa ou verso» (1). Mas o silêncio a que o poeta aspira não pode ser a renúncia à linguagem: um texto é feito de palavras e elas são na sua essência matéria acústica. O poema vibra com efeitos intencionais de sonoridades (rima, ritmo, prosódia, certas figuras de retórica), as ressonâncias compreensivas que o leitor escuta (mesmo na leitura interior). As relações do poeta com o mundo, a sua representação e transfiguração, exprimem-se e são reconhecidas por uma voz. Palavras e silêncios vivem no poema, como na partitura musical, não em antagonismo, mas numa articulada e proficiente simbiose.  

O silêncio, em Eugénio de Andrade, pode ser lido como a vontade de depurar o discurso de palavras estéreis ou supérfluas, ruídos importunos, relações impostoras. Perguntado sobre «a intenção do título» do seu livro Os Afluentes do Silêncio, afirma(2):

  

O silêncio é a minha maior tentação. As palavras, esse vício ocidental, estão gastas, envelhecidas, envilecidas. Fatigam, exasperam. E mentem, separam, ferem. Também apaziguam, é certo, mas é tão raro! Por cada palavra que chega até nós, ainda quente das entranhas do ser, quanta baba nos escorre em cima a fingir de música suprema! A plenitude do silêncio só os orientais a conhecem.   

Estamos tão contaminados pelo ruído, a saturação dos discursos, o transtorno dos barulhos, que os sons puros perdem espaço no nosso ser: falta serenidade para pensar, paciência para entender, repouso para fruir.

Mas, em rotura com a verborreia insuportável da vulgaridade, a poesia de Eugénio de Andrade não se alheia do real em imaginações abstractas, num inefável metafísico ou na interioridade à prova de mundo. São universos de materialidade sensível, experiência de conhecimento concretos que o poeta transfigura em versos: a Natureza, com os seus ciclos e estações, o dia e a noite, a terra, árvores, ervas e bichos, rios, montes e astros; ou a cultura, as suas fontes e cantares, um «anjo de pedra», um traço de Shelley ou de Keats; a relação umbilical com a mãe, a euforia e instabilidade do amor, o corpo exultante e precário para equivaler o entusiasmo do desejo, a perda do vigor e a tristeza de envelhecer.  

No canto, na sua intensidade emocional, austeridade retórica e clareza expressiva, escutamos sempre as qualidades sonoras do verbo, ou não recebesse Eugénio de Andrade por influência maior Camilo Pessanha, decerto o nosso poeta mais puramente musical. Desde o primeiro poema (intitulado «Canção» e sugestionado pelo modelo paralelístico das cantigas medievais), os versos temperam-se com a sílaba justa e o rigor da articulação, para obter o ritmo e a melodia em que se escuta o sentido do cantabile. Em «Nascimento da Música» (de Rosto Precário), o poeta, «nostálgico de uma antiga unidade»(3), declara: «Acabo de falar do nascimento da poesia e da música, como se ambas jorrassem da mesma fonte»(4). E jorram: «As origens do canto confundem-se com as origens da própria música», nota o compositor Fernando Lopes Graça(5); o musicólogo João de Freitas Branco afirma que «não é preciso ser profeta para intuir a perduração deste intercâmbio de musas. Há genes comuns à literatura e música»(6). Diz-nos George Steiner: «A interpenetração de poesia e música é tão íntima que a sua origem é indivisível e habitualmente enraizada num mito comum»(7). E Vítor Manuel Aguiar e Silva lembra que Orfeu «é o símbolo mítico desta profunda união entre as duas artes»(8). 

Que silêncio fascina, afinal, o labor órfico de Eugénio de Andrade? Esclarece: «A música que me sai dos dedos ama o silêncio, e a suprema ambição do poeta é integrá-lo no canto»(9). Não se trata, pois, da depuração linguística pela eliminação de uma matéria (o som) em favor de outra (o silêncio). O mutismo seria a negação da poesia, porque fecha as faculdades de criação e comunicação: nada haveria para dizer e ninguém para escutar. Em «O Sacrifício de Efigénia» (de Rosto Precário) Eugénio explica a génese do poema: «ao princípio é o ritmo», elemento pré-verbal, vindo «do coração ou do cosmos»; chega só depois a palavra e faz-se verso a partir das sílabas que se atraem ou repelem (e «o ritmo é o seu leito»); o poema ganha a forma quando vêm à existência a música e o poeta com ela, «até serem canto claro e fundo – voz de homem». Existe, pois, um silêncio original, que não é o nada insignificante, mas a câmara de ressonância onde se faz sentir a pulsação rítmica, sobre a qual se forma o movimento melódico de sílabas e acentos, que por sua vez se conjugará com a intenção da palavra humana. A unidade literária-musical que é o poema contém no movimento sonoro da matéria verbal a própria sublimação, plenitude a que o poeta aspira e a que chama silêncio. Este silêncio é já uma modalidade de sentido e codifica a escala vasta de significados que se oferecem à interpretação. 

 

É impossível analisar numa breve comunicação os sentidos de silêncio em toda a poesia de Eugénio de Andrade. Falemos de um primeiro conjunto de livros, até Obscuro Domínio (1972), para notar que uma coisa é a «plenitude do silêncio» que fascina o poeta e a que ele diz aspirar, outra a conotação que dá nos versos à palavra silêncio, amiúde desfavorável e triste. Lemos logo nos Primeiros Poemas, em «Paisagem»: 

 

E um silêncio talhado 

para o voo de um moscardo 

alastra de casa em casa, 

sobe à torre abandonada 

e sobre a azenha parada 

tomba desamparado. 

 

Um sujeito isolado observa um lugar onde se extinguiu toda a presença humana. O silêncio é significativo da erma desolação que tomou conta do espaço, habitado outrora pelo convívio das relações pessoais, religiosas e laborais.  

O poema II de As Mãos e os Frutos (1948) fala de outro silêncio desalentado:  

 

Cantas. E fica a vida suspensa. 

É como se um rio cantasse: 

em redor é tudo teu; 

mas quando cessa o teu canto 

o silêncio é todo meu. 

 

O poder encantatório da pessoa amada, de que é símbolo o canto, toma posse de tudo e deixa em êxtase o poeta; mas, como o rio se escoa no mar, a impetuosa exaltação é efémera: resta o silêncio absoluto, metáfora do vazio. 

Já no poema III, o silêncio é o modo próprio de ser e agir do ser amado, misterioso como a aparição de um deus, senhor de uma deslumbrante energia (erótica), que regenera a Natureza e transfigura o poeta enamorado:  

 

Quando em silêncio passas entre as folhas, 

uma ave renasce da sua morte 

e agita as asas de repente; […] 

 

A autossuficiência e soberania desse ser dispensam-lhe o verbo, e o esplendoroso silêncio do seu trânsito é signo e promessa de plenitude, que no verso não fica por dizer. 

Mas no poema XIII o silêncio significa a imperfeição ou incompletude que espera a realização amorosa: «Pôs-te sonho onde havia apenas/ silêncio de rosas por abrir». Mais dramático, ele é no poema XIX imagem da morte, oposta à natureza renovadora do amor: 

  

Terra: se um dia lhe tocares 

o corpo adormecido, 

põe folhas verdes onde pões silêncio, 

sê leve para quem o foi contigo. 

 

Nos poemas XXIX e XXX o silêncio é a interdição da palavra no sigilo forçado da clandestinidade («há uma fonte crescendo no silêncio/ da boca mais sombria e mais fechada»); a poesia deseja que o mutismo não prevaleça sobre a corrente vital do amor:  

 

Não quero que conduzas ao silêncio 

de uma noite maior e mais completa, 

com anjos tristes a medir os gestos 

da hora mais contrária e mais secreta. 

  

A esperança de superar a «pura solidão» e o «desencanto» é alimentada pelo rasgo libertador da poesia, que se transcende na própria expressão («Canção, vai para além de quanto escrevo), ao encontro da face oposta, luminosa, da «vida transbordante». 

No poema do mesmo nome do livro Os Amantes sem Dinheiro (1950) o «silêncio/ à roda dos seus passos» é o sigilo em que os amantes são forçados a ocultar o amor furtivo; e também o segredo que o protege da ameaça externa: o poeta descobre que o (seu) amor não é só um sentimento erótico a dois, mas também um desacordo social e político. Já no poema «Adeus», volta a desnudar o espaço íntimo, e ao dizer «Já gastámos as palavras» e «Gastámos tudo menos o silêncio», exprime a incomunicabilidade que atingiu a relação, o esgotamento do diálogo afectivo. Contrasta com outra qualidade do silêncio, aquele que na vibração feliz do amor dispensava o verbo, quando «todas as coisas estremeciam/ só de murmurar o teu nome/ no silêncio do meu coração».  

Na prosa que precede os poemas de Os Amantes sem Dinheiro, o silêncio é signo de extrema solidão e desamparo, quando, uma manhã, o menino acorda na casa deserta e, chamando a mãe, «que a essas horas andava a ganhar o pão», só lhe responde a ausência e, com ela, o terror do abandono. Carência e desabrigo voltarão a ser sentidos no poema «Sem ti», de Coração do Dia (1958), livro dedicado à memória da mãe, afastada pela morte a sua presença umbilical, terreal e cósmica: «E de súbito desaba o silêncio./ É um silêncio sem ti,/ sem álamos,/ sem luas». O silêncio que exprime a perda inelutável pode ser também a câmara em que ressoa a voz da materna imaterialidade através da pureza imarcescível do verbo poético.   

O título do livro As Palavras Interditas (1951) é límpido. O sentido do silêncio divide-se entre a abstenção voluntária de falar e a imposição de calar em circunstâncias pessoais ou políticas. Na ruína da relação amorosa, ele é sintoma da indiferença do outro («eu falei em neve, e tu calavas/ a voz onde contigo me perdi»), da falta de interlocução para rememorar «a pura ressonância da alegria», no tempo em que o amor se iluminara «com a palavra exacta», e exprime as pungentes gradações da presente solidão: o amor (o ser amado) é agora «uma espinha de silêncio/ atravessada na garganta»: cabe à poesia não deixar a história emudecer. Quanto à dimensão política, no poema «Urgentemente», de Até Amanhã (1956), o silêncio conota a inexistência de diálogo fraterno entre os seres humanos («Cai o silêncio nos ombros e a luz/ impura, até doer»), afim do «ódio, solidão e crueldade» que é indispensável combater, por ser hostil à felicidade colectiva, ao afecto, à alegria, à harmonia, à liberdade e à beleza. 

No primeiro poema de Mar de Setembro (1961), o silêncio compreende o estado de plenitude que celebra a felicidade erótica: «Corpo ou ondas: (…) Felizes, cantam,/ serenos, dormem,/ despertos, amam,/ exaltam o silêncio». Porém, em «Que voz lunar», significa a carência, o vazio que só o gesto amoroso pode impedir de medrar (a «branca mão devagar/ quebra os ramos do silêncio»). Noutra das suas modalidades, pode conotar o mistério do corpo amado, esse enigma que se desvela e permanece incognoscível («Que sabemos nós/ dessas nuvens altas,/ dessas agulhas/ nuas/ onde o silêncio se esconde?»). 

É em Ostinato Rigore (1964) que o silêncio se aproxima da vocação que Eduardo Prado Coelho identifica ao escrever: a «poesia de Eugénio de Andrade tende a reduzir-se àquele mínimo de palavras que excede o silêncio e basta para que o silêncio se diga»(10). No poema «Metamorfose da casa», lemos: 

 

Ah, um dia a casa será bosque, 

à sua sombra encontrarei a fonte 

onde um rumor de água é só silêncio. 

 

O poeta desabrigado idealiza a casa, «que só tenho no poema», como um templo natural, em cujo interior alcançará o repouso revivificador, metaforizado pelo alívio da «sombra» e pelo sussurro da água lustral, equivalente à harmoniosa quietude do silêncio. A imagem recorre o poema «As nascentes da ternura»: «O silêncio é de todos os rumores/ o mais próximo da nascente»(11). São silêncios sem escórias, de aprazível e límpido vigor. Mas no poema «Escuto o silêncio» ele representa dois momentos do encontro amoroso: a espera ansiosa e o alheamento de ruídos para que a atenção nela se concentre; e o vazio (ou talvez esperança) que fica no frémito da despedida: «Escuto um rumor: é só silêncio». Entre os dois silêncios, a vitalidade do amor. 

Além deste primeiro conjunto de livros, há um poema de Obscuro Domínio com o título «O silêncio», onde, no entreacto entre o sexo e o sono, o poeta fala «das palavras/ desamparadas e desertas,// pelo silêncio fascinadas»: o verbal é um excesso nesse ideal tão íntimo de plenitude. Mas em Ostinato Rigore admite: «Com palavras amo»; e na prosa de «Da palavra ao silêncio» assume o mesmo: «As palavras são o ofício do poeta (…). Com palavras se ama, com palavras se odeia. E, suprema irrisão, ama-se e odeia-se com as mesmas palavras»(12). Reconhece: «Para lá das palavras, da sua articulação na luz e na sombra, há o silêncio, o espesso, turvo silêncio das criaturas», todavia, «as palavras são também o mais veemente testemunho de fidelidade do homem ao homem»(13).  

O silêncio como ideal impossível e fim perfeito da linguagem (e do ser) é para o poeta um horizonte. E o horizonte está sempre além, mas é ele que permite deixar pegadas na vida – no caso de Eugénio de Andrade, versos.  

 

Este artigo foi publicado na edição nº 28 da revista Líder, sob o tema Silêncio. Subscreva a Revista Líder aqui.

 

1 «Da Palavra ao Silêncio», Prosa, Porto: Assírio & Alvim, pág. 165.

2 «Da Palavra ao Silêncio», Prosa, Porto: Assírio & Alvim, pp. 164-65.

3 «O Sacrifício de Efigénia», Prosa, Lisboa: Assírio & Alvim, 2022, pág. 143.

4 «Nascimento da Música», Prosa, Lisboa: Assírio & Alvim, 2022, pág. 145.

5 Escritos Musicológicos, Edições Cosmos, Lisboa, 1977, pp. 57-58.

6 «Música e Literatura – Segmentos duma Relação Inesgotável», Colóquio Letras, Nº 42, 1978.

7 «Silence and the poet», Language and Silence, London: Faber & Faber, 1985, p. 61: «The interpenetration of poetry and music is so close that their origin is indivisible and usually rooted in a common myth».

8 Teoria e Metodologia Literárias, Universidade Aberta, Lisboa, 2002, p.173.

9 «Da Palavra ao Silêncio», Prosa, Lisboa: Assírio & Alvim, 2022, pág. 158.

10 «Relatório duma leitura da poesia de Eugénio de Andrade, e do prazer que ela provoca no leitor», 21 Ensaios sobre Eugénio de Andrade seguidos de Antologia, Porto: Editorial Inova, s. d., p. 94. Cf. Steiner, Op. cit., p. 68: «In much modern poetry silence represents the claim of the ideal: to speak is to say less» [Em muita da poesia moderna o silêncio representa a pretensão do ideal: falar é dizer menos].  

11 Em «Eugénio de Andrade ou o Paraíso sem Mediação», escreve Eduardo Lourenço sobre este signo: «A fonte devolve-nos a nossa existência de cristal, a verdadeira vida humana unida sem intervalo ao universo inteiro, e miraculosamente intacta, transparente e viva. Por ela somos convocados para essa vida arquétipa, ao abrigo impossível do contacto do mal, do tempo e da morte.», Tempo e Poesia, Porto: Editorial Inova, 1974, p. 134.  

12 «Da Palavra ao Silêncio», Prosa, Lisboa: Assírio & Alvim, 2022, pág. 159.

13 «Da Palavra ao Silêncio», Prosa, Lisboa: Assírio & Alvim, 2022, pp. 159-160.

Arquivado em:Artigos, Leadership

Paulo Duarte: «No princípio era o silêncio»

3 Janeiro, 2025 by Leonor Wicke

Paulo Duarte é padre Jesuíta, mas chegou a ser comissário de bordo antes de enveredar pela vida religiosa, tendo celebrado a primeira missa em 2014. Natural de Portimão, hoje vive em Braga onde trabalha como adjunto do diretor nacional da Rede Mundial de Oração do Papa. 

São muitas as pessoas que acompanha diariamente: em aulas, em conversas, em celebração de missa e reconciliação. Conta com uma forte presença nas redes sociais, com mais de 28 mil seguidores no Instagram, onde partilha breves orações, reflexões e poemas. É autor de dois livros, Rezar a Vida e Deus como Tu. 

À Líder o jesuíta explica como o silêncio é um exercício de liberdade perante um Mundo de ruído e uma ferramenta de consciência e conexão.  

 

De que forma o silêncio é, para si, uma ferramenta de trabalho?

João afirma que no princípio era o Verbo. Acho que o verbo estaria aconchegado ao silêncio. Isto para não dizer que no princípio era o silêncio. Isso, o Verbo aconchegado ao silêncio que impulsiona, dá espaço, à criação em movimento. Para mim, o silêncio é aquele lugar de impulso de vida. Fazer silêncio para a escuta, de mim, do outro, da realidade e do próprio Deus. Fazer silêncio para habitar-me de presença, do presente, para que o movimento que estou a chamado a viver no momento seja o mais autêntico possível. Tem sido um caminho de aprendizagem, fundamental para orientar outras pessoas neste caminho de silêncio, de oração, de escuta de si e dos outros. O silêncio nesse lugar de impulso de vida tem várias facetas, como de paz e também de agitação, até mesmo de incómodo.

Por isso, aprender a sentir, perceber, ler as distintas facetas do silêncio é fundamental para a minha vida de orientação de pessoas no encontro com a autenticidade e humanidade. Quem se silencia diante da injustiça, colabora com o ruído do mal. Quem evita o silêncio como experiência de escuta, vive uma fuga do seu ser mais profundo. Quem se permite silenciar ajustadamente, humaniza-se e humaniza.  

 

Vivemos em canal aberto de ruído, de imagens, mensagens, sinais, alertas. Como se desconecta, sem perder a ligação? 

Entro em “modo de voo”, com a ajuda da respiração consciente. Sim, desligo o telefone e computador algumas vezes por dia e encontro-me através da respiração, para além do meu grande momento de oração diária, de cerca de uma hora. E pelo menos uma vez por ano, vivo os Exercícios Espirituais de Sto. Inácio de Loiola, na versão de oito dias. É um retiro de silêncio. Há coisa de um ano, vivi a experiência de 30 dias em silêncio. Ajudou-me bastante a recentrar, através da sanação e integração de muito da minha vida. Sabendo que o inconsciente está marcado dessas presenças ruidosas, de constante atenção, educar-me para essa liberdade diante dos ruídos tem sido fundamental. E isso conecta-me com a realidade de forma mais consciente, mais presente. Sabendo igualmente do tanto bem que faz, no quotidiano vivo a delicadeza desse encontro de forma o mais plena possível. 

 

Todos temos um espaço interior de recolhimento? 

Naturalmente temos o sono. O mecanismo de dormir é tão forte que é o lugar básico de recolhimento. A nossa dimensão física da corporeidade mostra-nos como é fundamental esse parar. E tanto, mas tanto acontece enquanto dormirmos. De todo que não é uma perda de tempo, como há quem tal considere quando se tem uma visão mecanicista da humanidade. Se somos convidados a parar desde o natural, então também de forma consciente podemos ir mais longe no recolhimento a integrar o muito que se vive, sente, pensa. Nas formações sobre liderança falo muitas vezes desse silêncio em recolhimento fundamental para se tomar decisões. 

 

Escuta e silêncio. A qual recorre mais? 

Andam de mãos dadas. O silêncio permite a escuta. A escuta pede silêncio. Quando escuto uma pessoa, tenho de silenciar-me para acolher o que me diz por palavras e também através dos gestos. Afinal, todo o ser em corpo fala. E a palavra e o gesto ora complementam-se, ora contradizem-se. Quando me silencio, em oração mais quotidiana ou num retiro, abre-se a escuta profunda do que fui integrando e processando de tantas escutas e leituras. Isso, escuta e silêncio andam de mãos dadas.  

 

Entre o ruído e o sossego, como preenche as pausas? 

As pausas breves, preencho de um bom suspiro consciente, acompanhado de um imenso espreguiçar. As longas, gosto de um bom passeio, de boas conversas, de ver realidades preenchidas de beleza.  

 

Como descreveria o som do silêncio? 

Fechei os olhos e deixei vir o som… apareceu a brisa de entardecer enquanto contemplo o mar imenso e calmo. 

 

BIO 

Empresa/ Organização: Rede Mundial de Oração do Papa / Companhia de Jesus

Função: Padre jesuíta e Adjunto do Diretor Nacional

Idade: 45

Educação Académica: Mestrado em Teologia Fundamental

O que faz quando tem tempo livre: Saboreio a vida de forma descontraída

Livros da sua vida: História Interminável, de Michael Ende; Paciência com Deus, de Tomás Halík

Podcasts: Wisdom of the Masters

Viagem de sonho: Aos lugares sagrados das diferentes culturas do mundo.

Líder que o inspira: Jesus Cristo

 

Este artigo faz parte da rubrica “Líderes em Destaque”, publicada na edição nº 28 da revista Líder, sob o tema Silêncio. Subscreva a Revista Líder aqui.

 

Imagem Destaque: Marco Novais

Arquivado em:Artigos, Líderes em Destaque

A vida após a morte do Universo

3 Janeiro, 2025 by Leonor Wicke

Costuma-se dizer que em cada fim há um recomeço. E foi essa ideia que entreteve o físico matemático Roger Penrose, Nobel da Física em 2020. Como vimos no capítulo anterior, a expansão exponencial do Universo fará com que a entropia chegue ao seu nível máximo.

Ou seja, não há mais nenhum sistema que liberte energia, como estrelas ou buracos negros, pelo que o cosmos morreu. Neste ponto, a temperatura do Universo é constante, a zero absoluto, sobrando apenas fotões, as partículas de luz, à deriva. E é precisamente neste ponto que entra a Cosmologia Cíclica Conforme de Roger Penrose, que nos diz que pode haver vida além da morte do nosso Universo. Segundo Penrose, neste limbo em que o Universo se encontra, acontecem duas coisas:

1 • À medida que o Universo expande cada vez mais e mais, a matéria que os buracos negros irradiaram à medida que evaporaram é espalhada numa região cada vez maior;

2 • A única entidade presente são estas partículas de luz, que estão espalhadas numa região cada vez maior, e o movimento destas partículas, que neste momento é o único fator dominante. Posto isto, Penrose criou um conceito muito interessante, que vou tentar explicar de forma criativa. Como as partículas de luz não têm massa, neste futuro remoto o Universo fica sem ponto de referência e esquece-se do seu tamanho.

Neste momento, ser grande ou ser pequeno é irrelevante para o Universo, porque já não há coordenadas de massa, nem de tamanho, que o situem. Posto isto, agora imaginemos o seguinte cenário:

1 • Este Universo, aparentemente infinito graças à expansão exponencial, tem uma vasta quantidade de matéria dispersa nessa área infinita.

2 • Uma vez que a única entidade presente (luz) não tem massa, o Universo deixa ter referência e esquece-se do seu tamanho. Aqui, ser grande ou ser pequeno é irrelevante.

3 • Neste ponto, Penrose sugere que nada impede o Universo de se comportar como uma singularidade: preservando os ângulos (ou a conformidade) da dimensão anterior, o Universo pode converter-se num ponto infinitamente pequeno, quente e denso, de partículas de luz e com o remanescente da matéria irradiada que outra estava dispersa numa região infinitamente grande, fria e pouco densa. Este ponto infinitamente pequeno, denso é precisamente aquilo que especulamos que tenha existido antes do Big Bang, provocando o nascimento do nosso Universo.

Tal como quando expandimos infinitamente um mapa ou uma grelha digital, ou ainda um ficheiro vetorial, a Cosmologia Cíclica Conforme de Roger Penrose sugere que o nosso Universo é como um painel que expande, estica e dá origem a um novo painel, num ciclo infinito em que cada Big Bang é resultado da expansão infinita do Universo anterior.

A estas diferentes sucessões de Universos, Roger Penrose atribui o nome de Éon, que se desdobram conforme vemos na gravura abaixo. Para ajudar a compreender o modo como uma estrutura grande pode manter a proporção quando convertida numa estrutura menor, Penrose gosta de usar o exemplo do Círculo de Escher, como vemos na gravura à direita. Os morcegos mais pequenos têm exatamente a mesma escala dos maiores, e preservariam essa escala se fizéssemos zoom infinito na imagem. Outro recurso visual para ajudar a compreender este ciclo infinito de Éons é visualizar o Triângulo Fractal de Sierpinski ou o Conjunto de Mandelbrot: por mais que estiquemos as figuras geométricas, uma pequena com a mesma escala é gerada, num ciclo infinito.

 

Este artigo consiste num excerto adaptado, do livro As 100 maiores curiosidades sobre o cosmos (Oficina do Livro, 2024), de Fábio da Silva, com o consentimento do autor.

Arquivado em:Ciência, Notícias

A força da autenticidade num Mundo de tendências

3 Janeiro, 2025 by Leonor Wicke

Em tempos de modas velozmente passageiras e pressão para se «ser relevante», as marcas enfrentam uma escolha crítica: aderir a todas as tendências ou permanecer fiéis à sua essência. Saltar para o comboio de cada tendência pode parecer sedutor, mas é também arriscado, especialmente para marcas com consumidores que valorizam a autenticidade e o propósito.  

Ser relevante não é o mesmo que ser autêntico e os consumidores procuram autenticidade. De acordo com Gilmore e Pine, em Authenticity: What Consumers Really Want, o consumidor do século XXI quer mais do que produtos; quer uma conexão genuína com organizações que vivam os mesmos valores que defende. A procura incessante por seguir todas as tendências, leva a uma perda dessa conexão, tornando as marcas indistintas e, por vezes, desonestas. Uma tendência que não condiz com a essência de uma insígnia gera desconfiança e desinteresse, quebrando o vínculo emocional que deveria ser o seu maior ativo. 

Alguns dos melhores exemplos de marcas bem-sucedidas são aquelas que, ao longo do tempo, mantiveram uma postura “em contramão”. A marca francesa Hermès, por exemplo, manteve-se fiel à sua herança, evitando o uso de materiais sintéticos e práticas de produção em massa, preferindo a exclusividade e o trabalho artesanal. Essa consistência contribuiu para a imagem de luxo intemporal, e a Hermès tornou-se um símbolo de sofisticação e raridade. Kapferer e Bastien, num estudo de 2012 sobre as marcas de luxo, afirmam que a verdadeira exclusividade não se trata apenas de preços elevados, mas sim de uma narrativa autêntica e intocável que apenas marcas genuínas podem sustentar. 

A comunicação é, por isso, uma peça fundamental neste cenário. Douglas Holt, em How Brands Become Icons, explica como uma comunicação que vai além do produto e representa valores culturais e identitários, ajuda as marcas a tornarem-se ícones, resistindo à passagem do tempo. As grifes icónicas não são apenas reconhecidas; elas são respeitadas, e a sua história e valores fazem delas algo mais do que um bem de consumo – tornam-se símbolos. 

Para os consumidores, é também importante que as marcas demonstrem uma comunicação responsável, capaz de responder às mudanças culturais e que, em simultâneo, nunca abandonem o seu propósito. O estudo How Shoppers Look, Watch and Listen for New Products, da Nielsen, revela que consumidores preferem investir em marcas que respeitam os seus próprios valores e não nas que aparentam ser oportunistas ou inconsistentes com a sua imagem. Ou seja, a tendência aqui é outra: a procura de autenticidade em vez de relevância temporária. 

A autenticidade é a base de uma relação sólida entre a marca e o consumidor e esta confiança, que deve ser cultivada a longo prazo, não se constrói com tendências momentâneas, mas sim com valores que a marca defende e comunica de forma coerente. Insígnias que se mantêm autênticas, que resistem à tentação de ser “tudo para todos”, acabam por construir relações mais fortes e duradouras com os seus clientes. 

 

Esta opinião foi publicada na edição nº 28 da revista Líder, sob o tema Silêncio. Subscreva a Revista Líder aqui.

Arquivado em:Opinião

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