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Leonor Wicke

O risco de crédito permanece elevado entre os retalhistas de bens de consumo duradouros

2 Outubro, 2024 by Leonor Wicke

Em 2023, as vendas globais de bens de consumo duradouros foram afetadas pela continuação das pressões inflacionistas. As taxas de juro elevadas também pesaram sobre os rendimentos reais das famílias e sobre a confiança dos consumidores na maior parte do mundo.

De acordo com o mais recente relatório divulgado pela Crédito y Caución, o risco de crédito entre os retalhistas de bens de consumo duradouros continua elevado. A nível mundial, mantêm-se os riscos de revisão em baixa, como a queda dos mercados bolsistas, o aumento do desemprego e a volatilidade dos preços das matérias-primas, o que pode vir a reduzir os gastos das famílias.

Na região da Ásia-Pacífico, o crescimento deverá arrefecer em 2025, principalmente devido à menor procura na China. No entanto, a confiança dos consumidores na zona euro e nos Estados Unidos recuperou desde o final de 2023, apoiada por salários mais elevados, inflação mais baixa e maiores oportunidades de emprego.

Neste contexto, a seguradora de crédito espera uma recuperação das vendas de bens de consumo duradouros nos mercados avançados. Na União Europeia, após uma contração de 2,9% em 2023, as vendas deverão recuperar 0,6% e 2,8% em 2024 e 2025, respetivamente.

O risco de crédito dos retalhistas de bens de consumo duradouros permanece elevado. Especificamente, na Europa é alto ou muito alto na Alemanha, Áustria, Bélgica, Dinamarca, França, Hungria, Itália, Holanda, Polónia, Portugal, Reino Unido, Suécia e Suíça.

As empresas de menor dimensão são particularmente vulneráveis a situações de não pagamento e insolvência. O setor opera num ambiente altamente competitivo com margens apertadas que são ainda mais reduzidas pelas baixas de preço frequentes, já que os consumidores procuram descontos durante todo o ano. Ao mesmo tempo, os retalhistas online estão a aumentar a sua quota de mercado, pressionando os operadores mais tradicionais. De acordo com as estimativas contidas no relatório, os bens de consumo vendidos online já representam 22% das vendas.

O crescimento dos mercados emergentes impulsionará a procura no setor durante os próximos anos. As vendas de produtos ecológicos reciclados e recondicionados representam uma oportunidade de negócio crescente para os retalhistas. As tecnologias de realidade virtual e realidade aumentada, capazes de criar experiências de compra imersivas, juntamente com os chatbots para o comércio conversacional em larga escala serão um meio estratégico para a captação de clientes.

Face a estes pontos fortes, o setor apresenta também riscos negativos para o seu desempenho, como a elasticidade da procura, a necessidade de grandes investimentos para desenvolver canais de venda online, margens comerciais estruturalmente estreitas e sob pressão num ambiente com grande transparência de preços e o aumento dos custos logísticos, laborais e energéticos.

Arquivado em:Economia, Notícias

Associação Mulher Líder atinge novo estatuto e reforça liderança no feminino

2 Outubro, 2024 by Leonor Wicke

Com cerca de 200 empresárias de mais de 150 entidades, a Associação Mulher Líder (RML) ganhou um novo estatuto com a passagem formal a associação, após oito anos como projeto-piloto dinamizado pela Agência para a Competitividade e Inovação (IAPMEI).

Reforçando o papel da liderança no feminino nos negócios, a RML está empenhada em facilitar a criação de ligações nacionais e internacionais, bem como inspirar e impulsionar futuras gerações de líderes. De entre as atividades desta associação, contam-se também o peer learning e advising, o fomento de alianças de negócios e o networking.

Esta rede restrita, predominantemente industrial, pretende ser um espaço de confiança, reflexão, partilha de conhecimento e de valorização de negócios de executivas de topo, maioritariamente de Pequenas e Médias Empresas (PME), mas também grandes organizações.

Distribuídas regionalmente por todo o país, as empresas abrangem todas as classes dimensionais, sendo sobretudo empresas estabelecidas, predominantemente industriais ou de bens transacionáveis, com potencial exportador e contribuindo para as exportações nacionais. 31 anos é a vida média das empresas desta associação, comparativamente aos 13 anos da média nacional. mais 15 mil empregos diretos.

A primeira Assembleia Eleitoral aconteceu em setembro, na Associação Empresarial da Região de Leiria (NERLEI), marcando o início oficial desta nova fase.

 

Estamos dedicadas a capacitar as nossas associadas, fazer mentoria a projetos promissores fora da rede e promover um equilíbrio entre dirigentes, sempre com base no mérito.

Purificação Tavares, Presidente da Associação Mulher Líder, médica e sócia-fundadora da CGC Genetics

 

Todo o tipo de diversidade, de género, de competências, de gerações, formação, cultural, etc., acrescenta à inovação e à sustentabilidade das empresas.

Amélia Santos, Vice-presidente da Associação Mulher Líder, fundadora e CEO da Innuos

 

 

Arquivado em:Corporate, Liderança, Notícias

Silêncio: Virtude e Vício

2 Outubro, 2024 by Leonor Wicke

O silêncio é multifacetado. Pode ser bênção ou maldição. Permite-nos dialogar connosco e com os outros. Há mais de uma década, fui convidado para ministrar um curso de formação, em liderança, a diretores de escolas católicas de todo o país. Local: Fátima. Porque o curso começava de manhãzinha, viajei no dia anterior e pernoitei no alojamento que me concederam: uma casa de retiros contígua ao recinto do santuário. Cheguei noite adentro. Entrado no quarto, deparei-me com paredes despidas, uma cama e uma singeleza notável. Não havia aparelhos de TV ou rádio. O asseio e a simplicidade dominavam o “recheio”. A sensação de perda de contacto com o mundo exterior gerou-me desconforto e, até, alguma ânsia. Mas havia beleza naquela frugalidade. À medida que o silêncio me entrava na mente, fui-me sentindo aliviado. Arrumei a mala, lavei os dentes e saí para caminhar pelo recinto. Senti uma enorme paz – a do silêncio.  

Num mundo cacofónico, precisamos de silêncio – para descansar e refletir. Para ler. Contemplar a natureza. Escutar os pássaros. Passear entre o arvoredo. Mas também precisamos desse silêncio para refletirmos, dialogarmos com a nossa consciência e desenvolvermos a coragem … para não nos calarmos perante o que é inaceitável! Refiro-me aos perigos do silêncio nas organizações.

As pessoas calam-se por várias razões. Por medo de punição ou retaliação provinda da chefia. Para não ferir relacionamentos. Para não levar outra pessoa a “perder a face”. Por temer ser rotulado como “ovelha ranhosa”, “fraco jogador de equipa”, ou “sempre do contra”. Porque se é introvertido ou pouco autoconfiante. Ou porque se sente que expressar voz é inútil e não fará qualquer diferença na situação em curso. Há também quem se silencie porque, simplesmente, está descomprometido com o trabalho, a equipa ou a organização. Por oportunismo. Para esconder, instrumentalmente, ideias, informação ou conhecimento relevantes. Por simples comodismo.  

Nem todos estes silêncios têm a mesma gravidade. Os mais problemáticos são, porventura, os que radicam no medo de “abrir o bico” perante decisões desastrosas, perigosas, ilegais ou não-éticas. São inúmeros os escândalos organizacionais que foram sendo “incubados”, ao longo de anos, por um clima de medo, frequentemente instigado pelas lideranças. O caso recente mais emblemático é a Boeing.

O silêncio de funcionários, incluindo engenheiros, resultante do medo de retaliação contribuiu para tragédias – fruto de erros na construção do Boeing 737 Max. A empresa, pressionada pelas circunstâncias e pelas pressões do regulador, tem instituído políticas formais de promoção de uma cultura de speak up. Mas as mudanças culturais são lentas. Acresce o fenómeno “gato escaldado de água fria sem medo”. São necessários anos para que as pessoas fiquem realmente convencidas de que as novas narrativas de gestão orientadas para a expressão de voz correspondem a um desejo genuíno de escutar opiniões e verdades desconfortáveis. 

A conduta das lideranças é crucial. Frequentemente, manter o seu próprio silêncio é a melhor forma de uma liderança criar espaço para que os liderados não se remetam ao silêncio e antes expressem a sua voz. Se uma liderança deseja genuinamente estimular a expressão de voz dos liderados, é conveniente remeter-se ao silêncio até que as pessoas se expressem.

Não com o intuito de vir a “desancar” em quem lhe diz o que não quer ouvir – mas para que se gere um clima de discussão franca que contribua para melhores decisões. Jim Detert, investigador da expressão de voz e da coragem nas organizações, recomendou às lideranças: “Se ninguém fala numa reunião, não assuma que todos estão de acordo – procure ativamente pontos de vista divergentes. E agende conversas frequentes com as pessoas para que elas partilhem ideias consigo. (…) Devemos consciencializarmo-nos de que se não encorajamos as pessoas a expressar voz, estamos a desencorajá-las.”  

As lideranças devem fazer uso do seu próprio silêncio para concederem espaço à expressão de voz dos liderados e, desse modo, tomar melhores decisões. O silêncio é também fundamental para que as lideranças descansem e reflitam. Para dialogarem com a própria consciência e ponderarem as consequências económicas e éticas das suas decisões. Para, no seio do atual caldo social e político perigoso, no qual a mentira descarada é tomada como sintoma de força, terem a coragem de fazerem bem – mas também de fazerem o bem.

Manfred Kets de Vries, reputado académico, consultor e coach de executivos, escreveu em The Daily Perils of Executive Life: “Nascemos sozinhos e morreremos sozinhos. Infelizmente, num esforço desesperado para lidar com a solidão, preenchemos as nossas mentes com atividades ruidosas que abafem o silêncio dessa solidão”. Há quem as preencha com a mentira e a pós-verdade – para não deixar espaço à entrada da verdade desconfortável. Em suma: precisamos de mais silêncio para conceder espaço a que se fale mais e melhor! 

 

Este artigo foi publicado na edição nº 27 da revista Líder, sob o tema Humanity is Calling – Be Silent, Decide with Truth. Subscreva a Revista Líder aqui.

Arquivado em:Leading Opinion, Opinião

Header lança estudo de tendências para celebrar 25 anos do Grupo Wellow

2 Outubro, 2024 by Leonor Wicke

A Header lançou recentemente o estudo Looking Ahead to 2030, uma iniciativa desenvolvida no âmbito da celebração dos 25 anos do Grupo Wellow. Este estudo visa fornecer uma análise aprofundada das tendências emergentes que irão moldar o mundo empresarial no horizonte de 2025 a 2030.

Numa era de mudanças rápidas e imprevisíveis, é essencial que as decisões estratégicas sejam suportadas por dados concretos e insights que ajudem as organizações a antecipar o futuro. O estudo Looking Ahead to 2030 foi elaborado com o objetivo de ajudar líderes empresariais e profissionais de recursos humanos a compreender as forças que irão impactar o ambiente organizacional nos próximos anos, permitindo que as empresas se preparem para prosperar num futuro em constante evolução.

A Header destaca a importância da participação de profissionais em posições de liderança estratégica, como CEO’s, C-levels e profissionais de Recursos Humanos, cuja contribuição será essencial para assegurar que os resultados do estudo reflitam uma perspetiva abrangente e informada sobre as transformações que irão moldar o futuro empresarial.

Já pode aceder ao estudo e participar aqui.

Arquivado em:Líder Corner

Álvaro García Abarrio é o novo Country Manager da WatchGuard para Portugal e Espanha

2 Outubro, 2024 by Leonor Wicke

Álvaro García Abarrio foi nomeado como Country Manager da WatchGuard na região ibérica. Com um histórico no setor tecnológico, traz consigo mais de 20 anos de experiência em cibersegurança, e será agora responsável por liderar as iniciativas de crescimento estratégico da empresa na Península Ibérica.

Álvaro García Abarrio, antes de assumir o novo cargo na WatchGuard, desempenhava funções na Trellix, onde foi responsável pelas operações em Espanha, no Médio Oriente, na Turquia e nos países nórdicos. Na Trellix, assegurava a gestão das estratégias de vendas, marketing e desenvolvimento de negócios. Colaborou também em multinacionais, como a McAfee, e teve uma carreira de destaque na Telefónica, onde ocupou cargos de direção e liderança.

Estamos entusiasmados com a vinda de Álvaro Garcia Abarrio, como o novo country manager da equipa ibérica. A sua liderança será fundamental para reforçar a nossa presença na região, um mercado estratégico para a WatchGuard. Confiamos plenamente na sua capacidade de impulsionar o crescimento da empresa e levar a nossa relação com os parceiros de canal a um novo nível, fortalecendo-a e expandindo-a para os ajudar a crescer neste ambiente dinâmico e competitivo.

Fabrizio Croce, vice-presidente de vendas para o Sul da Europa da WatchGuard Technologies

 

É uma honra juntar-me à WatchGuard. A abordagem da empresa para apoiar os MSPs, através da sua Plataforma de Segurança Unificada, e o seu robusto programa de parceiros são impressionantes, e estou ansioso por impulsionar o crescimento contínuo e o envolvimento dos parceiros na Península Ibérica.

Álvaro García Abarrio, Country Manager da WatchGuard da região ibérica.

 

Arquivado em:Notícias, Pessoas

Recuperar o vínculo com o Mundo Natural

1 Outubro, 2024 by Leonor Wicke

Embora seja essencial reduzir emissões de carbono e acatar os avisos dos cientistas, temos de aprender não apenas como agir de modo diferente, mas também como pensar de modo diferente acerca do mundo natural. Temos de recuperar a veneração da natureza que os seres humanos cuidadosamente cultivaram durante milénios; se fracassarmos nisto, a nossa preocupação com o meio ambiente natural continuará a ser superficial.

Porém, isto não tem de ser uma tarefa intransponível, porque, apesar do nosso comportamento descuidado e destrutivo, não perdemos por completo o nosso amor à natureza.

Os nossos poetas ainda exaltam a beleza e o mistério do mundo natural e os documentários de David Attenborough sobre a vida selvagem continuam a atrair enormes audiências. As pessoas afluem ao mar nas férias e caminham nos bosques ou nos parques nos fins de semana — um regresso à natureza que é tão agradável como restaurador.

Mesmo nas nossas cidades grandes e poluídas, as pessoas estimam o seu jardim, um pequeno oásis de natureza no deserto urbano. Devíamos conscientemente desenvolver este resto da nossa ligação primordial com a natureza na nossa luta para salvar o Planeta. É essencial não só para o nosso bem-estar, mas para a nossa Humanidade.  

Isto vai requerer imaginação e esforço. É crucial que nos comportemos de modo diferente não apenas quando nos apetece, mas constantemente.

As práticas religiosas e as disciplinas do passado têm aqui muito para oferecer. Podem ajudar-nos a desenvolver um apreço estético da natureza e a conceber um programa ético que orientará o nosso comportamento e os nossos pensamentos.

Devemos reviver a reverência pelo mundo natural que foi sempre essencial à natureza humana, mas que se tornou periférica. Alguns ambientalistas, inspirados pela profunda relação dos povos tribais com a natureza, creem que eles devem ser os nossos modelos a seguir. Mas isto pode ser demasiado ambicioso.

Ao contrário de David Abram, a maioria de nós simplesmente não pode viver durante muitos anos na natureza selvagem para absorver a sabedoria e a visão dos povos indígenas. Nem podem muitos de nós passar horas cada dia a comungar com a natureza e a meditar ao ar livre, como fazem alguns ambientalistas empenhados.

Mas creio que podemos aprender muito com as visões e práticas que se desenvolveram durante a Era Axial (cerca de 900 a 200 A.E.C. [Antes da Era Comum]), assim chamada porque foi crucial para o desenvolvimento espiritual e intelectual da nossa espécie.

Nesse momento, em quatro regiões distintas do mundo, emergiram as grandes tradições religiosas e filosóficas que nutriram desde então a Humanidade: confucionismo e daoismo na China; hinduísmo e budismo na Índia; monoteísmo em Israel; e racionalismo na Grécia. Cada uma destas tradições inaugurou um novo tipo de espiritualidade.

A religião tribal, por muito profunda que fosse, sentiu-se não ser já relevante nas novas e complexas civilizações nas quais muitas pessoas agora viviam.

Estas novas espiritualidades, apesar das suas diferenças, partilhavam todas um carácter comum e, crucialmente, uma compreensão semelhante da relação da Humanidade com o mundo natural. Nunca superámos por completo as profundas visões deste tempo.

Não é uma questão de acreditar em doutrinas religiosas; trata-se de incorporar na nossa vida visões e práticas que não só nos irão ajudar a responder aos sérios desafios de hoje, mas que nos mudarão o coração e a mente. 

 

Natureza Sagrada 

No século, os missionários jesuítas levaram a nova ciência europeia para a China. Os literatos chineses ficaram intrigados e mais do que felizes por considerar ideias tais como as posições relativas dos corpos celestes, as fases de Vénus e a existência do primum mobile — ideias que haviam, inicialmente, provocado considerável consternação na Europa. Ficaram, contudo, perplexos perante a ideia de um deus encaixotado num décimo céu «quiescente» nos arredores do cosmos. Porque havia a divindade a que os jesuítas chamaram o «Senhor da Criação» de se mostrar satisfeita por ser confinada a um ínfimo sector do universo que ela havia supostamente criado? O letrado confucionista Fang Yizhi (1611-1671) concluiu que o Ocidente era «detalhado na investigação material», mas deficiente no «compreender forças fundamentais (qi)». Ao dizer qi, Fang referia-se à essência do ser — uma força que os chineses consideravam «incognoscível», as «recônditas e unificadoras camadas de mistérios».

Os jesuítas, concluiu Fang, não compreendiam as limitações da linguagem ao falar do que é último: «Com frequência, os seus sentidos são embaraçados pelas suas palavras.»

Quando confrontados com a realidade última, acreditava ele, os humanos devem ficar em silêncio, porque ela reside para lá do alcance dos conceitos verbais. O qi desafiava — e ainda desafia — as ideias ocidentais. Ele é a «substância» fundamental ou a essência do universo e não é totalmente espiritual nem totalmente material; está, portanto, fora de todas as nossas categorias habituais.

É inefável; é algo que não podemos definir ou descrever. Qi não é um deus ou um ser de qualquer espécie; é a energia que permeia toda a vida, conectando de maneira harmoniosa os mundos vegetal, animal, humano e divino e permitindo-lhes cumprir o seu potencial. Onde os jesuítas do século viam um fosso entre os mundos humano e divino, com Deus a observar de modo benigno a Humanidade a partir do décimo céu, os chineses viam continuidade. Juntos, céu, terra e Humanidade formavam um continuum — uma tríade que era orgânica, holística e dinâmica. O letrado confucionista Tu Weiming (nascido em 1940) descreveu este relacionamento integral como «antropocósmico»: não há divisão entre os seres humanos e o cosmos, porque os dois partilham a mesma realidade. 

Na China encontramos assim uma visão do mundo muito diferente da do Ocidente. O cosmos está em constante fluxo, ativado por uma força vital de que todas as coisas são compostas e pela qual todas as coisas estão ligadas. Como explica um poema composto no século A.E.C., o qi é: 

A essência vital de todas as coisas.  

É isto que lhes dá vida.  

Ele gera os cinco cereais em baixo  

E torna-se as estrelas consteladas em cima.  

Ao fluir entre os céus e a terra  

Chamamos-lhe espectral e numinoso.  

Ao estar armazenado no peito dos seres humanos,  

Chamamos-lhes sábios.  

O sábio confucionista, o ser humano aperfeiçoado, está perfeitamente integrado com as esferas humana, divina e natural. Onde no Ocidente moderno tendemos a separar o sagrado do humano e o religioso do secular, o confucionista vê-se a si mesmo não como uma criatura, mas como um cocriador do universo. Ele não vai, deste modo, cultivar uma vida totalmente «espiritual», contemplando um deus que reside no céu; pelo contrário, deve prestar atenção aos seres humanos seus companheiros, ser sensível às necessidades da sociedade e estar sintonizado de maneira profunda com o mundo natural e o cosmos, que, em conjunto, formam um continuum com a Humanidade. 

As tradições religiosas chinesas podem ser únicas ao não terem uma história da criação. Decerto que não têm um deus criador. Yin e yang, os dois elementos opostos dentro do qi, interagem criativamente num processo de transformação contínua para produzir e suster os elementos materiais do universo — rochas, montanhas, rios, plantas, animais, humanos. Na China, portanto, os seres humanos não foram nem privilegiados nem diferenciados, mas, juntamente com as wanwu, as «miríades» ou «dez mil coisas» da natureza, formavam «um só corpo com o universo». Esta ideia é ainda aceite de forma tão ampla, tanto na cultura popular como na académica, que pode dizer-se ser uma visão do mundo genuinamente chinesa. Por conseguinte, o filósofo chinês Mêncio (cerca de 372-289 A.E.C.) insistia que a Regra de Ouro, primeiro promulgada por Confúcio no século VI A.E.C. — «Não imponhas aos outros o que tu mesmo não desejas» —, se aplica não apenas aos nossos companheiros humanos, mas também às wanwu, às quais estamos inextricavelmente conectados. 

Todas as dez mil coisas estão aí em mim. Não há maior alegria do que descobrir, mediante um autoexame, que sou verdadeiro comigo mesmo. Dá o teu melhor para tratares os outros como desejarias ser tratado e descobrirás que esta é a via mais curta para a Humanidade (ren). 

(…) 

 

O Caminho a Seguir  

Como podemos recuperar esta visão de uma natureza sagrada? Primeiro, penso, alterando a nossa perceção de «Deus». Em vez de «O» vermos confinado aos céus distantes, temos de recorrer a esta mais antiga — e ainda amplamente difundida — compreensão do divino como uma inexprimível, mas dinâmica presença interior que flui através de todas as coisas. Esta noção parece ter ocorrido mais naturalmente às pessoas do que a imagem de um criador solitário, e foi como a população ocidental considerou o divino até à Idade Média tardia. No seu poema «Tintern Abbey», William Wordsworth diz-nos que ensinou a si mesmo a olhar de modo diferente para a natureza. Quando era jovem, respondeu instintiva e emocionalmente ao mundo natural, mas agora considera que, para examinar as suas profundezas, a natureza requer uma contemplação mais intensa. Ele já não pode simplesmente desfrutar da natureza por si mesma, porque descobriu que ela é inseparável do que assim se expressa: 

A música silenciosa e triste da Humanidade  

Nem áspera, nem discordante,  

embora com um amplo poder  

Para castigar e dominar. 

Hoje, esse vínculo entre a natureza e a Humanidade tornou–se cada vez mais intenso, considerando o dano que infligimos ao nosso meio ambiente. Já não podemos deleitar-nos na natureza sem saber que enfrentamos a urgente tarefa de a salvar da destruição humana.  

Mas depois, Wordsworth prossegue descrevendo a presença sagrada que ele experiencia no mundo natural. Significativamente, não lhe chamará «Deus». Wordsworth quase sempre escolhe as suas palavras com extremo cuidado. Na conversação, com frequência usamos a palavra «algo» de modo vago para nos referirmos a um acontecimento ou a uma sensação indistintos ou obscuros. Porém, Wordsworth usa-a de modo criterioso para uma realidade que não irá — na verdade, não pode — definir. 

E eu senti  

Uma presença que me perturba com a alegria  

De pensamentos elevados; uma sensação sublime  

De algo muito mais profundamente impregnado,  

Cuja morada é a luz de pores do Sol,  

E o oceano redondo, e o ar vivo,  

E o céu azul, e na mente do ser humano.  

Um movimento e um espírito que impele  

Todas as coisas pensantes, todos os objetos  

de todo o pensamento,  

E rola através de todas as coisas. 

Não nos recorda isto mais vigorosamente Rta e Brahman, qi e o Dao, do que o Deus ocidental moderno?  

Se permitirmos que ela entre nas nossas vidas, a natureza pode esclarecer a nossa mente e tornar-se uma influência formativa.

Podemos começar por dar pequenos passos, talvez sentando-nos num jardim ou parque durante dez minutos por dia, sem auscultadores nem telemóveis, registando simplesmente as vistas e sons da natureza. Em vez de tirar fotografias do que nos circunda, deveríamos olhar para as aves, flores, nuvens e árvores e deixá-las imprimir-se a si mesmas na nossa mente. Noutro poema, Wordsworth fala da «sábia passividade» que deveria informar as nossas relações com a natureza.

Está a discutir com alguém que tem o nariz enfiado num livro a toda a hora, bloqueando todas as vistas e sons do mundo natural — é difícil de imaginar o que pensaria ele da nossa tecnologia hoje! Não precisamos de livros eruditos, diz-nos Wordsworth, porque os nossos sentidos bebem nos segredos da natureza sem estarmos conscientes disso.  

O olho — não tem alternativa senão ver;  

Não podemos ordenar que o ouvido esteja parado;  

Os nossos corpos sentem, onde quer que estejam,  

Contra ou com a nossa vontade.  

Nem menos considero existirem Poderes  

Que por si mesmos nos impressionam a mente; 

Que podemos alimentar esta nossa mente  

Numa sábia passividade.  

 

Do mesmo modo, podemos treinar-nos naquilo que os chineses chamaram «sentar silencioso» e aprender a notar a vida comum que flui através de todas as coisas, ligando-as entre si numa unidade harmoniosa. Ao sentarmo-nos e ao observar o nosso meio ambiente natural, devemos tornar-nos conscientes do modo como aves e folhas, as nuvens e o vento, se harmonizam de forma que não estamos a ver uma soma de diferentes objetos, mas um todo no qual cada coisa tem o seu lugar perfeito.

Se desenvolvermos uma mente que «observa e recebe» e descobre a fluidez do nosso meio ambiente natural, podemos ser capazes de recuperar alguma da visão dos nossos ancestrais de uma natureza sagrada. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Este excerto do livro Natureza Sagrada. Recuperar o nosso vínculo com o Mundo Natural, de Karen Amstrong, foi adaptado com o consentimento do autor e da Editora Temas e Debates. 

Karen Amstrong é autora de inúmeros livros sobre temas religiosos, traduzidos em 45 idiomas, e embaixadora das Nações Unidas para o projeto Aliança das Civilizações. 

 

Este artigo foi publicado na edição nº 27 da revista Líder, sob o tema Humanity is Calling – Be Silent, Decide with Truth. Subscreva a Revista Líder aqui.

 

Bio 

Nascida em 1944 no Reino Unido, é autora de numerosos livros sobre temas religiosos, traduzidos para 45 línguas, entre os quais Uma História de Deus, Jerusalém: Uma Cidade, Três Religiões, Buda, Grandes Tradições Religiosas e Doze Passos para Uma Vida Solidária, todos publicados pela Temas e Debates. Em 2008 recebeu o TED Prize e principiou a trabalhar com esta organização na Carta pela Compaixão, disponibilizada online para o público em geral, e formulada por pensadores eminentes do judaísmo, cristianismo, islão, hinduísmo, budismo e confucionismo. A Carta para a Compaixão foi lançada globalmente em 2009. Karen Armstrong é embaixadora das Nações Unidas para o projeto Aliança das Civilizações, cujo objetivo é reforçar o diálogo entre o Ocidente e o mundo islâmico. 

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