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Leonor Wicke

Cinco previsões para o futuro da contabilidade em 2030

1 Outubro, 2024 by Leonor Wicke

Globalmente, mais de 80% das empresas irão adotar políticas robustas de ética em relação à Inteligência Artificial, sendo também uma prioridade para as PME portuguesas. Portugal está a tirar partido da IA para impulsionar o crescimento do negócio e otimizar o desempenho financeiro. 

Os dados são parte de um estudo, elaborado pela Sage, que inquiriu cerca de 2300 líderes financeiros de pequenas e médias empresas, incluindo Portugal, com o objetivo de revelar de que forma a IA pode mudar a função financeira das PME. 

Com base na análise, a empresa partilha cinco predições para o futuro da contabilidade potenciada por IA em 2030. 

Veja aqui: 

 

Uma liderança ética em IA será uma prioridade 

Com 80% das PME a terem adotado uma política robusta de ética de IA, em 2030, a IA ética será imprescindível. No entanto, as empresas não se limitarão a implementar políticas de IA ética – tornar-se-ão a principal força na garantia da ética na IA. Em Portugal, a utilização ética da IA também é uma prioridade, com 75% das empresas a realizar formação ética regular e 73% a estabelecer políticas formais de ética de IA. 

 

Haverá uma revisão total da gestão de riscos 

Globalmente, mais de 90% das PME utilizam a IA para monitorização contínua e deteção de anomalias, reduzindo erros financeiros e fraudes em mais de 95%. Isto representará uma reinvenção na gestão de riscos. Portugal tem um forte desempenho na gestão do risco, com 61% das PME a integrarem totalmente ferramentas de IA para a deteção de anomalias. Esta postura proactiva minimiza os riscos financeiros e melhora a conformidade, reforçando a posição de Portugal como líder emergente em práticas financeiras orientadas para a IA. 

 

O fim do fecho mensal 

Os dados em tempo real substituirão o tradicional fecho mensal, com 75% das PME a fazerem a transição para práticas contabilísticas dinâmicas e contínuas. A transição depende do sucesso da garantia contínua (continuous assurance). À medida que a IA revoluciona a gestão do risco, a reconciliação em tempo real e outras capacidades de garantia tornar-se-ão possíveis. As PME portuguesas estão particularmente otimistas quanto ao impacto da IA na preparação de contas e no fecho mensal, com mais de 47% a esperar melhorias de eficiência superiores a 30%. Isto reflete uma ênfase na IA como uma ferramenta transformadora para melhorar a eficácia operacional e reduzir os tempos de ciclo. 

 

Os dados em tempo real impulsionarão as decisões financeiras 

Mais de 70% das PME integrarão dados em tempo real nas decisões financeiras, capacitando-as para impulsionar o crescimento e a inovação, ajudando-as a prosperar no cenário competitivo de 2030. Portugal está a dar passos significativos na integração da IA, particularmente na tomada de decisões estratégicas. Com 42% das PME a afirmarem que a IA melhorou significativamente a sua previsão e planeamento, Portugal está a tirar partido da IA para impulsionar o crescimento do negócio e otimizar o desempenho financeiro. 

 

Aumento da criação de novas funções e oportunidades para os contabilistas 

A IA irá automatizar as tarefas de rotina, libertando os contabilistas para se concentrarem no pensamento estratégico e fornecerem insights empresariais valiosos. Esta transição criará oportunidades para os contabilistas tirarem partido dos seus conhecimentos de novas formas, impulsionando a estratégia e a inovação empresariais. 

Por outro lado, um dos principais obstáculos à introdução de IA é a falta de programas de educação sobre IA entre as PME. Em Portugal, 35% das empresas portuguesas ainda não implementaram programas de formação abrangentes e o reforço destes esforços será fundamental para garantir que todos os colaboradores estão equipados para utilizar a IA de forma eficaz. 

Arquivado em:Corporate, Economia, Notícias

Será que és o verdadeiro tecnológico do futuro?

1 Outubro, 2024 by Leonor Wicke

“Os trinta raios de uma roda convergem para o cubo;

mas é do espaço vazio que depende o seu uso.

 

O vaso é modelado com argila,

mas é o seu vazio que o torna útil.

 

Colocam-se as janelas e as portas na casa em construção,

mas é pelo seu espaço vazio que elas são úteis.

 

Portanto: o ser, o material, tem a sua importância,

mas é do não-ser, do imaterial,

que advém a verdadeira utilidade.

 

Laozi

 

A tecnologia, como o ser material descrito por Laozi, é valiosa, mas sem o conhecimento — o não-ser —, perde todo o seu sentido e utilidade.

Embora o conhecimento traga inquietude, é com ele que temos a sabedoria de dar utilidade à tecnologia. Não importa se manuseamos com destreza a tecnologia, se não conseguirmos cruzar o conhecimento das mais diversas áreas para “preencher” a tecnologia.

A experimentação, a diversidade de pensamento, a curiosidade, os sonhos permitem-nos estruturar as fundições sobre as quais as mais diversas tecnologias podem ser alavancadas com vista à criação de novos valores, produtos, serviços, negócios, acessibilidade e sustentabilidade: um mundo melhor!

Com o atual crescimento exponencial da Inteligência Artificial (IA) generativa, caímos na tentação de querer experimentar todos os modelos, todas as plataformas, esquecendo que precisamos de ter pensamento crítico e que, sem sabedoria, essas mesmas tecnologias não nos ajudarão a sermos melhores pessoas, a fomentarmos a inovação sustentável, a ensinarmos os outros, a sermos mais sociedade!

Como podemos construir robôs que expandem a nossa capacidade humana se não os soubermos ensinar? De que nos servem os dados se não os organizarmos em conhecimento que faça as sinapses funcionarem? De que que nos valem as bases de dados de conhecimento se não as soubermos transformar em ferramentas que aceleram o nosso conhecimento e expandem as capacidades das Large Language Models (LLMs)? De que nos servem os “brain-on-ships” e “ships-on-brain” se não estudarmos o ser humano? Como criar e moldar robôs com empatia se não compreendermos a evolução das espécies? E por fim mas não menos importante, de que forma podemos evoluir tecnologicamente sem trabalhar diversificadamente em conjunto?

Não basta termos as respostas certas, precisamos fazer as perguntas certas! A beleza da evolução e da inovação tecnológica, seja ela qual for, está na nossa capacidade de cruzar o nosso conhecimento, questionar, experimentar, errar, aprender, evoluir e colaborar. Estas são as competências obrigatórias para trazer o Qi (xi) (energia) à tecnologia.

Ser tecnológico não é apenas usar a tecnologia, é sim ter a capacidade de decorar com criatividade e sabedoria o seu espaço. Seguir o ritmo da tecnologia não é suficiente; é preciso ter coragem, manter o coração curioso e a mente aberta, questionando como uma criança, e aceitar o caos criativo para inovar com sabedoria e propósito.

É do conhecimento geral que, atualmente, são apenas os resultados escolares que definem a entrada nas universidades e que estas mesmas universidades pautam-se também por rankings internacionais que lhes confere reputação. Tal facto coloca um carimbo (por vezes falso) no CV dos nossos jovens, pelo que é importante que a sociedade e, principalmente, as empresas criem ambientes propícios ao desenvolvimento das competências referidas anteriormente: pensamento crítico, experimentação, falha, aprendizagem, colaboração, cooperação e crescimento.

A competição no mercado é cada vez maior pela procura de novos talentos, contudo, sabemos que a competição por “salário” é uma competição desigual para as empresas portuguesas quando comparadas com grandes empresas internacionais. O trabalho remoto veio agravar ainda mais esta situação.

No entanto, acredito que a competição focada apenas por “salário” nunca foi boa para o mercado. A inovação, neste caso, está na forma de trabalhar das empresas portuguesas, no ambiente que podemos proporcionar aos nossos jovens, na mentoria que podemos e devemos fazer enquanto pessoas mais experientes. Estes ambientes não devem ser vistos como um custo, mas sim como um investimento que posiciona a empresa no mercado como “aquela empresa onde eu quero começar a minha carreira”. Ainda que, um dia, os possamos perder, fizemo-los crescer enquanto profissionais e pessoas, mais preparadas para o mercado, mais preparadas para liderarem o futuro com mais valores, com maior equilíbrio.  Só assim seremos empresas diferenciadoras e construtoras do futuro.

Aos mais novos e principalmente àqueles que corajosamente participam na Maior Aula de Programação do Mundo, gostaria de deixar a seguinte mensagem:

Se tens medo dos teus sonhos é porque eles são grandes o suficiente! Então, cresce em sabedoria e de mão dada com a tecnologia, mas nunca deixes que a tecnologia ultrapasse o teu conhecimento, que apague os teus valores, que deixes de seres quem és, e de seres sempre o ator da tua própria história. É essa capacidade que torna as pessoas penetrantes, perspicazes e brilhantemente iluminadas!

Arquivado em:Opinião

O lado positivo do conflito enquanto gerador de crescimento e criação de ideias

1 Outubro, 2024 by Leonor Wicke

Os Promova & Randstad: Inspiring Connections, são um conjunto de quatro encontros promovidos pela CIP (Confederação Empresarial de Portugal) e a Randstad Portugal, no âmbito do Projeto Promova.  

Gestão de Conflitos, Relações Intergeracionais, Impacto da IA no Trabalho e Inteligência Emocional, são os temas do Mundo do trabalho que vão estar em debate. O intuito é reunir a rede do Projeto Promova e Progrida, em talks e conversas com a participação de oradores do mundo empresarial. 

A Líder é Media Partner dos quatro encontros e a primeira sessão, sob o tema Gestão de Conflitos, decorreu na sede da Randstad, em Lisboa. 

 

Os desafios da Liderança no feminino 

Nas palavras de abertura, Isabel Roseiro, Diretora de Marketing da Randstad, enfatizou que a liderança no feminino continua com desafios, alguns dos quais «auto impostos». Destacou a importância de, enquanto líderes, haver o discernimento de compreender que não se chega a todo o lado, e de que não é possível controlar tudo. Mas há uma «influência positiva nas pessoas com quem se trabalha, nas empresas e nas comunidades com quem interagimos». O que a faz alertar para a importância de um líder «fazer as coisas com intenção».  

Seguiu-se Raul Neto, CEO da Randstad, que classificou o PROMOVA como um «excelente programa de desenvolvimento de competências de lideranças no feminino». E sobre o gap entre homens e mulheres em cargos de liderança, afirmou: «Acredito muito no equilíbrio das lideranças porque a liderança e a visão é distinta e é complementar». 

 

Gestão de Conflitos 

No último ano, cerca de 60% dos trabalhadores portugueses experienciam conflitos no local de trabalho, e as empresas podem vir a perder até 20% do trabalho devido a conflitos mal geridos.  

Os dados apresentados por Inês de Mendonça Casaca, Associate Director na Randstad Portugal, servem de introdução ao tema da Gestão de Conflitos.  

«Não há uma receita mágica e é um tema muito extenso», começa por referir, acrescentando que há, tendencialmente, uma imagem negativa associada à palavra conflito. Há conceitos associados ao conflito tais como: comunicação, produtividade, formação (que muitas vez é erradamente visto como a solução), diferenças culturais, imparcialidade, entre outros, sem esquecer a questão das emoções.  

O facto de haver cada vez mais mulheres a integrar equipas de liderança, «veio alterar muito este tipo de situações de conflito», referiu. As mulheres têm uma capacidade natural em melhor gerir conflitos, isso é um dado adquirido. 

Então, quais os principais desafios na gestão de conflito? Feedback insuficiente, falta clareza nas instruções e falta de transparência, apresenta. Para além disso, Inês de Mendonça Casaca aborda o preconceito em volta do feedback, muitas vezes encarado como crítica. 

«Devemos olhar para o conflito como oportunidades de crescimento para as pessoas, as empresas e os líderes. O que implica empatia, ouvir diferentes opiniões, tentar perceber qual a origem do problema sempre com o foco na solução», refere.  

E no final, a experiência do conflito serve para aprender, para prevenir situações e mesmo que não se encontre uma resolução, é preciso tomar decisões. «Temos de retirar a energia negativa do conflito e colocar a ideia de gerador de crescimento e de criação de ideias», conclui.  

 

Listen, learn and lead 

Seguiu-se uma conversa com a participação de Inês de Mendonça Casaca, Miguel Tolentino, Head of People & Leadership and Continuous Improvement, na Sonae, e María de las Cuevas, Operations Director – Outsourcing, Quality and Risk Control Department, no Banco BPI, com a moderação de Mariana Mota, Marketing and Communications Specialist na Randstad Portugal. 

Miguel Tolentino, partilhou o conceito de listen, learn and lead. Na gestão de conflitos, os líderes têm de ouvir e ser verdadeiramente curiosos, ter a mente aberta, sem preconceitos e liderar sem se demitirem do seu papel. Inês Casaca acrescenta a importância da empatia, sem fazer julgamentos, e não ter medo do silêncio. «Ter tempo para ouvir e não ter medo de tomar decisões», afirma.  

Há temas pelos quais não se devem entrar, mas María de las Cuevas, enfatiza a ideia de que «ignorar não costuma ser uma boa solução, e não vai fazer desaparecer os problemas». 

O encerramento do primeiro encontro contou com as palavras de Isabel Cardoso, responsável da CIP pelo PROMOVA, que partilhou a informação que o projeto tem agora uma taxa de promoção de 53%, ou seja, mais de metade das mulheres que participam no programa são promovidas (anteriormente o valor era de 49%). 

 

O principal objetivo desta iniciativa é criar um espaço acolhedor para a nossa comunidade Promova e Progrida e proporcionar a todas estas mulheres líderes um ambiente onde se possam reunir, partilhar e debater temas que são importantes nas suas jornadas de desenvolvimento. Esta parceria entre a CIP e a Randstad é uma colaboração de longa data que muito nos orgulha. Juntos, já tivemos a oportunidade de lançar várias iniciativas, como os inspiradores podcasts Promova Talks, que nos permitiram debater os desafios da liderança feminina sob diversas perspectivas e com convidados muito interessantes. Com “Inspiring Connections”, estamos ansiosas por criar novas experiências e novos debates que envolvam as participantes de maneira profunda, tornando a nossa comunidade cada vez mais ativa e dinâmica. A importância que a questão da diversidade tem tanto para a CIP como para a Randstad e a sinergia entre os nossos objetivos tornam esta colaboração quase natural. Juntos, queremos continuar a cultivar um ambiente que inspire e empodere e, ao mesmo tempo, construir uma rede forte e solidária, que celebre as conquistas e os desafios superados de todas as mulheres que fazem parte desta jornada.

Isabel Cardoso, Responsável da CIP pelo projeto Promova

 

A iniciativa “Promova & Randstad: Inspiring Connections” nasce de uma parceria de 5 anos entre a CIP e a Randstad. O objetivo desta iniciativa é criar um espaço de partilha e discussão sobre temas críticos e atuais para mulheres que são líderes em empresas, proporcionando momentos de partilha de experiências, aprendizagens e boas práticas que possam ser aplicadas no dia-a-dia das equipas. Ao criar estes momentos e fomentar esta troca de insights, o projeto procura não só inspirar novas abordagens de liderança, mas também fortalecer a comunidade de executivas, criando laços e redes de apoio que perduram além dos encontros.

 

Isabel Roseiro, Diretora Marketing da Randstad

 

Créditos de imagem: Diogo Navy

Arquivado em:Liderança, Notícias

Coisas que aconteceram em setembro

30 Setembro, 2024 by Leonor Wicke

Eis alguns eventos que tiveram lugar em setembro, que registei:

  1. Nick Cave lançou um novo álbum, Wild God. 10 em 10.
  2. Os políticos continuaram a atirar insultos uns aos outros. Depois admiram-se que as pessoas não confiam neles.
  3. Dois filmes maravilhosos de Pawo Dorji: Um Iaque na Sala de Aula e O Monge e a Espingarda, passados num país não menos maravilhoso: o Butão.
  4. Pior filme da temporada: a ‘negociação’ do Orçamento. Uma sequela sem graça.
  5. Dois atletas da Coreia do Norte tiraram selfies nos Jogos Olímpicos com dois colegas da Coreia do Sul. Receberam “má avaliação ideológica”. O amigo de Trump, Putin e Jinping não dorme.
  6. Obiang, o eterno ditador da Guiné Equatorial, foi visitar o colega russo. O que faz este homem na CPLP?
  7. Por falar neste grupo de amigos, saiu Autocracia, Inc., de Anne Applebaum. Fundamental.
  8. O extraordinário Maduro decretou o Natal para 1 de outubro. Aí está a prova de que o Natal é mesmo quando um homem quiser: “O Natal começa no dia 1 de outubro para todas e todas”, decretou. Com sorte dura até 25 de dezembro – de caminho e aproveitando o espírito natalício, Maduro mandou para o exílio o homem que terá ganho as eleições. Por cá na Festa, o líder do PC saudou a Venezuela, esse bastão de resistência…
  9. Também por cá um assaltante entrou no ministério das polícias e um grupo de assaltantes fugiu aos polícias. O mundo ao contrário.
  10. Sobre a fuga, ficamos com a ideia de um Estado decrépito após anos de amor pelo setor público. Para amenizar, rolou uma cabeça, a do diretor-geral das prisões. Pfeffer e Salancik já tinham explicado: um dos papéis dos líderes é o de bodes-expiatórios. Quando o sistema colapsa rola uma cabeça para que o sistema possa ficar na mesma.
  11. Assumindo que o novo Luís de Camões é mesmo para fazer, que alguém vá a Estocolmo ver o aeroporto Arlanda para se inspirar.
  12. Luís Filipe Vieira explicou que a liderança não se aprende. Pelos vistos tem razão.
  13. A seleção de futebol conseguiu uma vitória a ferros com esse colosso da bola que é a Escócia. Se o selecionador visse os jogos do campeonato e escolhesse os melhores seria mais fácil. Mas mais fácil parece não ser para ele. Que pena Trincão e Pedro Gonçalves não poderem jogar numa seleção. A da Suécia por exemplo.
  14. A notícia do mês: tecnologia de vacinas Covid gera esperança de vacinas contra o cancro.

 

E como estamos praticamente em outubro, bom Natal para todos e para todas.

Arquivado em:Leading Opinion, Opinião

Este texto pode conter mentiras

30 Setembro, 2024 by Leonor Wicke

“Verificar os factos”. “Examinar as provas”. “Correlação não é causalidade”. Já ouvimos estas frases vezes suficientes para que elas estejam no nosso ADN. Se fossem verdadeiras, a desinformação nunca sairia do ponto de partida. Mas quase metade do público britânico acreditou na afirmação, afixada nos autocarros, de que a adesão à União Europeia custava ao Reino Unido 350 milhões de libras por semana. Esta afirmação pode ter sido fundamental para que o Reino Unido votasse a favor da saída da UE, mas o valor real era de 120 milhões de libras. As pessoas acreditam na “regra das 10 000 horas” de Malcolm Gladwell, segundo a qual são necessárias 10 000 horas de prática para dominar qualquer competência. No entanto, as provas em que se baseia limitavam-se a violinistas, não mediam as suas capacidades e nem sequer mencionavam 10 000 horas. As mães exaustas sentem-se demasiado culpadas para dar o biberão aos seus bebés porque existe uma forte correlação entre a amamentação e o QI das crianças, apesar de serem os fatores parentais que determinam ambos.  

O que é surpreendente em todos os casos acima referidos é o facto de as soluções serem simples. Todos sabemos que a lateral de um autocarro não é uma fonte de informação fiável. Gladwell foi direto quanto ao estudo em que baseou a sua regra das 10 000 horas, e um rápido Ctrl-F mostra que o artigo não menciona nada que se aproxime.

Se partilho um estudo no LinkedIn cujas conclusões não agradam as pessoas, não faltam comentários sobre como a correlação não é causalidade – exatamente o tipo de envolvimento perspicaz que espero suscitar. Mas será que vejo o mesmo pensamento crítico quando publico um artigo que os favorece? Infelizmente, não: as pessoas absorvem-no sem qualquer crítica. 

Porque é que deixamos as nossas aprendizagens à porta e nos apressamos a aceitar uma afirmação pelo seu valor nominal? Por causa dos nossos preconceitos. No seu livro inovador, Thinking, Fast and Slow, o Prémio Nobel Daniel Kahneman refere-se ao nosso processo de pensamento racional e lento como Sistema 2, e ao nosso processo de pensamento impulsivo e rápido – impulsionado pelos nossos preconceitos – como Sistema 1. À luz fria do dia, sabemos que não devemos aceitar as afirmações pelo seu valor nominal – mas quando o nosso Sistema 1 está a funcionar em excesso, a névoa vermelha da raiva tolda-nos a visão. 

Kahneman centra-se nos preconceitos que distorcem a forma como tomamos decisões e formamos juízos.

Num novo livro, May Contain Lies: How Stories, Statistics, and Studies Exploit Our Biases – and What We Can Do About It, analiso os preconceitos que afetam a forma como interpretamos a informação. Um dos culpados é o enviesamento de confirmação – a tentação de aceitar provas sem críticas se estas confirmarem o que gostaríamos que fosse verdade. Alguns britânicos estavam ansiosos por acreditar que a UE estava a deixar o Reino Unido sem nada; fomos educados para pensar que a prática leva à perfeição; e muitos de nós confiaríamos no leite materno natural em vez da fórmula artificial de uma empresa gigante.  

O outro lado do enviesamento de confirmação é o facto de rejeitarmos imediatamente uma afirmação, sem sequer considerarmos as provas que lhe estão subjacentes, se esta colidir com a nossa visão do Mundo. O enviesamento de confirmação é difícil de abalar, uma vez que está enraizado no nosso cérebro. Três neurocientistas pegaram em estudantes com opiniões políticas liberais e ligaram-nos a um scanner de ressonância magnética funcional. Os investigadores leram uma declaração política com a qual os participantes tinham previamente dito concordar (como “A pena de morte deve ser abolida”) ou uma declaração não política (como “O principal objetivo do sono é descansar o corpo e a mente”). Em seguida, apresentaram provas contraditórias e mediram a atividade cerebral dos estudantes.

Não houve qualquer efeito quando as afirmações não políticas foram contestadas, mas as posições políticas contrárias ativaram a amígdala. Esta é a mesma parte do cérebro que é ativada quando um tigre nos ataca, induzindo uma resposta de “luta ou fuga”. As pessoas reagem a pontos de vista opostos como se estivessem a ser perseguidas por um animal selvagem. A amígdala aciona o nosso Sistema 1 e abafa o córtex pré-frontal que opera o nosso Sistema 2. 

A confirmação é importante em questões sobre as quais temos uma opinião pré-existente. As emoções estão ao rubro com a pena de morte, a adesão à UE e a amamentação.

Se não há nada para confirmar, não há viés de confirmação, por isso esperamos poder abordar estas questões com a cabeça fria. Infelizmente, entra em ação outro preconceito: o pensamento a preto e branco. Este preconceito significa que vemos o Mundo em termos binários. Consideramos que algo é sempre bom ou sempre mau, sem tons de cinzento. 

O livro de perda de peso mais vendido da história, A Dieta Revolucionária do Dr. Atkins explorou este preconceito. A maioria das pessoas pensa que as “proteínas” são boas. Aprendemos na escola primária que elas constroem os músculos, reparam as células e fortalecem os ossos. “Gordura” soa mal – certamente tem esse nome porque engorda? Mas a dieta Atkins referia-se aos hidratos de carbono, que não são tão claros. Antes da dieta de Atkins, as pessoas podiam não ter uma opinião forte sobre se os hidratos de carbono eram bons ou maus. Mas enquanto pensarem que tem de ser um ou outro, sem meio-termo, vão agarrar-se a uma recomendação de sentido único. 

Foi isso que a dieta Atkins fez. Ela tinha uma regra, e apenas uma regra: Evitar todos os hidratos de carbono.  Não apenas o açúcar refinado, não apenas os hidratos de carbono simples, mas todos os hidratos de carbono. Podemos decidir se comemos algo olhando para a linha “Hidratos de Carbono” no rótulo nutricional, sem nos preocuparmos se os hidratos de carbono são complexos ou simples, naturais ou processados. Esta regra simples foi ao encontro do pensamento preto e branco e tornou-a fácil de seguir. Se a dieta de Atkins tivesse recomendado a ingestão do maior número possível de hidratos de carbono, talvez se tivesse espalhado como um incêndio. Para escrever um bestseller, Atkins não precisava de ter razão. Ele só precisava de ser extremo. 

Vemos afirmações a preto e branco constantemente, com ou sem provas. As pessoas afirmam que “a cultura come a estratégia ao pequeno-almoço”, citando Peter Drucker. Mas Drucker nunca fez esta afirmação e, mesmo que a tivesse feito, não faria sentido se não tivesse efetuado um estudo com um conjunto de empresas com uma cultura forte e uma estratégia fraca, e outro conjunto com uma estratégia forte e uma cultura fraca, e comparasse o desempenho dos dois. Mesmo as causas meritórias podem perder-se devido a um pensamento a preto e branco que ignora as contrapartidas. Governos, investidores e empresas estão a correr para o consumo nulo com algumas menções superficiais a uma “transição justa”, mas 600 milhões de pessoas em África não têm acesso à eletricidade e nada para fazer a transição. 

Então, o que é que fazemos em relação a isso? O primeiro passo é reconhecer os nossos próprios preconceitos. Se uma afirmação despertar as nossas emoções e estivermos ansiosos por a partilhar ou deitar fora, ou se for extrema e der uma receita única para todos, temos de proceder com cautela.  

O segundo passo é fazer perguntas, especialmente se se tratar de uma afirmação que estamos ansiosos por aceitar. Uma delas é “considerar o oposto”. Se um estudo tivesse chegado à conclusão oposta, que buracos lhe faria? Depois, pergunte a si próprio se essas preocupações se mantêm, mesmo que o estudo lhe dê os resultados que pretende.  

Tomemos como exemplo a abundância de estudos que afirmam que a Sustentabilidade melhora o desempenho das empresas. Adoraria que isso fosse verdade, uma vez que a maior parte do meu trabalho é sobre a justificação comercial da Sustentabilidade. Mas e se um estudo tivesse concluído que a Sustentabilidade piorou o desempenho? Um defensor da Sustentabilidade como eu levantaria uma série de objeções. Em primeiro lugar, como é que os investigadores mediram efetivamente a Sustentabilidade? Teriam sido as declarações de Sustentabilidade de uma empresa ou as opiniões subjetivas das pessoas sobre a sua Sustentabilidade, em vez da sua concretização efetiva? Em segundo lugar, qual foi o tamanho da amostra analisada? Se se tratou de um punhado de empresas durante apenas um ano, o fraco desempenho pode dever-se ao acaso; não há dados suficientes para tirar conclusões sólidas. 

Em terceiro lugar, trata-se de uma causa ou apenas de uma correlação? Talvez uma Sustentabilidade elevada não seja a causa de um desempenho baixo, mas um terceiro fator seja responsável por ambos. As empresas tecnológicas têm normalmente uma pontuação elevada em termos de Sustentabilidade, mas há períodos específicos em que a tecnologia tem um desempenho inferior ao do mercado. Agora que abriram os olhos para os potenciais problemas, perguntem a vós próprios se eles afetam o estudo que estão ansiosos por apregoar. Muitos artigos sobre Sustentabilidade utilizam medidas duvidosas de Sustentabilidade, consideram períodos de tempo curtos e ignoram explicações alternativas. 

Uma segunda questão é “ter em conta os autores”. Pense em quem escreveu o estudo e quais são os seus incentivos para fazer a afirmação que fizeram. Muitos relatórios são produzidos por organizações cujo objetivo é a defesa de causas e não a investigação científica. Nenhuma empresa de consultoria publicará um documento que conclua que a Sustentabilidade não melhora o desempenho, porque isso não será bom para a sua marca. Qualquer relatório sobre a remuneração dos diretores executivos elaborado pelo High Pay Centre concluirá que os diretores executivos são excessivamente remunerados. Pergunte: “Será que os autores teriam publicado o artigo se o resultado tivesse sido o oposto?” – Se não, é possível que tenham selecionado os dados ou a metodologia. 

Para além do enviesamento, outro atributo fundamental é a experiência dos autores na realização de investigação científica. Os principais diretores executivos e investidores têm uma experiência substancial e não há ninguém mais qualificado para escrever um relato das empresas que dirigiram ou dos investimentos que fizeram. No entanto, alguns vão além de contar histórias de guerra e proclamam um conjunto universal de regras para o sucesso – mas sem investigação científica não sabemos se esses princípios funcionam em geral. Por vezes, as pessoas citam livremente “investigação da Universidade de Sunnybeach” porque apoia a sua posição, quando nunca contratariam ninguém da Universidade de Sunnybeach. Uma pergunta simples é: “Se o mesmo estudo fosse escrito pelos mesmos autores, com as mesmas credenciais, mas encontrasse resultados opostos, continuaria a acreditar nele? 

A desinformação é, sem dúvida, um problema maior atualmente do que alguma vez foi. Qualquer pessoa pode fazer uma afirmação, iniciar uma teoria da conspiração ou publicar uma estatística – talvez com a ajuda da IA generativa – e, se as pessoas quiserem que seja verdade, tornar-se-á viral. Mas nós temos as ferramentas necessárias para a combater.

Sabemos como mostrar discernimento, fazer perguntas e conduzir a devida diligência se não gostarmos de uma descoberta. O truque é domar os nossos preconceitos e exercer o mesmo escrutínio quando vemos algo que estamos ansiosos por aceitar.  

 

Este artigo foi adaptado de May Contain Lies: How Stories, Statistics, and Studies Exploit Our Biases – and What We Can Do About It, (Penguin Random House, 2024), de Alex Edmans.

Este artigo foi publicado na edição nº 27 da revista Líder, sob o tema Humanity is Calling – Be Silent, Decide with Truth. Subscreva a Revista Líder aqui.

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Martim Sousa Tavares: «O Maestro é um Músico silencioso»

30 Setembro, 2024 by Leonor Wicke

Partindo da sua experiência a conduzir orquestras, Martim Sousa Tavares explorou um universo pouco sonoro. Convocou a plateia da Leadership Summit Portugal, no dia 25 de setembro, no Casino Estoril, a uma reflexão sobre silêncio, o que, segundo o Maestro, não é mais do que «um espaço para a escuta, porque o silêncio enquanto tal não existe».

«Um Maestro é um Músico silencioso. Alguém que está a ser treinado e pago para quebrar o silêncio, portanto para dar cabo dele», começa desconcertando a plateia, em especial pelo tema da cimeira “Humanity is Calling – Be Silent, Decide with Truth”, enquanto explica que quando a orquestra está a tocar, o Maestro não está a produzir som e também isso é uma forma de música.

Na sua talk, “Liderança no dia-a-dia: Lições a Aprender com as Orquestras”, Martim desvenda três momentos que considera fundamentais e indispensáveis para a existência do silêncio. O primeiro, é o silêncio que antecede a ação. «Qualquer ação para ser bem feita, tem de partir do silêncio. Há uma frase que gosto imenso, aliás usei-a no meu livro [Falar Piano, Tocar Francês, da editora Zigurate]: “Tudo o que é bem feito, é feito devagar”. A frase é do saudoso José Pinho, que fundou a livraria Ler Devagar, entre muitas outras coisas. Para que algo seja bem feito, feito com cabeça, com corpo, com coração, tem de ser feito devagar. Esta ideia do devagar como o contrário da velocidade, do sucesso de estímulos, parece que temos de fazer reset, temos de limpar o palato para fazer algo melhor e bem feito», explica.

A música também começa sempre do silêncio. Quando Martim estava a estudar Direção de Orquestra, ou como diz, «quando estava a tirar a carta de condução de Maestro», a mãe [Laurinda Alves] perguntava-lhe: “Como é que são as aulas? Como é que se aprende a dirigir uma orquestra no início? É como termos um carro de instrução, temos uma orquestra de instrução que vamos comandando?”. «E eu dizia-lhe que não, na verdade as primeiras aulas são em silêncio absoluto. E a minha mãe não acreditava. Eu, a certa altura, filmei uma aula e mostrei-lhe e ela ficou banzada, porque estava o Professor sentado à secretária com a partitura aberta, eu à frente dele com a minha partitura a dirigir uma orquestra imaginária, e os dois em silêncio. Parecia uma coisa de doidos, abria-se a porta e achavam que estávamos num hospital psiquiátrico. E há um dia que pergunto ao meu Professor: “Porque é estou a passar tanto tempo em silêncio?” E ele disse: “Tu só podes ter um encontro com a orquestra, quando na tua cabeça tiveres a tua música a soar como um canto perfeito”».

O jovem Maestro explica que nunca mais esqueceu estas palavras. E quando prepara um concerto recorre sempre ao silêncio, «eu e a partitura a ler aquele texto musical e a deixar que ele soe dentro da minha cabeça. Esta abordagem funciona para tudo. Se a pessoa pensar naquilo que vai fazer antes de fazer e fizer um caminho perfeito e estudar os cenários, é muito mais fácil no calor do momento em que tudo está a acontecer, saber para onde é que vamos».

O segundo silêncio é o que comanda a ação. Há no silêncio, de acordo com Martim Sousa Tavares, uma natureza de escuta permanente que, no caso dos Maestros, é treinada ao longo de toda a vida. «É exacerbada a um ponto que faz com que sejamos capazes de uma divisão quase dos hemisférios cerebrais, um em que estamos a ouvir aquilo que está a acontecer e outro em que estamos a reagir àquilo que vai acontecer uma fração de segundos a seguir, porque estamos sempre a jogar na antecipação.

E é também por isso que temos de estar em silêncio. Portanto, o Maestro é o ouvido da orquestra».

Para Martim, quando está a dirigir é o silêncio que comanda as suas ações. «Partimos de um silêncio interior, que antecede para um silêncio que governa, e finalmente, um silêncio que conclui a ação.

E esta é a parte mais especial de todas e que, na minha opinião, tem a ver com uma ideia de visão e de objetivo, porque tal como as coisas começam no silêncio, elas em algum momento têm de voltar ao silêncio».

Este momento de conclusão, em que os objetivos são alcançados, na música é celebrado com a parte mais ruidosa do concerto através do aplauso. «Nós sentimos que entregámos a peça, no momento em que paramos de tocar a última nota, em que o Maestro faz este gesto que corta.

Muitas vezes, o que os músicos mais querem e o Maestro também, é um bocadinho de silêncio antes do aplauso, para sentirmos o arco perfeito que fizemos do silêncio, através do silêncio e de novo para o silêncio».

E remata: «Aplaudam sim, mas não tenham medo do silêncio que conclui a ação. Porque é de facto muitas vezes o momento mais especial e que nos dá esta ideia de que chegámos aonde era suposto chegar. (…) É claro que isto são coisas um bocadinho metafísicas, mas são os três momentos que procuro sempre que estou em palco ou a preparar-me para dirigir uma peça e que acredito que podem ser aplicados como metáfora a tudo na vida».

 

Veja a talk completa aqui:

Martim Sousa Tavares – Lições a Aprender Com as Orquestras

 

Tenha acesso à galeria de imagens aqui.

Assista a todos os momentos, on demand, na Líder TV em www.lidertv.pt, na posição 165 do MEO e 560 da NOS.

 

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