Acontece hoje, em Lisboa, a tomada de posse de António Saraiva como novo Presidente da Cruz Vermelha Portuguesa. Na homenagem prestada pelos conselheiros Líder e amigos, por ocasião do termo das suas funções enquanto Presidente da Confederação Empresaria Portuguesa (CIP), Catarina Barosa, Diretora de Conteúdos da revista Líder fez o retrato do Comendador, marcado pelo «carácter, razão e bom senso, força, coragem e superação».
Leia as palavras partilhadas durante o encontro no Palácio dos Aciprestes, em Linda-a-Velha que contou com a presença de Ana Mendes Godinho, Ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social.
‘Sobre António Saraiva’
Quando conheci o António Saraiva percebi que pertencia a um lugar especial. Seja onde for que nos encontremos para conversarmos sobre a Líder, sobre a Leadership Summit Portugal, sobra sempre tempo para falar sobre o estado do país e da economia, sobre os políticos e os empresários, sobre a família, sobre liderança, sobre as forças e as fragilidades dos Homens, sobre saúde, sobretudo falar e escutar.
O António conta-me algumas das suas histórias que ouço, confesso, com algum regalo, até porque são precisamente essas histórias que me indicam que temos um ponto de encontro comum. São histórias de uma vida que tem impressa uma marca de água, daquelas que se agarram à superfície das folhas de papel e com subtileza marcam uma identidade, essa marca que confere ao António a sua identidade de líder.
Mais do que os títulos, muito merecidos que tem recebido, desde o de Doutor Honoris Causa, ao de Cavalieri, é aquela marca de água subtil que perpassa toda a sua vida que o coloca naquele lugar especial. É a partir desse sítio, que vai buscar a força que o determinou, ainda criança, a bater a uma porta de uma vizinha para se anunciar como sendo o Doutor António Saraiva, acreditando já no seu título mesmo antes de qualquer universidade lho atribuir, ou então num derradeiro esforço de repor a ordem num plenário de trabalhadores, saltar para cima de uma mesa num refeitório, e decidir enfrentar um a um, olhos nos olhos, todos os trabalhadores que boicotavam ostensivamente a votação em curso.
Mais tarde, esse gesto valeu-lhe ser o Presidente da Comissão de Trabalhadores, e a sua luta pelos direitos dos trabalhadores permitiu-lhe estar na origem do primeiro acordo social assinado no nosso país, em 1983, entre os parceiros sociais e o governo: as greves acabavam na Lisnave e os salários em atraso foram todos repostos.
Esse lugar especial onde se encontra o António, é mais do que um lugar, é um meta lugar que permite, mesmo sem óculos observar o mundo dos homens, nas suas mais maravilhosas manifestações, o mundo onde cabem trabalhadores e empresários, onde cabem, indistintamente, todos.
Todos é uma palavra que requer um esforço de compreensão ambivalente, esforço que o António faz com digna tranquilidade e coragem, e foi com essa mesma coragem e convicção com que negociou um acordo social do lado dos trabalhadores, com que enfrentou os olhares das centenas de trabalhadores naquele plenário, que se propõe comprar a empresa que o torna empresário. Deixou de pensar nos trabalhadores? Não, diria que passou a pensar ainda mais nos que trabalham e acrescentou-lhe o pensamento estratégico, dos que têm de levar a bom porto os seus negócios num país, pequeno e nem sempre bem governado.
O tal lugar, o meta lugar, o da força que lhe dá a marca de água, também o ensinou a ser Presidente da Confederação Empresarial Portuguesa, organização até então nunca presidida por uma pessoa proveniente de um grupo social fora das ditas elites portuguesas. Ora aqui está um excelente desafio para o António Saraiva, defender os interesses de todos os empresários portugueses. E foi o que fez, com o mesmo empenho com que defendeu os dos trabalhadores e que talvez nunca tenha deixado de defender. Podemos perguntar: Será isto possível? O António provou que sim. Há um lugar a partir do qual isso é possível, esse lugar é o sítio onde se encontram as pessoas que observam o mundo dos homens a partir da perfectiva estritamente humana, sem comprometimentos que não os do humanismo.
Chantal Jaquet, Filósofa francesa, é autora do termo “Transclasse” e é nesse lugar, ou meta lugar, que António se encontra, um lugar onde não há classes sociais, onde representar trabalhadores e empresários é apenas representar pessoas. Pode parecer doutrina de Engels, mas não, ser transclasse é ter feito uma movimentação evolutiva que torna a existência das classes sociais meras conveniências sociais e não fatores estruturantes da individuo, da pessoa humana. Não são elas que definem o individuo, não são a sua marca de água. A sua marca de água é a sua força e o seu carácter, a razão e o bom senso, a força, a coragem e a superação.
Por isso hoje o António é o Presidente da Cruz Vermelha, faz todo o sentido que assim seja, não poderia ser noutro lugar.
Veja aqui a reportagem da homenagem a António Saraiva:
