Num centro de reciclagem nos arredores de Kyiv, a uma curta distância do local da queda de um helicóptero que matou 14 pessoas (incluindo o Ministro do Interior da Ucrânia), um grupo de pessoas, a maioria mulheres, está a destruir centenas de livros russos, partilha o The Economist.
A capa de “Infância, Adolescência e Juventude” de Tolstói vai para um saco do lixo. As páginas do romance, destinadas a acabar como papel para outros livros, em ucraniano, ou como papel higiénico. Depois, segue-se uma seleção de poemas de Mayakovsky, livros de física soviéticos, e biografias de Pushkin e Dostoievski. E assim adiante.
Step-by-step: a desrussificação nas várias regiões
A reação contra a cultura russa na Ucrânia tem vindo a ganhar força desde 2014, quando a Rússia ocupou o Donbass e a Crimeia. Mas a invasão da Rússia na Ucrânia, juntamente com as atrocidades cometidas pelas suas tropas, acelerou a tendência.
A desrussificação tem sido principalmente um processo de baixo para cima, ou uma questão de preferência individual, em oposição à política do governo. Milhões de ucranianos continuam a falar russo sem sofrer discriminação, mas as autoridades locais em muitas partes do país estão a mudar os nomes das ruas e a derrubar estátuas russas e soviéticas.
Em Uzhhorod, capital da província ocidental da Transcarpácia, estrelas vermelhas foram removidas das lápides de soldados soviéticos mortos. Bustos de Alexander Pushkin desapareceram de dezenas de cidades.
Em Odessa, uma grande estátua de Catarina, a Grande, a imperatriz russa do século XVIII que fundou a cidade, foi retirada e encaixotada no final de dezembro e agora ganha pó no porão do museu de belas-artes da cidade.
A 27 de janeiro, a Kyiv-Mohyla Academy, uma das universidades mais antigas de Kyiv, anunciou que ia proibir o russo falado, embora o seu presidente posteriormente tenha recuado e dito que a proibição não seria aplicada.
É correto a literatura sofrer?
A desrussificação também chegou à literatura: Syayvo, uma livraria em Kyiv, fechou no início da invasão. Quando reabriu, três meses depois, a direção e alguns clientes tiveram a ideia de recolher livros em russo, reciclá-los e doar o valor arrecadado a uma instituição de caridade que compra roupas e equipamentos para as tropas ucranianas. Desde julho, os clientes já trouxeram 60 toneladas de livros.
A Rússia, que controlou grande parte da Ucrânia desde o século XVII, e a União Soviética, da qual a Ucrânia fez parte até 1991, suprimiram repetidamente a língua e a cultura ucranianas. A russificação atingiu o pico sob Alexandre II, um czar do século XIX que proibiu o ensino, a publicação de livros e a encenação de peças em ucraniano.
O czar moderno da Rússia, Vladimir Putin, nega a existência de uma cultura ucraniana separada. As forças de ocupação russas no leste e sul da Ucrânia começaram a destruí-lo. O acesso a sites de notícias ucranianos foi bloqueado; os nomes dos lugares foram alterados e as grafias russas substituíram as ucranianas.
Na devastada cidade de Mariupol, os ocupantes derrubaram um monumento às vítimas do Holodomor, a fome a que os soviéticos condenaram a Ucrânia na década de 1930 e que matou milhões de pessoas. As escolas agora são forçadas a seguir o currículo russo.
A maioria dos ucranianos apoia a ideia de mudar os nomes de lugares soviéticos ou russos.
Se os escritores russos enterrados há um ou dois séculos devem pagar o preço pelos crimes de guerra de hoje, é uma questão mais controversa. Como muitos ucranianos traumatizados pela guerra, Vasyl, à procura de um novo romance na livraria Syayvo, diz que ele e a sua esposa, que cresceu na Rússia, decidiram parar de falar russo. “Irrita-me ouvir a língua”, diz ele.
Ainda assim, considera que a literatura deveria estar fora dos limites, e que transformar livros em celulose é um passo longe demais. “Isso faz-me lembrar muito Mussolini”, diz Vasyl, não persuadido pelo argumento de Dyak de que reciclar livros dificilmente é a mesma coisa que queimá-los. “Um livro é um livro.”
