“Porquanto deste ouvidos à voz de tua mulher, e comeste da árvore de que te ordenei, dizendo: Não comerás dela, maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida.” (Gênesis 3:17)
A ideia de que o trabalho é um castigo, uma maldição, é antiga, como se pode ver no trecho da Bíblia que serve de epígrafe. Ótimo era o paraíso onde corria o leite e o mel, não existia vergonha nem culpa, necessidade de ganhar a vida ou qualquer mal social; apenas uma leve proibição: não tocar numa árvore.
A exegese deste episódio da Bíblia levar-nos-ia muito longe. Acontece que não trabalhar, não prover o seu próprio sustento, é uma outra forma de escravatura. Digamos que o nosso arbítrio, se acaso existe em tais circunstâncias, fica muito reduzido; logo, o ato rebelde de Eva (a mulher que leva Adão a dar-lhe ouvidos), ao comer o fruto proibido foi, em si mesmo, um ato de libertação. É certo que o homem tem de trabalhar todos os dias da vida e ganhar o sustento com o seu suor, ao mesmo tempo que Eva passará a dar à luz no meio de sangue e sofrimento.
Passados estes anos (quantos?) desde a expulsão do paraíso até aos dias de hoje, muito aconteceu. Os direitos de quem trabalha mudaram radicalmente; a própria natureza do trabalho alterou-se de forma substancial e – não menos importante – a violência obstetrícia passou a ser condenada socialmente.
A questão, pois, é se não atuamos em espelho; significando que se o trabalho é muito atenuado (no sentido de o modo de vida se suavizar tanto ou mais do que o parto, mesmo não existindo epidural para quem tem dias aborrecidos de escritório, ou estações enfadonhas de colheitas e sementeiras), não menos intrigante é saber se somos mais escravos, ou menos livres, do que já fomos.
Claro que os escravos, como o fundamento da riqueza, ou posteriormente os servos da gleba, ou não tinham liberdade, ou a que possuíam era ridiculamente limitada. Ainda hoje, olhando certas latitudes onde instituições como aquelas perduraram muito para além do que se passou na Europa – seja no sul dos EUA, no Brasil e América Latina, seja no leste, na Rússia ou na China – subsistem ainda preconceitos e dores. Porém, na nossa terra, na Europa, o homem já foi mais livre na sua relação com o trabalho; sobretudo talvez tenha tido menos dificuldades do que aquelas que um jovem encontra hoje para entrar no mercado e poder receber em troca do seu esforço uma recompensa que lhe permita constituir família, ter casa e bem-estar.
Salvo em algumas profissões, como médico ou advogado (que, entretanto se coletivizaram em mega consultórios e escritórios), talvez o facto de a produção – fosse ela industrial, agrícola ou de serviços – ser essencialmente coletiva contribuísse para essa maior liberdade, que poderia ser medida pelo acesso ao trabalho e pela recompensa que este providenciava. Aos poucos, com as sucessivas fases da revolução industrial, o individual sobrepôs-se, em muitos casos, ao coletivo. Este facto cria, desde logo, uma consequência visível: há os melhores e os menos bons; e também os piores e os maus. Ao mesmo tempo certas profissões vão desaparecendo, algumas com séculos de transmissão de mestre para aprendiz, e sobrepõe-se a maquinaria, a produção em cadeia e, por fim, a robotização. Este movimento faz com que as desigualdades – e até distância física – entre os que têm por missão fabricar e aqueles que gerem, vendem, analisam, se aprofundem. A somar, as redes de Internet permitem que alguns possam trabalhar à distância, coisa que a recente Pandemia chegou a impor. Ou seja, ao “todos por um” seguiu-se o “cada um por si”.
A globalização também contribuiu para um enorme distanciamento entre o produto e a sua utilização, compra e venda. É impossível competir com preços de quase-escravos, mas é também impossível viver sem os produtos longínquos, bem como criar sociedades em que todos têm habilitações e qualificações distintas. Os que, entre nós, faziam o mesmo do que chineses e indianos, embora por quatro ou cinco vezes o preço, são postos de lado.
O resultado mede-se em vencedores e vencidos. Os primeiros, não vêem solução para mudar esta equação, salvo num futuro mais risonho cheio de inteligência artificial e robotização; os segundos pensam ser possível voltar atrás, aos tempos em que, de pautas aduaneiras firmes e fronteiras fechadas, cada país, cada região se autoabastecia. Uns como outros desprezam o presente em que vivemos. O tempo bom é outro, que não o nosso.
Não obstante, vivemos este tempo – em que, entre outras coisas, pensávamos ser impossível na Europa um país invadir outro por coisa nenhuma, salvo fábulas históricas – e é para este tempo que necessitamos soluções. Podemos encontrar algumas respostas no passado (a solidariedade, ou a caridade, a união de esforços e de entreajuda), assim como outras no futuro (soluções para os excluídos, fim do trabalho exaustivo, maiores qualificações e conhecimentos); o que não podemos é ignorar de onde vimos e desprezar o pensamento sobre para onde vamos.
É como estar a meio de uma ponte de onde não vemos o ponto de origem nem o de chegada. E por isso é tão importante sabermos caminhar, porque a caminhada é, simultaneamente, o caminho. Por isso é fundamental não perder as referências os acquis civilizacionais de que fomos capazes e temos por obrigação defender.
Dividir o Mundo em vencedores e vencidos é uma forma simplista de o ver. Nenhum de nós aqui estaria sem os erros e sem os méritos de muitos que nos precederam. A nossa vida é uma cadeia que se entrelaça entre os nossos antepassados e os nossos descendentes e terá de ser com esse espírito que o trabalho, e a sua gestão e direção, tem de ser visto.
Com a consciência de que tudo é mais simples se for partilhado, e não escondido; com a necessidade de ajudar os que ficam para trás na montanha que subimos; com a admiração (não a inveja) dos que são capazes; com paciência para os que se queixam e para os que se vangloriam; dando alento a quem lhe falta só um pouco de compreensão; repreendendo quem quer recompensas à custa dos outros.
Não se trata da dicotomia do séc. XIX entre patrões e empregados; ou capitalistas e proletários; nem da que nos vem do século XX entre os que conseguem e os que desistem. É antes o sentimento de obra comum em que todos são necessários, sem que nenhum seja dispensável.
O bom gestor, seja de uma empresa, seja de um país, é aquele que integra, não o que separa; o que distribui, não o que extrai; o que entende que a maldição do trabalho pode ser, afinal, uma libertação coletiva e não uma maldição dos deuses.
Como já escreveu Virgílio no livro Geórgicas, labor omnia vincit, ou seja, o trabalho tudo vence.
Este artigo foi publicado na edição de verão da revista Líder. Subscreva a Líder AQUI.

