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Rita Saldanha

Da maldição do trabalho

9 Junho, 2022 by Rita Saldanha

“Porquanto deste ouvidos à voz de tua mulher, e comeste da árvore de que te ordenei, dizendo: Não comerás dela, maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida.” (Gênesis 3:17)

A ideia de que o trabalho é um castigo, uma maldição, é antiga, como se pode ver no trecho da Bíblia que serve de epígrafe. Ótimo era o paraíso onde corria o leite e o mel, não existia vergonha nem culpa, necessidade de ganhar a vida ou qualquer mal social; apenas uma leve proibição: não tocar numa árvore.

A exegese deste episódio da Bíblia levar-nos-ia muito longe. Acontece que não trabalhar, não prover o seu próprio sustento, é uma outra forma de escravatura. Digamos que o nosso arbítrio, se acaso existe em tais circunstâncias, fica muito reduzido; logo, o ato rebelde de Eva (a mulher que leva Adão a dar-lhe ouvidos), ao comer o fruto proibido foi, em si mesmo, um ato de libertação. É certo que o homem tem de trabalhar todos os dias da vida e ganhar o sustento com o seu suor, ao mesmo tempo que Eva passará a dar à luz no meio de sangue e sofrimento.

Passados estes anos (quantos?) desde a expulsão do paraíso até aos dias de hoje, muito aconteceu. Os direitos de quem trabalha mudaram radicalmente; a própria natureza do trabalho alterou-se de forma substancial e – não menos importante – a violência obstetrícia passou a ser condenada socialmente.

A questão, pois, é se não atuamos em espelho; significando que se o trabalho é muito atenuado (no sentido de o modo de vida se suavizar tanto ou mais do que o parto, mesmo não existindo epidural para quem tem dias aborrecidos de escritório, ou estações enfadonhas de colheitas e sementeiras), não menos intrigante é saber se somos mais escravos, ou menos livres, do que já fomos.

Claro que os escravos, como o fundamento da riqueza, ou posteriormente os servos da gleba, ou não tinham liberdade, ou a que possuíam era ridiculamente limitada. Ainda hoje, olhando certas latitudes onde instituições como aquelas perduraram muito para além do que se passou na Europa – seja no sul dos EUA, no Brasil e América Latina, seja no leste, na Rússia ou na China – subsistem ainda preconceitos e dores. Porém, na nossa terra, na Europa, o homem já foi mais livre na sua relação com o trabalho; sobretudo talvez tenha tido menos dificuldades do que aquelas que um jovem encontra hoje para entrar no mercado e poder receber em troca do seu esforço uma recompensa que lhe permita constituir família, ter casa e bem-estar.

Salvo em algumas profissões, como médico ou advogado (que, entretanto se coletivizaram em mega consultórios e escritórios), talvez o facto de a produção – fosse ela industrial, agrícola ou de serviços – ser essencialmente coletiva contribuísse para essa maior liberdade, que poderia ser medida pelo acesso ao trabalho e pela recompensa que este providenciava. Aos poucos, com as sucessivas fases da revolução industrial, o individual sobrepôs-se, em muitos casos, ao coletivo. Este facto cria, desde logo, uma consequência visível: há os melhores e os menos bons; e também os piores e os maus. Ao mesmo tempo certas profissões vão desaparecendo, algumas com séculos de transmissão de mestre para aprendiz, e sobrepõe-se a maquinaria, a produção em cadeia e, por fim, a robotização. Este movimento faz com que as desigualdades – e até distância física – entre os que têm por missão fabricar e aqueles que gerem, vendem, analisam, se aprofundem. A somar, as redes de Internet permitem que alguns possam trabalhar à distância, coisa que a recente Pandemia chegou a impor. Ou seja, ao “todos por um” seguiu-se o “cada um por si”.

A globalização também contribuiu para um enorme distanciamento entre o produto e a sua utilização, compra e venda. É impossível competir com preços de quase-escravos, mas é também impossível viver sem os produtos longínquos, bem como criar sociedades em que todos têm habilitações e qualificações distintas. Os que, entre nós, faziam o mesmo do que chineses e indianos, embora por quatro ou cinco vezes o preço, são postos de lado.

O resultado mede-se em vencedores e vencidos. Os primeiros, não vêem solução para mudar esta equação, salvo num futuro mais risonho cheio de inteligência artificial e robotização; os segundos pensam ser possível voltar atrás, aos tempos em que, de pautas aduaneiras firmes e fronteiras fechadas, cada país, cada região se autoabastecia. Uns como outros desprezam o presente em que vivemos. O tempo bom é outro, que não o nosso.

Não obstante, vivemos este tempo – em que, entre outras coisas, pensávamos ser impossível na Europa um país invadir outro por coisa nenhuma, salvo fábulas históricas – e é para este tempo que necessitamos soluções. Podemos encontrar algumas respostas no passado (a solidariedade, ou a caridade, a união de esforços e de entreajuda), assim como outras no futuro (soluções para os excluídos, fim do trabalho exaustivo, maiores qualificações e conhecimentos); o que não podemos é ignorar de onde vimos e desprezar o pensamento sobre para onde vamos.

É como estar a meio de uma ponte de onde não vemos o ponto de origem nem o de chegada. E por isso é tão importante sabermos caminhar, porque a caminhada é, simultaneamente, o caminho. Por isso é fundamental não perder as referências os acquis civilizacionais de que fomos capazes e temos por obrigação defender.

Dividir o Mundo em vencedores e vencidos é uma forma simplista de o ver. Nenhum de nós aqui estaria sem os erros e sem os méritos de muitos que nos precederam. A nossa vida é uma cadeia que se entrelaça entre os nossos antepassados e os nossos descendentes e terá de ser com esse espírito que o trabalho, e a sua gestão e direção, tem de ser visto.

Com a consciência de que tudo é mais simples se for partilhado, e não escondido; com a necessidade de ajudar os que ficam para trás na montanha que subimos; com a admiração (não a inveja) dos que são capazes; com paciência para os que se queixam e para os que se vangloriam; dando alento a quem lhe falta só um pouco de compreensão; repreendendo quem quer recompensas à custa dos outros.

Não se trata da dicotomia do séc. XIX entre patrões e empregados; ou capitalistas e proletários; nem da que nos vem do século XX entre os que conseguem e os que desistem. É antes o sentimento de obra comum em que todos são necessários, sem que nenhum seja dispensável.

O bom gestor, seja de uma empresa, seja de um país, é aquele que integra, não o que separa; o que distribui, não o que extrai; o que entende que a maldição do trabalho pode ser, afinal, uma libertação coletiva e não uma maldição dos deuses.

Como já escreveu Virgílio no livro Geórgicas, labor omnia vincit, ou seja, o trabalho tudo vence.

 

Este artigo foi publicado na edição de verão da revista Líder. Subscreva a Líder AQUI.

Arquivado em:Leading Opinion, Opinião

Yoga

8 Junho, 2022 by Rita Saldanha

O livro pede uma advertência inicial: este não é um manual prático de yoga, nem um livro de autoajuda bem-intencionado. Yoga é um romance e uma obra de autoficção, o exemplo perfeito das qualidades que distinguem o autor, anunciado como o galardoado com o Prémio Princesa das Astúrias em 2021.

Enquanto revela uma história pessoal – em que fala do fim do seu casamento, do ataque ao jornal satírico Charlie Hebdo ou do seu internamento durante alguns meses num hospital psiquiátrico –, Emmanuel Carrère explora aspetos da vida de todas as pessoas: do que somos, dos nossos medos e mentiras e do esforço de nos tornamos melhores e nos aperfeiçoarmos. É uma experiência radical que questiona a nossa ideia de equilíbrio e as formas de o atingirmos. Yoga e depressão, meditação e terrorismo. Desejo de unidade e perturbação bipolar: coisas díspares que afinal se combinam.

E porquê Yoga? Porque «quando se fala de duas coisas que nada têm a ver uma com a outra, a possibilidade de que, pelo contrário, estejam ligadas é grande.» E isto é também o que esta prática nos ensina. Além de nos mostrar o seu entendimento sobre o yoga propriamente dito, Carrère apresenta-nos um espelho romanesco da nossa relação connosco, da paciência necessária para amarmos os outros, para nos salvarmos e vivermos melhor as nossas vidas.

Autor Emmanuel Carrère

Editora Quetzal

Arquivado em:Livros e Revistas

A Mais Breve História da China

8 Junho, 2022 by Rita Saldanha

Sucinto, lúcido e atento ao pormenor, este pequeno livro é uma referência indispensável para compreender a história da China, em quinze capítulos, das dinastias antigas à atual superpotência mundial.

À medida que avançamos pelo «século asiático», prestamos cada vez mais atenção à China – a superpotência económica, a sociedade em rapidíssima modernização, o jogador geopolítico crescentemente assertivo. Para irmos além dos chavões sobre esta antiga e prestigiada nação, devemos conhecer o seu passado vibrante e tumultuoso – uma história repleta de personagens fascinantes, de celeumas filosóficas e de golpes palacianos, de conflitos militares e de convulsões sociais, invenções artísticas e inovações tecnológicas.

Os registos históricos chineses são antigos e profundos, abrangendo pelo menos 3500 anos. Os seus temas e ensinamentos, bem como as memórias de feridas e triunfos, estão presentes na vida, língua, cultura e política da China contemporânea. O papel cada vez mais importante que a República Popular da China desempenha nas questões globais torna fundamental um conhecimento dessa história, pois ela é fundamental para a compreensão da China atual.

“A Mais Breve História da China” conta assim o caminho percorrido por este país, desde as suas origens tribais e eras imperiais até ao Partido Comunista liderado no presente por Xi Jinping – incluindo as pouco conhecidas histórias das mulheres chinesas que se distinguiram, e os espetros da corrupção e da desunião que continuam, ainda hoje, a ensombrar a República Popular. Uma talentosa escritora e historiadora rigorosa, a sinóloga Linda Jaivin resume, de forma magistral, o percurso desta civilização e o seu presente poder global num livro de leitura indispensável.

Autora Linda Jaivin

Ensaísta, romancista e tradutora. Licenciada em Estudos Chineses pela Brown University, EUA, é coeditora do The China Story Yearbook. Viveu em Taiwan, Hong Kong e Pequim e escreve sobre política, cultura e história chinesas há mais de três décadas.

Editora Dom Quixote

Arquivado em:Livros e Revistas

Manual de Tratamento da Ansiedade

8 Junho, 2022 by Rita Saldanha

As perturbações de ansiedade são as doenças psiquiátricas mais comuns, podendo afetar ao longo da vida até 33% da população mundial. Em situações excecionais, como pandemias ou guerras, podem verificar-se prevalências ainda mais elevadas.

Numa altura em que a sociedade tem trazido para o debate a importância de valorizar os problemas da Saúde Mental como forma a promover o bem-estar dos vários agentes da comunidade, surge o livro “Manual de Tratamento da Ansiedade” em que o coordenador, assente no conhecimento científico mais atual, percorre ao longo da obra as perturbações de ansiedade mais comuns, descrevendo as suas características clínicas, diagnósticos diferenciais, modos de evolução e as diferentes opções disponíveis de tratamento, em particular a farmacoterapia e a psicoterapia.

O livro inclui as alterações do CID-11 – Classificação Internacional de Doenças (11º Revisão) e aborda temáticas ligadas à doença mental como: da ansiedade sintoma à ansiedade doença; classificação e diagnóstico das perturbações de ansiedade; perturbação de ansiedade generalizada; perturbação de pânico; perturbações fóbicas; reações ao stress; farmacoterapia das perturbações de ansiedade e psicoterapia das perturbações de ansiedade

A obra “Manual de Tratamento da Ansiedade” foi elaborada por um grupo de médicos psiquiatras de várias instituições nacionais, sendo uma ferramenta útil para todos os profissionais que trabalham no campo da saúde mental, como médicos, psicólogos, enfermeiros, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais, entre outros, bem como para os leitores que pretendam atualizar o seu conhecimento acerca destas doenças psiquiátricas.

 

Editora LIDEL

Arquivado em:Livros e Revistas

As quatro lições da Google para reter e atrair talento

8 Junho, 2022 by Rita Saldanha

“A Google não é uma empresa diferente de todas as outras, mas tem uma cultura muito própria”, afirma Jorge Catalão Ramos, Enterprise Account Executive da Google Cloud, na talk “One Size Doesn’t Fit All: How Google Addresses the “new normal”. Promoting a Culture of Innovation” durante o evento IDC – Future of Customers & Employees.

O mercado de trabalho como o conhecíamos acabou: a pandemia veio abalar o modelo de trabalho presencial, dando abertura a que se explorassem os regimes híbridos e remotos. Além disso, as pessoas priorizam cada vez mais o seu bem-estar, e procuram-no no local de trabalho. “Temos indicadores que cerca de 12 milhões de pessoas durante a pandemia deixaram voluntariamente nos seus empregos por não encontrarem o propósito na sua empresa”, acrescenta.

O trabalho que a Google tem vindo a fazer para atrair e reter talento assenta em 4 grandes pilares:

Curiosidade

A organização é já conhecida pelos seus escritórios “playful”, mas tudo tem um motivo: apela à co-criação, tornando assim os colaboradores mais produtivos. Ter espaços em que se possa parar, refletir ou quebrar as rotinas é crucial.

Adicionalmente, os momentos “all hands” são momentos de partilha em que a organização transmite transparência e confiança, ao comunicar o que está a acontecer nos bastidores em termos de novidades de produtos e da visão da organização. “É o momento em que há a comunicação com os colaboradores, para que entendam a cultura da organização”, acrescenta.

Agente

A Google oferece 20% do tempo de trabalho aos colaboradores para poderem investir em si mesmos, a desenvolver novas competências ou a aperfeiçoar outras. Ao dar a possibilidade às pessoas de desenvolver o seu autoconhecimento e investir em si, serão as melhores versões de si mesmas, resultando em maior produtividade e pessoas mais fiéis à organização.

Colaboração

Um programa de mentores e coaching beneficia também os colaboradores da organização: desde o desenvolvimento das carreiras, a aconselhamento parental. A vida pessoal entra na vida profissional, atingindo assim o equilíbrio que se idealiza.

Além disso, arranjam espaços para lideranças de diferentes áreas se encontrarem em conversas informais e discutirem diferentes temas, o que promove a curiosidade e a produtividade.

Arriscar

Arriscar pode tirar qualquer pessoa da sua zona de conforto. Porém, ao abrir um espaço em que o colaborador se sinta seguro a fazê-lo é um dos fatores essenciais para promover a inovação. Só através do debate e da experimentação se pode inovar, e para tal é importante que as organizações criem um ambiente com um bom mindset e uma boa cultura que apoia os seus colaboradores.

Por Denise Calado

Arquivado em:Artigos

Sensibilização, Acessibilidade e Formação para a promoção do bem-estar nas organizações

8 Junho, 2022 by Rita Saldanha

A promoção do bem-estar dos colaboradores nas organizações é cada vez mais uma condição para que o negócio seja produtivo e bem-sucedido. Juntaram-se ao palco da Leading People – International HR Conference – “Act Now for Human Health” Mafalda Lobo Xavier, Area Manager Employer Brand da MC, e Filipa Alves Rocha, médica e Area Manager de Saúde Ocupacional da mesma organização, para partilhar a sua experiência com o podcast da Sonae MC #precisamosfalar.

Sendo uma organização que alberga 35 mil colaboradores, a comunicação e a transparência são elementos-chave para assegurar que o bem-estar físico e psicológico. Assim, o projeto iniciou-se com a criação de uma aplicação gratuita que disponibiliza diferentes funcionalidades como a meditação, exercícios de respiração, entre outros.

O projeto do podcast foi lançado e apresentado por Mafalda Xavier e Filipa Rocha com o intuito de alcançar o maior número de colaboradores: “Foi um desafio e uma prova superada com imenso sucesso: os nossos números internos assim o dizem, e os nossos colaboradores também nos fizeram chegar esse feedback.”, afirma a Manager Employer Brand.

A linguagem acessível e o tratamento de assuntos, outrora temas tabu, determinaram o sucesso do programa, garantindo que pessoas de realidades e cargos diferentes conseguiam tirar proveito dos conteúdos. “Quando falamos sobre um tema como o stress, isto diz respeito a todos nós, embora em diferentes realidades possa ter impactos diferentes. Esta foi sempre a nossa preocupação: temáticas que fossem relevantes para as nossas pessoas”, acrescenta Mafalda Xavier.

A participação do Dr. Júlio Machado Vaz, médico psiquiatra, no #precisamosfalar foi crucial para os colaboradores terem um melhor entendimento dos diferentes tipos de stress e de como geri-lo da melhor maneira. O Dr. Nuno Lobo Antunes, neuropediatra especialista em perturbações do desenvolvimento, abordou o tema da parentalidade positiva, que é uma temática comum no dia-a-dia das pessoas, e que tem impacto quer a nível pessoal, como profissional.

A questão da formação na área da saúde mental foi fundamental para sensibilizar, prevenir e intervir quando necessário. “Também a nossa comissão de lideranças e as nossas primeiras linhas quiseram iniciar a jornada connosco. Foi extraordinário o envolvimento de todos”, sublinha Filipa Rocha. A proatividade das lideranças na formação para o caminho do bem-estar na MC muda a maneira de estar na organização, que terá um impacto positivo na saúde dos colaboradores.

“Há ainda um longo caminho a percorrer para continuar a promover o bem-estar de forma profunda e estruturada, para sermos agentes de mudança”, conclui a Manager de Saúde Ocupacional.

Assista à Talk aqui.

Tenha acesso à galeria de imagens da Leading People – International HR Conference aqui.

Arquivado em:Artigos, Leadership

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