A desinformação é um fenómeno intrínseco às sociedades humanas que, desde sempre, foram permeáveis a rumores, informação fabricada e testemunhos falsos que, ao longo dos séculos, serviram os interesses de diferentes atores políticos, económicos e sociais. Ainda que a palavra tenha sido cunhada durante a Guerra Fria – Dezinformatsia designava o departamento do KGB responsável […]
A desinformação é um fenómeno intrínseco às sociedades humanas que, desde sempre, foram permeáveis a rumores, informação fabricada e testemunhos falsos que, ao longo dos séculos, serviram os interesses de diferentes atores políticos, económicos e sociais. Ainda que a palavra tenha sido cunhada durante a Guerra Fria – Dezinformatsia designava o departamento do KGB responsável por ações de propaganda baseadas em mentiras –, a sua utilização remonta às primeiras sociedades politicamente organizadas.
Sendo o ato de desinformar uma atividade milenar – a “mão invisível da História”, nas palavras de Nicholas O’Shaughnessy –, nas últimas duas décadas temos vindo a experienciar uma nova era de desinformação graças à facilidade com que esta circula online. Enquanto nos primeiros anos da world wide web a informação falsa era colocada na rede por piratas informáticos, que conseguiam inserir conteúdos em sites noticiosos, hoje existe uma grande facilidade em criar websites que se apresentam como fontes credíveis, utilizando muitas vezes endereços de url que são facilmente confundidos com sites de Meios de Comunicação reconhecidos.
Tais conteúdos são posteriormente partilhados através das plataformas sociais online, nas quais recebem milhares ou milhões de partilhas e comentários, o que acontece pelo facto de os cidadãos investirem pouco tempo a avaliar a credibilidade da informação que recebem e distribuem. Em bom rigor, uma parte substancial da audiência da desinformação é também ela falsa, na Medida em que muitas contas ativas nos media sociais são operadas por robots da internet (bots) que simulam o comportamento humano, criando a sensação de que os conteúdos estão a ser consumidos, partilhados e comentados por pessoas reais. O objetivo é levar-nos a pensar que um grande número de indivíduos está empenhados na divulgação de uma determinada informação, ainda que esse empenho venha apenas dos robots e de utilizadores que se apresentam com uma identidade falsa para disseminarem informações erradas e/ ou fomentarem o ódio (sockpuppets).
Investigações recentes mostram que as histórias falsas circulam mais rapidamente nas plataformas sociais do que outros tipos de informação porque, ao serem fabricadas, oferecem narrativas criativas e originais que inspiram medo, repulsa ou surpresa, tornando-as mais apetecíveis para a audiência. Paralelamente, ao terem acesso ao perfil psicográfico dos indivíduos, as plataformas customizam a informação que chega a cada utilizador, garantindo que estamos constantemente a ser impactados por mensagens que, em geral, reforçam as nossas convicções individuais. Assim, o ecossistema informacional contemporâneo, além de permitir que cada cidadão funcione como um propagador da desinformação, através da partilha de conteúdos cuja origem e veracidade muitas vezes desconhece, possibilita também que os indivíduos tenham um contacto reduzido com ideias contrárias às suas, o que dificulta o debate informado, pressuposto de uma sociedade democrática madura.
As relações internacionais são uma das áreas com maior tradição no uso da desinformação, com os Estados a procurarem destabilizar a opinião pública em países que consideram adversários. O investimento em propaganda e desinformação internacional atingiu o seu apogeu durante a IIª Guerra Mundial e a Guerra Fria mas, já no século XXI, temos assistido a um aumento muito expressivo das operações de propaganda através das redes online. A Rússia, por exemplo, tem levado a cabo inúmeras ações cibernéticas destinadas a destabilizar o Ocidente, o que se intensificou, de forma massiva, após a anexação da Crimeia. Tal levou a Comissão Europeia a criar, em 2015, a East StatCom Taskforce que visa contrariar as ações de propaganda levadas a cabo na Geórgia, na Ucrânia e noutros Estados situados na periferia da UE.
Ao longo da última década inúmeros ataques dirigidos a países europeus têm sido reportados, os quais visam influenciar as perceções da opinião pública sobre a política europeia. Mais recentemente, assistimos a um investimento na propagação de narrativas que procuram reescrever a História, apresentando a Crimeia como um território que historicamente sempre pertenceu à Rússia, enquanto são também disseminadas informações falsas sobre o controlo do governo ucraniano por forças neonazis e sobre a existência de laboratórios americanos de armas biológicas na Ucrânia.
Pelas suas capacidades ilimitadas de criar texto, áudio e vídeo falsos e de os disseminar em quantidades avassaladoras nas redes online, a inteligência artificial tem tudo para ser o maior aliado da desinformação. Só reconhecendo que este é um problema global, que afeta a coesão social, a estabilidade política e económica, e, no limite, a nossa capacidade de viver em sociedade, é que poderemos conseguir fazer frente a este desafio para o qual urge tomar medidas.
Infelizmente a resposta para este problema é complexa e multidimensional. Se, por um lado, a regulação tem um papel importante a desempenhar, é igualmente crucial que o sistema de ensino forneça aos estudantes instrumentos que lhes permitam evitar cair nas armadilhas da desinformação que é hoje omnipresente no sistema informacional em que todos nos encontramos mergulhados.
Torna-se premente que, a par de iniciativas regulatórias, sejam criados programas de literacia mediática que possam capacitar os cidadãos para saberem avaliar a veracidade da informação que recebem e que partilham online, o que implica que sejam capazes de distinguir as fontes credíveis das demais, devendo também conhecer as características das contas operadas por bots e sockpuppets. É também importante que cada um conheça os seus próprios desvios cognitivos, que nos levam a sermos mais facilmente enganados por alguns tipos de informação falsa.
Só cidadãos que se interroguem sobre o que leem, o que ouvem e o que veem poderão ter a capacidade de navegar o mar da desinformação contemporânea.
Este artigo faz parte do tema de capa “Human Leadership: Reset, Rebirth and Reinvent Ourselves” no dossier Educação publicado na edição de verão da revista Líder.


