“Uma pessoa com convicções é alguém difícil de mudar. Digam-lhe que discordam e vira-vos as costas. Mostrem factos e as vossas fontes serão questionadas. Apelem à lógica e o vosso ponto não será considerado”: eis a forma como começa, com uns ajustes à linguagem de hoje, um dos mais fascinantes estudos das ciências sociais, When […]
“Uma pessoa com convicções é alguém difícil de mudar. Digam-lhe que discordam e vira-vos as costas. Mostrem factos e as vossas fontes serão questionadas. Apelem à lógica e o vosso ponto não será considerado”: eis a forma como começa, com uns ajustes à linguagem de hoje, um dos mais fascinantes estudos das ciências sociais, When Prophecy Fails, de Leon Festinger com Henry Ricken e Stanley Schachter. Trata-se do estudo de um grupo moderno que previu a destruição do mundo. Naturalmente o mundo não acabou quando o grupo previra, mas as suas crenças estavam certas – para os respetivos membros, naturalmente. Ou seja, os pregadores do apocalipse estavam certos mesmo quando estavam errados.
A invasão da Ucrânia suscita as mesmas reações. As nossas crenças prevalecem sobre os factos. Hoje, aqueles que mitigam a agressão de Putin com o já famoso “mas” estão a defender as suas crenças contra os factos. E o facto é que a agressão, continuada, não começou agora e tem origem conhecida: o Kremlin. Contra este facto não há argumentos “mas” há muitas atenuantes e por isso, defendem, importa ser equilibrado com os desequilibrados.
É bom nestas alturas visitar Karl Popper e recuperar o paradoxo da tolerância: este não é momento para ser tolerante com os intolerantes. Aliás, terá sido essa tolerância complacente que nos trouxe onde chegámos. Como é evidente e voltando a Festinger e seus colegas, nada disto demoverá os crentes. É por isso que lhes deve ser dado todo o direito a dizerem o que tiverem de dizer, mesmo que aquilo que dizem não tenha ligação com a realidade. Mas importa agora defender com vigor a liberdade de os ucranianos defenderem o seu futuro sem as ameaças do Sr. Putin, o czar do terror.
PS: um argumento usado pelos que procuram compreender Putin é que praticamente só vemos argumentos e propaganda de um lado. Verdade, mas como é possível apresentar de forma independente o que se passa do lado russo? O que aconteceu ao jornalismo na Rússia? Eis outro facto contra o qual não há argumentos.
