A partida do Papa Franscisco gera, entre muitos crentes e não crentes, um sentimento de orfandade. Agora que a ausência da sua “amizade fraterna” é motivo de tristeza, importa manter presente o seu legado. Há cerca de uma década, escrevemos um livro sobre as lições de liderança que poderiam ser extraídas da ação de Francisco. […]
A partida do Papa Franscisco gera, entre muitos crentes e não crentes, um sentimento de orfandade. Agora que a ausência da sua “amizade fraterna” é motivo de tristeza, importa manter presente o seu legado. Há cerca de uma década, escrevemos um livro sobre as lições de liderança que poderiam ser extraídas da ação de Francisco. Ocorreu-nos agora revisitar esses ensinamentos. E, francamente, parece-nos que continuam atuais e válidas para a liderança das organizações e das nações. Expomos seguidamente dez dessas lições, de modo abreviado.
#1. Reflita, medite e mude-se a si mesmo. No mundo turbulento e apressado em que vivem, muitos líderes nem sempre dispõem do tempo necessário para meditarem sobre as suas vidas, a sua hierarquia de valores, e as suas decisões empresariais. Acabam, muitas vezes, levados na corrente dominante, decidindo em oposição aos seus valores – e experimentando amargura. Apesar do enorme sucesso profissional e material, sentem-se infelizes. As mudanças nas organizações podem, pois, começar pela mudança ocorrida no íntimo dos seus líderes. Para que isso suceda, é necessária paciência, reflexão e humildade.
#2. Envolva-se no mundo – e afaste-se do mundo. Francisco mergulhava no mundo, mas também escapava do mesmo. Tinha prazer no relacionamento intenso e frequente com as pessoas, e mantinha contacto direto com a realidade. Mas também apreciava o recolhimento e a solitude (não se confunda com o sentimento de solidão).
#3. O poder importa. Por muito valiosas e altruístas que sejam as pretensões dos líderes, o caminho será barrado por obstáculos diversos. Sem influência, sem capacidade para gerir o xadrez de poder, sem astúcia e resiliência política para vencer os oponentes e os obstáculos, o mais valioso empreendimento dificilmente sairá do papel ou do reino das boas intenções.
#4. “Humildade” pode coabitar com “poder”. A humildade (designadamente a capacidade de assumir erros) é uma virtude compatível com o vigor, a ambição, a perseverança e a determinação. Os melhores líderes não são apenas humildes – são também ambiciosos e determinados.
#5. Ser amável não implica ser “piegas”. Respeitar os outros e mostrar empatia não implica ser piegas, sentimentalista ou ficar refém de sentimentos. Um líder deve respeitar e fazer-se respeitar. Deve ser empático – mas também capaz de tomar decisões duras quando necessário.
#6. Os atos e os gestos simbólicos comunicam mais do que as palavras. Abraçar doentes, beijar os pés a detidos, prescindir de benesses e mordomias, interagir com membros de outras religiões, usar indumentária simples – eis gestos que comunicam mais do que simplesmente pregar as virtudes subjacentes aos mesmos. Se muitas lideranças empresariais praticassem mais gestos reveladores de empatia pelas pessoas, mais depressa se mataria a “economia que mata”.
#7. O centro é a periferia. Seria vantajoso que os líderes empresariais compreendessem que o centro das suas empresas está na periferia – designadamente, nos empregados e nos clientes. Muitos líderes encerram-se na sua bolha de poder e status, negligenciando o terreno das operações. Sucumbem à soberba.
#8. Discordar não significa excluir. Dos líderes espera-se que respeitem as diferenças – e não “matem os mensageiros das más notícias”. Que aprendem as vantagens da inclusão e da adoção de práticas de liderança que melhorem os níveis de autoestima e autoconfiança dos liderados. Infelizmente, muitos líderes estão mais orientados para criticar e apoucar – do que para elogiar e valorizar. Francisco mostrou que há outro caminho, e os estudos sugerem que esse caminho encoraja o engagement dos liderados.
#9. Os liderados devem ser tratados como adultos. Os líderes empresariais têm muito a aprender o diálogo e a abordagem sinodal adotada por Francisco. Infelizmente, a vida de algumas organizações está repleta de líderes arrogantes que tratam os liderados como crianças incapazes de pensarem pela sua própria cabeça. Quando o resultado das suas ações é perverso, apontam o dedo a bodes expiatórios.
#10. O humor e a alegria são coisas muito sérias. O humor e a boa disposição são fundamentais em qualquer líder. Ajudam a quebrar o gelo. Criam elos de aproximação com e entre os liderados. Ajudam a lidar com as adversidades. São uma fonte de energia. Conferem uma imagem de autenticidade ao líder. O humor é, enfim, uma coisa muito séria. Diferentemente, a “seriedade” pode esconder menor autenticidade.
Manter Francisco “vivo” é essencial para escapar ao enorme perigo que emana de “sermões” que diabolizam a empatia e a tomam como “suicídio civilizacional”. Se não crê na verosimilhança de um tal perigo – leia o pensamento de Musk.

