Fala-se pouco de endogamia em Portugal. Devia falar-se mais. Os casos recentes envolvendo o governo têm muito a ver com endogamia. Esta palavra, na origem biológica, refere-se à presença de consanguinidade. A endogamia, no contexto social, caracteriza a escolha do que é próximo. Substitui o mérito: mete-se uma pessoa que pode ser menos adequada mas […]
Fala-se pouco de endogamia em Portugal. Devia falar-se mais. Os casos recentes envolvendo o governo têm muito a ver com endogamia. Esta palavra, na origem biológica, refere-se à presença de consanguinidade. A endogamia, no contexto social, caracteriza a escolha do que é próximo. Substitui o mérito: mete-se uma pessoa que pode ser menos adequada mas que dá mais confiança. Prefere-se a certeza de alguém que não faz ondas e que até pode ter rabos de palha a alguém que possa ver estragar o estado de coisas, o status quo.
A endogamia prolifera no governo, nas empresas, nas universidades, nos partidos políticos, nas comunidades. Toma por vezes a forma de nepotismo: meter familiares e amigos em lugares que se consegue influenciar. Haverá casos, certamente, em que além das ligações existirá mérito. Mas mesmo esses casos devem ser geridos com cautela: não basta ser, é preciso parecer sério. Arredar a endogamia é uma forma de proteger as instituições e por inerência as próprias pessoas que a practicam – mesmo que pareça o contrário.
Enquanto tendermos a proteger “os nossos”, desprotegeremos as instituições. Para fora, passa a ideia, justa ou injusta, de que quem pode anda à procura de tachos. Essa perceção alimenta populismos e mata a democracia. Por isso, mais que falar dos perigos do populismo, importa combater de facto o populismo. Acabar com práticas endogâmicas pode ser uma boa maneira de começar.
