Expiação: a cimeira do blá-blá-blá

A COP26, cimeira da ONU cuja missão seria estabelecer metas climáticas que assegurem a subsistência da humanidade no planeta começou da pior maneira. Num grito lancinante, Guterres afirmou que estamos a “cavar a nossa própria sepultura”; no seu discurso inaugural, a rainha Isabel II recordou que quando os países se sabem unir conseguem feitos extraordinários; Joe Biden prometeu uma série de medidas que todos os anos são prometidas; Boris Johnson fez um dos seus discursos inflamados e, na rua, Greta Thunberg disse que lá dentro, os líderes só diziam “blá-blá-blá” e que, ali fora, numa manifestação é que estava a verdadeira liderança. Porém, quando perguntou o que podemos fazer, o silêncio da resposta foi esclarecedor.

O problema é que nos últimos cinco anos emitiram-se mais gases de efeito de estufa do que nos 25 anos anteriores; o problema é que o maior poluidor do planeta, a China, nem sequer enviou o seu mais alto representante e omnipresente líder Xi Jinping; o problema é que o Brasil (outro grande poluidor) não se mostra interessado em tomar medidas que revertam a situação da Amazónia (dizem que já emite mais dióxido carbono do que aquele que captura); o problema é que o próprio secretário-geral da ONU avisou que o anúncio sucessivo de medidas criava a ilusão de estarmos a resolver o problema, quando não estamos.

O clima é um dos mais caóticos sistemas que conhecemos. Isso significa que a possibilidade de fazer previsões e de estabelecer relações de causa/efeito é muito baixa. As pessoas veem por todo o lado acontecer fenómenos atmosféricos extremos, raros, e a teoria das alterações climáticas forneceu-lhes uma explicação baseada na experiência empírica e capaz de explicar a presente situação. Embora não explique outras, passadas há milhões de anos (o tempo biológico nada tem a ver com o tempo humano) é uma explicação que deve ser considerada.

Eis porque há um razoável consenso no diagnóstico.

Mas, passando à terapêutica, que podemos propor? As metas, as célebres metas que são cada vez mais necessárias, mas se tornam a cada dia que passa numa miragem. Porque para as cumprir seria necessário um sacrifício jamais visto: imaginem acabar com os combustíveis fósseis; o preço que atinge a eletricidade e o gás; a incapacidade de substituir navios e aviões por meios de transportes limpos (para não falar dos veículos particulares e camiões de transporte, onde, apesar de alguns avanços, continuamos no início do que é necessário fazer).

Imaginem um mundo sem capacidade (ou quase) de cozinhar, de se aquecer, de refrigerar. Em que a maioria da indústria teria de desaparecer ou ser totalmente reconvertida. É este o problema e não temos líderes que consigam propor algo simultaneamente eficaz, concreto e aceitável. As ideias que correm são praticáveis apenas para alguns (sim, eu tenho um carro elétrico, que aliás são automóveis com um pegada de carbono enorme), mas a maioria não os pode ter. Climatizar uma casa de forma inteligente custa uma fortuna. Todos sabem que as medidas necessárias para se cumprirem os objetivos propostos são duras, difíceis, quase impossíveis; implicariam uma revolução total dos nossos hábitos, da nossa forma de viver.

Por isso os líderes do mundo, reúnem-se e fazem uma espécie de ato de contrição para expiar pecados sabe-se lá de quem, da humanidade em geral, e não passam do blá-blá-blá. Nem eles, nem ninguém, para sermos honestos.


Por Henrique Monteiro, Jornalista e antigo Diretor do Expresso

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