O desempoderamento na era do empoderamento

Um dos grandes jornalistas da imprensa portuguesa, para mim, é Jorge Almeida Fernandes (JAF). Sempre que o leio aprendo alguma coisa porque ele me ajuda a descodificar o mundo. Fá-lo colocando-se num plano superior – intelectual e analiticamente – e fazendo aquilo que um grande jornalista deve fazer: ajudar a compreender os problemas sem partir para a análise com a postura de um ativista. Disse ele há dias a propósito do caso espanhol que a política populista, em alta, pode trazer espetáculo mas também elevada toxicidade. Falava dos populismos à direita e à esquerda.

Uma das alavancas do manual do populista é o recurso às emoções tribais. Eu, que adoro futebol, acho muito perigosa a futebolização da política. Uma das formas de emocionar as audiências passa pela defesa da necessidade de empoderar alguém. Eis um curioso resultado. Num par de dias, no jornal de JAF, o Público, encontravam-se as seguintes ideias:

  • Um colunista de esquerda dizia que a sua área é demonizada;
  • Um de direita dizia que a sua área é alvo do mesmo tratamento;
  • Uma escritora mulher dizia que está na altura de as mulheres serem vistas;
  • Um homem dizia que sendo homem e branco não lhe passa pela cabeça apresentar-se como homem e branco.

E se todos estiverem corretos? E se tanto empoderamento nos estiver a desempoderar a todos? E se esta mania de meter tudo nas caixas identitárias for um obstáculo à real criação de sociedades mais decentes? E se o “lugar da fala” acabar por se revelar um lugar de separação, silêncio e desconforto? Tudo isto me levou de volta à interrogação de um personagem do 8 ½, de Fellini: existirão mesmo pessoas com ideias tão claras que se possam dizer de direita ou de esquerda?


Por Miguel Pina e Cunha, Diretor da revista Líder

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