Persistimos em tratar a saúde como despesa, quando ela é, na verdade, um dos mais relevantes investimentos estratégicos das sociedades modernas, e talvez seja precisamente neste desalinhamento conceptual que começa grande parte do problema, porque ao reduzirmos a saúde a uma linha orçamental esquecemo-nos de que ela é a base invisível que sustenta tudo o resto, da economia à coesão social, da produtividade à própria ideia de dignidade humana.
Os dados são hoje claros e difíceis de ignorar, mas continuam, curiosamente, a ser insuficientes para alterar comportamentos, porque se escalarmos intervenções de saúde que já sabemos que funcionam, nada de futurismo, nada de inovação disruptiva, apenas o que já está validado, poderemos acrescentar até nove anos de vida saudável à população e gerar cerca de 12,5 biliões de dólares de valor económico global até 2050, e ainda assim insistimos em tratar esta evidência como se fosse apenas mais um relatório, mais uma recomendação, quando na verdade estamos perante um dos mais poderosos motores de crescimento disponíveis às sociedades contemporâneas.
E, no entanto, continuamos a investir como se a saúde fosse uma consequência e não uma causa, como se fosse o resultado final de um sistema e não a condição que o torna possível, e é aqui que o paradoxo se torna mais evidente, porque ao longo do último século conseguimos prolongar a vida como nunca antes, mas simultaneamente estamos a aumentar o número de anos vividos com doença, e em 2050 estima-se que cada pessoa viva, em média, mais de onze anos em mau estado de saúde, o que nos deixa perante uma vitória incompleta, ganhámos tempo, mas não garantimos qualidade, esticámos a vida, mas não necessariamente a vivemos melhor.
E esse desequilíbrio tem um custo, humano, claro, mas também económico, porque a perda de produtividade associada à doença, a redução da participação no mercado de trabalho e o aumento exponencial dos custos de saúde estão a criar uma pressão estrutural sobre as economias, e já não estamos a falar apenas de sistemas de saúde sobrecarregados, estamos a falar de modelos económicos fragilizados, de uma base produtiva que se vai tornando mais vulnerável, mais intermitente, mais dependente.
O que este enquadramento nos diz, com uma clareza difícil de contestar, é que investir em saúde não é apenas uma decisão ética, é uma decisão económica racional, e talvez seja precisamente isso que ainda não conseguimos integrar totalmente, porque continuamos a separar aquilo que nunca esteve separado, como se o humano e o económico fossem dimensões distintas, quando na verdade são faces da mesma realidade, e por isso não surpreende que o retorno do investimento em saúde seja dos mais elevados que podemos encontrar, podendo atingir quatro dólares por cada dólar investido, uma relação rara num contexto global onde o retorno é, tantas vezes, incerto.
Mas então, porque não está isto já a acontecer à escala necessária, porque continuamos a adiar o evidente, a resposta não é técnica, nunca foi, é estrutural e, em muitos casos, cultural, porque continuamos presos a uma lógica de curto prazo, onde os ciclos políticos e financeiros penalizam o investimento em prevenção, precisamente aquele que gera maior retorno no longo prazo, continuamos a operar em silos, onde saúde, educação, urbanismo e economia são tratados como domínios separados, quando na realidade são dimensões profundamente interdependentes, e continuamos, talvez mais do que tudo, a subestimar o poder da prevenção, como se prevenir fosse opcional e tratar inevitável.
Menos de dois por cento do investimento global em saúde é dedicado à prevenção, e este número, por si só, deveria ser suficiente para reabrir toda a discussão, porque sabemos, e a evidência é consistente, que cerca de dois terços do impacto potencial na melhoria da saúde vem precisamente de medidas preventivas, muitas delas fora do sistema de saúde tradicional, o que nos coloca perante uma inversão de lógica difícil de justificar, investimos mais onde o impacto marginal é menor e menos onde o impacto estrutural é maior, como se estivéssemos permanentemente a chegar tarde ao essencial.
Há, no entanto, uma dimensão que raramente entra na equação económica com a profundidade que merece, a saúde como condição de liberdade, porque uma população saudável não é apenas mais produtiva, é mais autónoma, mais participativa, mais capaz de construir comunidades resilientes, e isso tem implicações diretas na forma como desenhamos políticas públicas, cidades, organizações e modelos de trabalho, porque no fundo estamos a falar da capacidade de uma sociedade se sustentar a si própria sem se tornar excessivamente dependente.
E por isso, a pergunta que verdadeiramente se impõe não é quanto custa investir em saúde, essa é a pergunta errada, a pergunta certa é quanto custa não investir, porque se continuarmos na trajetória atual estaremos a construir sociedades mais longevas, mas também mais frágeis, mais dependentes, mais dispendiosas, mais desiguais, e essa não é uma inevitabilidade demográfica, é uma escolha estratégica, talvez silenciosa, mas profundamente consequente.
Talvez esteja, por isso, na altura de fazermos essa mudança de lente, de deixarmos de ver a saúde como um centro de custo e passarmos a vê-la como um motor de desenvolvimento, de deixarmos de reagir à doença e começarmos a desenhar saúde, de deixarmos de medir apenas anos de vida e começarmos a medir, com a mesma exigência, a qualidade desses anos, porque no final, e apesar de toda a sofisticação dos modelos, das métricas e dos relatórios, a questão mantém-se profundamente simples: uma economia só é forte quando as pessoas que a sustentam estão, elas próprias, verdadeiramente bem.

