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Home Entrevistas Leadership O verdadeiro perigo do Capitalismo Woke

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O verdadeiro perigo do Capitalismo Woke

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30 Dezembro, 2022 | 14 minutos de leitura

Carl Rhodes é o Diretor e Professor da Escola de Gestão da Universidade Tecnológica de Sydney. Escreveu recentemente Woke Capitalism (Bristol University Press), um livro de Gestão na fronteira com a Política. Para quem crê nas habituais narrativas sobre responsabilidade social e ativismo corporativo, o livro é (quase) um balde de água fria sobre essas […]

Carl Rhodes é o Diretor e Professor da Escola de Gestão da Universidade Tecnológica de Sydney. Escreveu recentemente Woke Capitalism (Bristol University Press), um livro de Gestão na fronteira com a Política. Para quem crê nas habituais narrativas sobre responsabilidade social e ativismo corporativo, o livro é (quase) um balde de água fria sobre essas crenças. 

Para quem acredita que são as ideias que, transpostas para a ação, mudam o mundo – o livro é um provocador compêndio de evidências sobre os objetivos instrumentais que frequentemente se escondem por trás de muitos ativismos aparentemente virtuosos e genuinamente altruístas.  

O livro é, pois, um convite à ação. Poucos leitores serão indiferentes à clareza argumentativa de Rhodes. E menos numerosos ainda serão os que manterão intactas as suas convicções sobre a bondade intrínseca versus a natureza instrumental de muitas ações ativistas empresariais. Ler esta entrevista pode ser um ponto de partida para a reflexão em torno de ideias (mais ou menos) feitas. Num mundo polarizado, discutir ideias – concordemos ou não com elas – é uma necessidade urgente. Eis uma entrevista sobre ideias.  

English version here.  

 

No seu livro Woke Capitalism defende uma terceira perspetiva, contrária às duas que prevalecem até hoje. A primeira perspetiva é a da esquerda liberal, que defende que as empresas devem genuinamente apoiar os interesses mais amplos da sociedade em vez de se focarem apenas na maximização dos interesses dos acionistas. A segunda perspetiva, a da direita, é a de que as empresas devem ser entidades puramente económicas e não devem interferir em matérias sociais ou políticas. A terceira perspetiva, a sua, é a de que o envolvimento das empresas em “políticas progressistas” prejudica a democracia e impede o progresso efetivo nessas matérias sociais ou políticas. Pode explicar-nos a sua posição?  

Obrigado. Esse é, de facto, o argumento central do meu livro. Os críticos de direita do capitalismo woke estão preocupados com a possível corrupção das empresas pelas políticas progressistas. Temem que as suas políticas reacionárias estejam em risco porque as empresas, de alguma forma, estão a ser influenciadas por agitadores de esquerda. O senador norte-americano Marco Rubio, por exemplo, proclamou o ano passado: “Em vez dos líderes patrióticos de que o capitalismo precisa, a elite empresarial norte-americana reverencia os woke, as máfias marxistas que dominam a Internet e Hollywood.”  

Esta é uma posição condescendente que apela ao sentimento populista, mas que está desligada da realidade da situação. Assume que os outrora orgulhosos capitalistas se tornaram obstinados e insignificantes na sua incapacidade de resistir aos vigaristas de esquerda que vendem coisas como o ativismo climático, o politicamente correto e políticas de identidade. Essa crítica é implausível, senão demente – acreditar que CEOs obstinados e bilionários ingénuos foram intimidados até à submissão woke por meninos, meninas e pessoas não-binárias da esquerda.  

Como diz, aqueles que apoiam o capitalismo woke defendem que as empresas devem genuinamente apoiar os interesses mais amplos da sociedade em vez de se focarem apenas nos acionistas. Mas o que tanto os apoiantes como os críticos partilham é a crença de que estamos a assistir a algo que pode ser uma genuína mudança subjacente do propósito primeiro das empresas capitalistas. A diferença é apenas se acreditamos que isso é bom ou não.  

Na minha perspetiva, o capitalismo woke não representa uma mudança fundamental do capitalismo, mas antes uma extensão do trajeto que este tem vindo a seguir desde pelo menos a década de 80 do século XX.  

Empresas que se tornam woke asseguram que o mercado capitalista pode continuar o trajeto neoliberal que percorre há 40 anos. Apesar das maquinações da direita reacionária, é preciso ter em conta os efeitos antiprogressistas tanto da retórica como das práticas do propósito social empresarial focado em partes interessadas, especialmente quando são bem-sucedidas. Enquanto o neoliberalismo inicial viu uma mudança do poder, do governo para o sector privado, numa escala global, o neoliberalismo tardio do capitalismo woke assiste a um fenómeno muito mais preocupante: uma mudança do poder político para o sector privado. Não se trata de progresso, mas de debilitar o sistema democrático de governação e o modo de vida democrático que permite que o progresso aconteça.  

Afirma que o capitalismo woke é profundamente caracterizado pelo interesse próprio, uma vez que pretende assegurar que não existe qualquer reforma fundamental do domínio neoliberal na ordem mundial, o mesmo que exacerbou a desigualdade, alimentou o populismo fascista e permanece quieto enquanto escala a crise climática. Do seu ponto de vista, qual seria a melhor forma de lidar eficientemente com estes problemas sociais, políticos e climáticos?  

Em última análise, acredito que temos de ver um compromisso renovado com a democracia e uma reposição da confiança nos governos. Não é algo fácil e muito disto se tem vindo a degradar nas mais recentes décadas. O capitalismo woke é tanto um fracasso dos governos como é um sucesso das empresas. Seja como for, precisamos de soluções públicas para problemas públicos, dentro de cada Estado e entre eles. A resposta mundial à COVID-19 é um contraponto interessante, uma vez que lidar com uma pandemia global era algo que claramente tinha de ser gerido pelos governos. Gerir a saúde pública, decidir sobre confinamentos, financiar o desenvolvimento de vacinas, apoiar quem perdeu o emprego e sustentar a economia, tudo isto requeria um governo. A motivação económica do interesse próprio que move o sector privado está totalmente em desacordo com a responsabilidade de atacar problemas públicos de grande escala.  

Não nos esqueçamos de que enquanto pequenos negócios fechavam as portas, e trabalhadores de todo o mundo sofriam nas mãos do mercado de trabalho, os grandes capitalistas passaram bem. A Oxfam apelidou-os de “lucradores da pandemia” [“pandemic profiteers”]. Por exemplo, mais de metade das maiores corporações norte-americanas viram os seus lucros aumentar durante a pandemia. O mesmo padrão se repetiu em todo o mundo. Os bilionários estiveram ainda melhor. Enquanto 99% da população mundial sofreu um impacto financeiro negativo devido à COVID, os 10 mais ricos do mundo – todos homens – duplicaram a sua fortuna. Isto é woke? Quando muito, o capitalismo woke reforça uma elite dominante autossatisfeita que acredita que a sua riqueza é merecida. O capitalismo woke permite que alguém seja extremamente rico à custa de outros e, ainda assim, se sinta bem consigo próprio.  

Podemos discutir como alguns governos estiveram melhor do que outros no combate à pandemia, mas dificilmente vamos pôr em causa que essa era uma responsabilidade dos governos. Há aqui importantes lições sobre o papel e a função do governo nas questões de interesse público das quais não nos devemos esquecer. As empresas são criadas por atos de lei e são e devem ser posicionadas como subordinadas à sociedade que lhes atribui essa licença. Temo que tenhamos virado o mundo ao contrário e as empresas estejam cada vez mais no comando. Sobre a pergunta, lidar com os problemas do mundo requer, fundamentalmente, reestabelecer um sistema, e um conjunto de crenças, que vê o negócio como secundário em relação à vontade das pessoas e dos seus representantes políticos. O negócio tem o seu papel, claro, mas esse papel não é o de comandante. É fundamental para a democracia que separemos os interesses privados dos interesses públicos.  

O que sugere que seja feito, a nível político e institucional, para tentar impedir que poderosas corporações se apoderem do processo político e democrático para servir os seus próprios interesses à custa da sociedade e dos cidadãos?  

Não há respostas gritantes nem soluções fáceis para este problema, especialmente se tivermos em conta que foram precisas décadas de mudança nas estruturas económicas de poder globais para chegarmos a este imbróglio. O capitalismo woke é um fenómeno relativamente novo, mas é uma continuação de um enredo muito mais longo que viu a ascensão das corporações como a mais poderosa forma de instituição no mundo. Um ressurgimento na crença da democracia é essencial. Mas esta mudança será geracional e não o resultado de uma única ideia ou política. Honestamente, acredito que a nova geração de jovens que está a acabar a escola agora, em alguns casos a entrar na universidade e a começar as suas carreiras, mostra sinais de uma renovada consciência política e desejo de mudança. A geração pós-Greta Thunberg vê as coisas de maneira diferente e tem o potencial de exigir e ordenar mudanças reais. Acredito que saberão lidar com os problemas que a minha geração ou criou ou ignorou.  

Pode dar-nos alguns exemplos de corporações que usaram causas progressistas para simular que estavam a seguir interesses coletivos quando, na verdade, estavam a seguir os seus próprios interesses?  

Há muito exemplos, pensemos no apoio da Nike ao movimento Black Lives Matter, na defesa do movimento #MeToo pela Gillette ou nas inúmeras empresas que começaram a interessar-se pelas políticas climáticas. Estes são exemplos em que as empresas apoiaram movimentos sociais e políticos existentes, fazendo-o de um modo que se alia ou promove o seu próprio sucesso comercial. Mas lembremo-nos de que as corporações não são os líderes. São os verdadeiros ativistas que correram riscos reais, muitas vezes arriscando as suas vidas, a invocar mudanças e progressos reais. As corporações juntam-se depois de estar feito o duro trabalho político e fazem-no de uma forma que os beneficia. São seguidores com interesses próprios, ou amplificadores, na melhor das hipóteses.  

Outro problema prende-se com o facto de que o interesse próprio comercial será sempre um fator de decisão principal no mundo corporativo, o tipo de questões progressistas que são apoiadas é muito limitado. A desigualdade económica, estratificada em torno do género, de questões raciais ou geopolíticas é um dos maiores problemas do mundo e está a piorar. Não vemos empresas woke a tomar posições ativas que se dirijam aos enormes benefícios fiscais das corporações, à distribuição de rendimentos e fortunas, à implementação de escalões fiscais progressivos, ou a acabar de vez com as escandalosas remunerações dos executivos. Basicamente, falar de desigualdade económica, talvez o tema mais central para a política progressista de hoje, está completamente fora da agenda política das corporações woke. Uma regra fundamental do capitalismo woke é que políticas que alterem a base da pirâmide corporativa devem ser evitadas a qualquer custo. Isso não é democracia, é uma expansão do poder do capitalismo para a esfera pública.  

É possível distinguir os casos em que corporações estejam genuinamente a apoiar uma causa social ou política por motivos virtuosos dos casos em que o apoio a causas progressistas seja só uma demonstração de hipocrisia? É possível que os cidadãos, consumidores, atores políticos e instituições possam estar mais atentos a essa distinção e assim adotar uma posição protetora, interrogativa e desconfiada? Se sim, como?  

É possível. Pensemos, por exemplo, em Yvon Chouinard, dono da empresa de roupa Patagonia, que há uns meses transferiu 98% das ações da empresa para uma recentemente criada organização sem fins lucrativos dedicada a combater a crise climática. “A Terra é agora o nosso único acionista”, disse ele. O resultado disto é que se estima que, por ano, cerca de 100 milhões de dólares irão para a filantropia climática. Não há motivo para duvidar de que este é um ato genuíno de Chouinard. Mas depois temos o relatório publicado durante a mais recente COP27 que diz que para atingirmos as metas do Acordo de Paris precisamos de 1 trilião de dólares por ano. Os 100 milhões anuais da Patagónia não farão grande diferença.  

Os argumentos que apresenta no livro são muito convincentes e suporta-os com várias evidências. Tem conhecimento de Escolas de Administração de Negócios nas quais este tópico esteja a ser discutido e estudado? Tem tido a oportunidade de o discutir nas suas aulas? Ou acha que este tema está fora de moda e que muitas narrativas corporativas são construídas de modo tão persuasivo que estamos quase todos cegos para o perigo das implicações do capitalismo woke?  

O livro tem recebido muito interesse de colegas de Escolas de Administração de Negócios de todo o mundo, como também de pessoas que trabalham na área. Desde o seu lançamento, tive a oportunidade de participar em inúmeras palestras em Escolas de Administração de Negócios na Europa, nos Estados Unidos e aqui na Austrália. Em todas as ocasiões, achei os alunos inquisitivos, interrogativos e interessados nas questões que tenho levantado. Também sei de colegas que usaram ideias explícitas do livro nas suas aulas de vários campos, de Administração a Marketing até à Economia. Dito isto, temos de aceitar que as escolas de Administração de Negócios têm sido parte do problema e que temos de mudar e ser parte da solução. Fomos durante demasiado tempo apoiantes da primazia do acionista global, alimentando uma ideologia que resultou numa nova era de desigualdade económica, populismo político e desastre climático. Temos de encarar estes temas com seriedade se queremos educar uma nova geração de pessoas que nos possam liderar num caminho para ultrapassar estes problemas. A crença ingénua de que o leopardo corporativo mudou as pintas e é agora inequivocamente uma força do Bem é perigosa. Como escolas de Administração de Negócios acredito que temos de focar a nossa principal atenção para como a educação e a investigação podem suportar a prosperidade partilhada e o valor público. Essa é a tarefa que nos espera, mas será um longo caminho até que o consigamos alcançar.  

Do seu ponto de vista é ou não aceitável, ou até desejável, que CEOs apoiem genuinamente causas progressistas? Há perigos para a democracia também nesses casos? Porquê?  

Os CEOs, além de serem trabalhadores corporativos extremamente bem pagos, também são cidadãos, portanto, têm também o direito de defender as suas posições políticas. Mas isso não significa que não seja perigoso para a democracia quando os CEOs começam a meter-se na política. Quando vamos além dos títulos clicáveis que tantas vezes determinam o debate sobre o capitalismo woke, tanto os de direita como os de esquerda poderão concordar que o capitalismo woke representa um perigo real e presente. Não interessa se és um apoiante do mercado livre sem restrições ou não. O que realmente importa é se genuinamente acreditas no sistema democrático que nos permite, logo à partida, desenvolver e dar voz a diferentes posições políticas.  

O verdadeiro perigo é que o capitalismo woke quebra a fundamental distinção democrática entre as esferas pública e privada. Já houve um tempo em que a democracia precisou da separação entre Igreja e Estado para permitir a liberdade religiosa. A preservação da democracia, hoje, prende-se com a separação entre o Estado e as corporações para permitir liberdade política, caso contrário voltaremos a formas de feudalismo e plutocracia que as revoluções democráticas enfrentaram no século XVIII. 

 

Este artigo foi publicado na edição de inverno da revista Líder 

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Arménio Rego,
LEAD.Lab, Católica Porto Business School

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