Múltiplas vozes têm apelado a Joe Biden para que abandone a corrida presidencial. Não é a primeira vez que se teme pelas suas alegadas falhas cognitivas e dificuldades em fazer jus à agenda híper exigente do líder de um dos países mais poderosos do planeta. Se Biden padece, ou não, de dificuldades cognitivas é matéria […]
Múltiplas vozes têm apelado a Joe Biden para que abandone a corrida presidencial. Não é a primeira vez que se teme pelas suas alegadas falhas cognitivas e dificuldades em fazer jus à agenda híper exigente do líder de um dos países mais poderosos do planeta. Se Biden padece, ou não, de dificuldades cognitivas é matéria controversa. Há poucos meses, um procurador descreveu-o como “homem idoso com fraca memória”. Um neurocientista da Universidade da Califórnia reagiu indignado. Argumentou que falhas de memória são normais, e que Biden mantém intactas as capacidades cognitivas necessárias para exercer a presidência. Nomeou pessoas com a idade de Biden, ou até mais velhas, que continuam no exercício pleno da sua atividade: Harrison Ford, Martin Scorsese, Paul McCartney, Jane Fonda, e Warren Buffet. E acrescentou:
«A perceção pública do estado cognitivo de uma pessoa é frequentemente determinada por fatores superficiais, tais como a presença física, a confiança, e a fluência verbal. Mas esses não são necessariamente relevantes para tomar decisões consequentes acerca do destino deste país. A memória é certamente relevante, mas outras caraterísticas, como o conhecimento de factos relevantes e a capacidade de regular emoções – que são relativamente estáveis e podem mesmo melhorar com a idade – têm provavelmente igual ou mesmo maior importância.»
Este é, pois, um domínio escorregadio, repleto de estereótipos e preconceitos idadistas. Mas, quaisquer que sejam as reais capacidades cognitivas de Biden, os receios parecem-me legítimos e pertinentes. Há riscos sérios de que o perfil de Biden facilite a vitória de Trump – um demagogo especialmente perigoso porque envolto numa narrativa messiânica que o toma como enviado de Deus. Um investigador escreveu recentemente numa revista académica que Trump e o movimento por ele corporizado são uma ameaça para a democracia no mundo. E acrescentou que é tempo de descrever o Trumpismo como uma forma de fascismo. Eis, pois, a questão: perante os riscos, porque não toma Biden a decisão de conceder o lugar a outro candidato? Identifico pelo menos três razões:
- A determinação de Biden perante a adversidade, na sua vida pessoal e na política, tem sido um trunfo essencial. É compreensível que, nestes perigosos dias, acredite que essa perseverança replicará o sucesso. Este é um quadro mental que encontramos noutras lideranças políticas e empresariais. Mas, como a história bem mostra, pode resultar numa saída pela porta baixa. Que eu me engane.
- O avultado “investimento”, de longa-data, que Biden, a sua equipa e o partido têm devotado à candidatura diminui as probabilidades de desistência. O fenómeno, designado “escalada de comprometimento”, ocorre frequentemente na vida política e na empresarial. Quanto maior e mais demorado o envolvimento numa guerra, numa opção política, ou numa empreitada empresarial, maior é a tendência para … manter o “investimento”, mesmo que os resultados estejam a ser frustrantes. O receio de perder a face e ser alvo de humilhação pública também nutre a persistência.
- A evidência sugere que uma quantidade significativa de pessoas que têm apreciado e apoiado Biden sente-se emocionalmente (ou mesmo moralmente) incapaz de lhe dizer a verdade. O desejo de harmonia e o respeito carismático por Biden prevalecem sobre a franqueza. O fenómeno é conhecido: o exercício bem-sucedido e prolongado do poder está frequentemente associado à incapacidade dos seguidores de comunicarem a verdade ao poderoso. A forma perentória como Biden tem reagido aos pedidos de desistência reforça essa tendência – deixando pouco espaço para que lhe comuniquem o que realmente pensam.
É impossível antecipar as consequências da persistência de Biden. A sua determinação pode arregimentar apoios, remover medos e conduzir à vitória. Mas também pode ser trágica. Perante o risco, talvez Biden devesse ponderar. Eis o que Adam Grant, prestigiado académico da Wharton School, sugeriu que se dissesse a Biden para que ele ponderasse:
«Presidente Biden (…) preocupa-me que as pessoas estejam a dizer-lhe o que deseja ouvir, não o que precisa de ouvir. Sabemos as coisas boas que poderiam acontecer se o senhor se candidatasse e vencesse, mas também precisamos de discutir as coisas boas que poderiam acontecer se não se recandidatasse. Poderia ser saudado como um herói, como George Washington, por decidir não se recandidatar. Independentemente do resultado, o senhor poderia fazer história (…) em prol da próxima geração. Pessoalmente, não sei se essa é a decisão certa. Apenas quero ter a certeza de que ela recebe, de si, a devida consideração. O senhor estaria disposto a realizar uma reunião para ouvir opiniões divergentes da sua?»
Não sabemos o que vai na mente de Biden. Mas sei que mensagem é útil para todo o tipo de lideranças.
P.S. A tentativa de assassinato de Trump, bárbara, é uma tragédia multifacetada. Alimenta o extremismo. Reforça a narrativa messiânica em torno do candidato. Reitera o lado escuro da vida social e da política. Ajuda a compreender que no seio de cada de um de nós, humanos, vive um anjo e um mafarrico. Um ou outro podem ser despertados pelas circunstâncias e contextos. Essa é uma razão essencial para combater discursos de ódio.

