Portugal continua a figurar nas listas europeias de países mais seguros, com melhor clima e qualidade de vida. Lisboa, Porto ou Braga surgem recorrentemente em rankings internacionais como destinos desejáveis para viver e trabalhar. Ainda assim, por detrás desta imagem atrativa, o mercado de trabalho português vive uma contradição estrutural: há falta de trabalhadores em setores chave, mas o país continua a empurrar os seus jovens mais qualificados.
De acordo com dados compilados por agências de recrutamento nacionais e internacionais, várias profissões estão oficialmente classificadas como shortage occupations — áreas onde a procura supera claramente a oferta. O fenómeno não é novo, mas ganha nova urgência em 2026, num contexto marcado pelo envelhecimento da população, pela imigração crescente e pela transformação tecnológica do trabalho.
Um mercado de trabalho desequilibrado
Portugal tem hoje mais de 10 milhões de habitantes, dos quais cerca de 4% são imigrantes. A maioria chega por razões laborais, superando os fluxos associados ao estudo ou à reunificação familiar. Ainda assim, o mercado de trabalho nacional continua longe de ser competitivo quando comparado com outros países da União Europeia.
A taxa de desemprego global tem vindo a descer, situando-se entre os 5% e os 6%, mas entre os jovens ultrapassa os 20%. O resultado é conhecido: licenciados formados em universidades portuguesas continuam a emigrar, sobretudo para países do Norte da Europa, em busca de salários mais elevados e progressão profissional.
Ao mesmo tempo, Portugal enfrenta dificuldades em atrair e reter trabalhadores estrangeiros qualificados, num sistema que continua a privilegiar cidadãos nacionais e europeus no acesso ao emprego, tornando o processo burocrático lento e pouco apelativo.
Salários baixos, impostos altos, escolhas difíceis
Os números ajudam a perceber o dilema. O salário mínimo nacional é de 870 euros mensais (com 14 pagamentos) ou 1.015 euros em regime de 12 meses. O salário médio bruto ronda os 1.294 euros, mas após impostos e contribuições desce para cerca de 930 euros líquidos.
Com uma carga fiscal progressiva que pode atingir os 48%, o trabalho em Portugal torna-se pouco competitivo para muitos perfis especializados — sobretudo quando comparado com países que enfrentam desafios semelhantes, mas oferecem melhores condições económicas.
Este contexto explica porque razão o país precisa de trabalhadores, mas não consegue competir por talento.
Onde faltam pessoas
Segundo dados recolhidos por agências de recrutamento, as profissões com maior escassez em Portugal em 2026 concentram-se em três grandes áreas: saúde, tecnologia e serviços essenciais.
No topo da lista surgem médicos e enfermeiros, num sistema de saúde pressionado pelo envelhecimento da população e pela saída contínua de profissionais para o estrangeiro. Seguem-se trabalhadores da hotelaria e restauração — um setor vital para a economia nacional, mas marcado por precariedade e elevada rotatividade.
A tecnologia surge como outro ponto crítico. Programadores, engenheiros e especialistas em telecomunicações continuam a ser procurados, num país que ambiciona posicionar-se como hub digital, mas que enfrenta forte concorrência internacional.
A lista de profissões em escassez inclui ainda:
Professores e intérpretes
Operadores de call center
Trabalhadores agrícolas
Profissionais da construção civil (em áreas específicas)
Advogados
Paradoxalmente, muitos imigrantes qualificados acabam por ocupar funções abaixo das suas competências, enquanto setores estratégicos continuam com vagas por preencher.
O lado invisível da imigração laboral
A imigração tem sido, nos últimos anos, o principal motor do crescimento do emprego em Portugal. Trabalhadores estrangeiros sustentam setores como agricultura, turismo, cuidados a idosos e limpeza urbana — áreas fundamentais para o funcionamento do país, mas pouco valorizadas socialmente.
Mulheres oriundas de países da antiga União Soviética trabalham frequentemente como cuidadoras ou empregadas domésticas; homens ocupam maioritariamente postos na construção civil e na agricultura. Trata-se de uma força de trabalho essencial, mas muitas vezes invisível, com baixos salários e fraca proteção laboral.
Ao mesmo tempo, profissões em declínio — como a indústria têxtil, o setor mineiro ou algumas especialidades da construção — continuam a perder relevância, sem que haja uma estratégia clara de reconversão profissional.
Um futuro por decidir
Portugal enfrenta hoje uma escolha estrutural: continuar a depender de mão de obra barata e rotativa ou investir num modelo de trabalho mais humano, qualificado e sustentável. A resposta passa por salários mais competitivos, processos migratórios mais eficientes e uma política ativa de integração e valorização do talento.
O desafio está menos na falta de pessoas e mais na forma como o trabalho é organizado, valorizado e integrado numa economia em transformação.


