Estima-se que existam cerca de 476 milhões de indígenas no mundo, espalhados por 90 países ao redor do mundo, comunidades que permanecem à margem das sociedades, mas que têm um papel primordial na preservação dos ecossistemas. Porém, estes guardiães da natureza e a sua cultura estão a desvanecer-se: estima-se que 40% das línguas indígenas do mundo estejam […]
Estima-se que existam cerca de 476 milhões de indígenas no mundo, espalhados por 90 países ao redor do mundo, comunidades que permanecem à margem das sociedades, mas que têm um papel primordial na preservação dos ecossistemas. Porém, estes guardiães da natureza e a sua cultura estão a desvanecer-se: estima-se que 40% das línguas indígenas do mundo estejam em risco de extinção e menos de 2% têm presença na Internet.
A inteligência artificial (IA) generativa pode ser uma ferramenta poderosa para preservar, partilhar e revitalizar estas tradições culturais e idiomáticas. Esta tecnologia representa uma grande oportunidade para reduzir o isolamento digital das comunidades indígenas e dar maior visibilidade aos seus povos e culturas, reduzindo lacunas decorrentes do analfabetismo ou do monolinguismo em zonas isoladas.
Esta é uma das principais conclusões do relatório ‘O desempenho da inteligência artificial no uso de línguas indígenas americanas’, elaborado pela LLYC em colaboração com o BID Lab e a Microsoft.
A publicação evidencia a situação atual e propõe uma série de recomendações práticas orientadas para fomentar uma inteligência artificial mais inclusiva e culturalmente representativa. O Dia Internacional dos Povos Indígenas do Mundo assinala-se amanhã, dia nove de agosto.
Partilhar, divulgar e ajudar: como dar apoio sem um olhar ocidentalizado?
Para aumentar a integração de línguas indígenas no ecossistema digital, o documento propõe 21 estratégias centradas tanto no aumento dos dados disponíveis nestas línguas como no desenvolvimento de tecnologias facilitadoras. Algumas das línguas incluídas no estudo são a quechua, guaraní ou aimara. O catalão e o basco também estão incluídos.
Fomentar, em colaboração com as comunidades indicadas, a conversação digital em línguas indígenas, dar visibilidade aos seus influencers, proteger plataformas e arquivos digitais de tradições, e desenvolver tecnologias de tradução e voz são algumas das mais destacadas. Estas estratégias ajudariam a treinar os modelos de IA de forma a melhorar o seu desempenho nestas línguas.
No entanto, para que as comunidades indígenas possam beneficiar plenamente das possibilidades de desenvolvimento e emprego que a IA oferece, é fundamental melhorar a eficácia na interação nas suas línguas originárias. Caso contrário, existe o risco de aumentar as lacunas digitais e sociais.
A tradução automática através desta tecnologia pode ajudar a aliviar outro tipo de problemas, tais como o acesso a cuidados de saúde para as comunidades indígenas. Nas comunidades quechua, que têm uma mortalidade infantil de 44 por 1000 nascidos vivos, e nas comunidades guarani, com 16,9 mortes por 1000 habitantes, a telemedicina com IA permitiria cuidados mais rápidos e eficazes, melhorando a saúde sem necessidade de deslocações.
Essencialmente, a inclusão dos povos indígenas através da quebra das barreiras de língua poderá trazê-los para o seio das decisões, incluindo-os em todos os setores.
Em que ponto estamos?
Atualmente, os modelos mais conhecidos de IA generativa mostram um desempenho desigual ao interagir em línguas indígenas. Só em 54% dos casos é que as perguntas formuladas nestes idiomas recebem respostas aparentemente corretas, que podem ser até quatro vezes mais curtas do que as geradas em espanhol para perguntas equivalentes e com uma qualidade inferior em expressão (2,4 em 10) e compreensão (2,3 em 10).
Além disso, o relatório também deteta um elevado viés cultural nos sistemas de inteligência artificial, que tendem a oferecer respostas que se inclinam para referências ocidentais, inclusive quando se formulam perguntas em línguas indígenas.
O relatório destaca a importância da colaboração entre programas governamentais, iniciativas de grandes empresas tecnológicas (Big Tech), ONG e marcas de consumo para promover melhorias no rendimento da IA em línguas indígenas. Além disso, confirma-se uma elevada correlação (91%) entre o volume de conteúdo digital disponível numa língua e a qualidade da IA nesse idioma. Para que nenhuma população fique para trás na transição digital, ninguém pode ser esquecido.
«Para que a inteligência artificial seja verdadeiramente inclusiva a nível global, deve compreender e adaptar-se aos diferentes contextos linguísticos e culturais. Este estudo representa um ponto de partida fundamental para avançar na representação das línguas indígenas nas tecnologias do futuro», afirma Adolfo Corujo, Partner & Marketing Solutions CEO da LLYC.


