No seu mais recente livro, Liberalism and its discontents (Profile Books, 2022), Francis Fukuyama, recorda uma entrevista de Vladimir Putin ao Financial Times em 2019, na qual o ditador de extrema-direita que comanda a Rússia declarava o liberalismo obsoleto. Quem alinha pelo mesmo diapasão é Viktor Orban, que assumiu o projeto de criar uma democracia […]
No seu mais recente livro, Liberalism and its discontents (Profile Books, 2022), Francis Fukuyama, recorda uma entrevista de Vladimir Putin ao Financial Times em 2019, na qual o ditador de extrema-direita que comanda a Rússia declarava o liberalismo obsoleto. Quem alinha pelo mesmo diapasão é Viktor Orban, que assumiu o projeto de criar uma democracia iliberal no seu país. Nesta era de strong men, a expressão de força parece tornar-se mais importante que a proteção das instituições que permitiram a emergência da democracia liberal e das liberdades individuais.
As instituições do liberalismo ocidental incluem o primado da lei, o direito de propriedade e a liberdade de transação, acompanhadas pela participação política através do voto. Protegem a liberdade de cada um e permitem interpretações mais à direita e mais à esquerda. Trouxeram-nos onde estamos e constituem o coração das democracias ocidentais. Nos últimos anos, lembra Fukuyama, os valores da democracia liberal têm estado sob ataque: à direita por parte de uma visão desregulada do mercado conhecida como neoliberalismo, que resulta da polarização quasi-darwinista da sociedade; à esquerda os iliberais defendem a prevalência das identidades de grupo acima das liberdades individuais, por via das chamadas políticas identitárias.
Eis a mensagem de Fukuyama: duas ideias com uma base verdadeira são puxadas para os extremos, tornando-se perigosas. Uns querem Estado a menos, o que potencia a desigualdade e culmina na chamada economia de casino e numa visão libertária do mundo; outros desejam Estado a mais para proteger certos grupos à custa de outros, de modo a endireitar rapidamente os males do mundo. Eis que a velha máxima aristotélica se deve voltar a aplicar: no meio está a virtude. Este meio termo elevado tem sido o alvo favorito dos extremos. Reencontrar o meio-termo elevado significa a busca de consensos entre os democratas à esquerda e à direita sobre os valores que todos prezamos. Enquanto prosseguirmos o caminho polarizador continuaremos a desproteger a democracia como sistema de equilíbrios dinâmicos. Se os aliados de Putin e Orban estiverem certos, ficaremos todos em sarilhos.
PS1: em Portugal são várias as vozes que, dizendo-se a favor da paz, continuam a ter dúvidas sobre quem começou a guerra.
PS2: alguma mente pragmática lá para os lados do Kremlin, achou que a eliminação de “evidências” com o uso de crematórios móveis resolveria problemas políticos. O que a essa mente terá faltado considerar é o significado simbólico do uso de crematórios como arma de guerra.
PS3: um depósito de combustível foi destruído do lado russo da fronteira. Os agredidos queixaram-se: esse ato hostil não criava um clima favorável às negociações. Desde o princípio, mas principalmente depois de Bucha, lê-se e não se acredita.
