Radares

Encontro na imprensa duas notícias que metem radares. Numa somos informados de que a CML vai investir 2 milhões na aquisição de 41 radares. Trata-se de facto de um investimento porque o dinheiro será recuperado com as multas que os ditos radares irão gerar. Noutra é-nos dito ser pelos vistos hábito adquirido por alguns dos membros do nosso governo a circulação em excesso de velocidade.

Como é evidente, temos aqui um problema. Ou melhor, vários problemas. Em primeiro lugar, a única razão aceitável para a instalação de radares é a segurança rodoviária. Usar os radares como fonte de receita levanta questões do foro ético. Por outro lado, se a intenção é moderar os ímpetos aceleradores dos condutores, o exemplo deve começar naqueles que encomendam os radares. Em terceiro lugar, a crítica não é a este governo em particular: ficamos sistematicamente com a ideia de que os poderosos levitam acima da lei.

O processo foi explicado por Dacher Keltner no extraordinário livro O paradoxo do Poder (Temas e Debates). Aí o autor explica que o poder sobe mesmo à cabeça: os poderosos ganham uma capacidade de se acharem acima dos outros e de coisas menores como as obrigações e as regras. Enquanto assim for desprestigiam-se os próprios e as instituições que eles deveriam reforçar. É com estas coisas pequenas que começam alguns grandes sarilhos.

 


Por Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder

 

 

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