«Se quiseres fazer Pitócles rico, não aumentes as suas riquezas, mas reduz o seu desejo», recomendava Epicuro, há mais de vinte séculos, a todos os discípulos que frequentavam o seu Jardim. Alguns séculos mais tarde, Séneca lembrava o mesmo princípio, sob uma outra forma: «Não é pobre quem tem pouco, mas sim quem mais deseja». […]
«Se quiseres fazer Pitócles rico, não aumentes as suas riquezas, mas reduz o seu desejo», recomendava Epicuro, há mais de vinte séculos, a todos os discípulos que frequentavam o seu Jardim. Alguns séculos mais tarde, Séneca lembrava o mesmo princípio, sob uma outra forma: «Não é pobre quem tem pouco, mas sim quem mais deseja». Apesar das profundas divergências entre estoicos e epicuristas, ambos convergiam na identificação do desejo desmedido como uma das principais causas de sofrimento e infelicidade: para ambas as escolas, é o excesso, e não a carência, a verdadeira fonte da miséria humana.
Ontem como hoje, os seres humanos tendem a afastar-se das suas necessidades naturais e a tentar suprir o vazio com bens, tarefas, planos, objetivos e projetos, sem um fim particular em vista. Vivemos numa espiral de desejo que se autorrenova continuamente, em que cada gratificação momentânea dá origem a nova carência, nunca se atingindo uma satisfação permanente ou sequer duradoura. Confundimos a multiplicidade de opções com liberdade, e a velocidade em que vivemos com progresso civilizacional. Paradoxalmente, porém, quanto mais acumulamos mais nos aprisionamos, e quanto mais vorazmente vivemos, mais perdemos o único tempo que realmente possuímos: o presente.
Não é, pois, por acaso, que todas as grandes escolas filosóficas da Antiguidade identificavam a liberdade com o desapego e a vida feliz com a simplicidade. Para todas elas, a felicidade consiste não em possuir mais, mas em desejar menos; não em acumular bens materiais, mas em controlar o desejo; não em procurar múltiplas vias de satisfação fugaz, mas em racionalizar a procura daquilo que nos satisfaz de forma permanente. E aquilo que nos satisfaz de forma permanente não se encontra no mundo exterior, mas numa disposição interior. A felicidade, ensina a sabedoria antiga, não reside nas coisas, mas na relação que estabelecemos com elas e no valor que lhes atribuímos no contexto global das nossas vidas.
«A arte de simplificar da sabedoria antiga é uma arte de clarificação e depuração mental: uma prática de exame e transformação dos juízos, de controlo do desejo e das “paixões da alma”.»
A Arte de Simplificar
A arte de simplificar da sabedoria antiga é, assim, sobretudo, uma arte de clarificação e depuração mental: uma prática de exame e transformação dos juízos, de controlo do desejo e das “paixões da alma”, de atenção ao momento presente e de renúncia a todas as fontes de perturbação e ansiedade que não dependem de nós. Muitos destes objetivos eram alcançados através daquilo a que Pierre Hadot chamou “exercícios espirituais”, isto é, operações que os indivíduos concretizavam sobre si mesmos — incluindo práticas de leitura e de escrita, técnicas de memorização, meditação, exames de consciência, exercícios de imaginação, treinos para a morte e a adversidade, entre outros — com o objetivo de produzirem em si mesmos a transformação interior necessária para o alcance de uma vida plena, completa, feliz.
É curioso que nas últimas décadas se tenha verificado um interesse e apropriação crescentes de alguns ensinamentos e exercícios da filosofia antiga, tanto no meio empresarial, quanto na vida quotidiana. No mundo corporativo, o estoicismo é frequentemente inspiração para programas de “liderança resiliente”, treinos de “inteligência emocional” e promoção de bem-estar laboral, enquanto o epicurismo está na base de vários princípios de simplificação organizacional e minimalismo produtivo. A nível individual, é particularmente notável a proliferação de livros de autoajuda de inspiração filosófica, bem como de organizações dedicadas à prática contemporânea de exercícios espirituais antigos, como a meditação, a delimitação de prioridades, os movimentos de minimalismo material e digital, ou as práticas de gratidão e valorização do presente.
Por mais promissora que pareça esta tentativa de recuperação da sabedoria antiga, a sua aplicação é, frequentemente, mais uma perversão do que uma apropriação dos seus ensinamentos originais. Se no mercado do trabalho alguns princípios basilares da filosofia antiga são colocados ao serviço da eficiência, da resiliência e da produtividade, ao nível individual ela é reduzida a um conjunto de slogans motivacionais e convertida em mais um objeto de consumo na já saturada indústria da felicidade e do desenvolvimento pessoal. Colocada ao serviço do mercado e utilizada como ferramenta de otimização do desempenho e aumento da produtividade, a sabedoria antiga é, ela própria, instrumentalizada para servir uma finalidade justamente oposta àquele que fora o seu desígnio original.
Com efeito, os antigos sabiam que não há verdadeira libertação, reflexão ou desenvolvimento espiritual sem ócio, bem cada vez mais raro nas sociedades atuais. Numa era marcada pela positividade, a competição e a produtividade, onde o tempo livre desapareceu, também ele colonizado pela lógica da produção, regressar a uma verdadeira arte de simplificar implicaria a coragem de enfrentar o vazio, o silêncio, a falta de ocupação, de recusar os múltiplos estímulos e incentivos ao consumo, de renunciar ao supérfluo para cultivar o essencial, de contrariar a tirania da utilidade, de recusar o ritmo acelerado e a dispersão e exigir o tempo necessário para pensar e viver devagar. Simplificar, neste contexto, não seria apenas um regresso à mais elementar forma de sabedoria prática, mas também um ato ético e político de resistência, uma afirmação de liberdade, autonomia e singularidade.
Este artigo foi publicado na edição nº 32 da revista Líder, cujo tema é ‘Simplificar’. Subscreva a Revista Líder aqui.

