No meio da correria diária que muitos de nós enfrentamos, o silêncio revela-se como uma promessa de paz, um refúgio das tensões quotidianas e uma oportunidade de reconexão consigo mesmo. Fundamental na tradição budista, o silêncio manifesta-se através da prática meditativa diária ou em retiros, mais curtos ou prolongados. Antes mesmo de alcançar a iluminação […]
No meio da correria diária que muitos de nós enfrentamos, o silêncio revela-se como uma promessa de paz, um refúgio das tensões quotidianas e uma oportunidade de reconexão consigo mesmo. Fundamental na tradição budista, o silêncio manifesta-se através da prática meditativa diária ou em retiros, mais curtos ou prolongados.
Antes mesmo de alcançar a iluminação sob uma figueira em Bodhgaya, Siddhartha meditou sob outra árvore por seis longos anos. Seguindo uma disciplina austera, ingeria apenas algumas gotas de água e grãos de arroz por dia, deixou de se lavar e de cortar o cabelo e as unhas. Naturalmente, a sua pele ficou emaciada e o seu corpo fraco. No entanto, após anos nesse caminho extremo, percebeu tratar-se de uma armadilha tão perigosa quanto a vida de luxo que, tendo nascido príncipe numa família real, poderosa e abastada, levara até decidir abandonar o palácio em Kapilavasthu.
Na história da tradição budista, diz-se que o verdadeiro retiro só termina quando voltamos às nossas rotinas. A verdadeira aprendizagem começa ao retornarmos ao mundo exterior e à nossa vida habitual. O retiro é visto como um contexto favorável, mas temporário. Assim, nesta tradição, a prática espiritual está intrinsecamente ligada à interação com o mundo.
A palavra meditação traduz imprecisamente o termo sânscrito bhavana, que significa cultura ou desenvolvimento, referindo-se assim à cultura da mente ou ao desenvolvimento da mente. A prática da meditação permite acalmar o turbilhão da nossa mente saltitante, a falta de controlo sobre os nossos próprios pensamentos.
No shamata (permanecer na paz), uma técnica de meditação anterior ao próprio Buda, procuramos desenvolver a concentração da mente; a mente permanece focada no objeto de concentração (por exemplo, a respiração). É a base de todas as práticas de meditação e leva ao acalmar dos pensamentos discursivos e das emoções negativas.
Por outro lado, no vipassana (visão superior), uma abordagem essencialmente budista, procuramos cultivar uma perceção clara da verdadeira natureza dos fenómenos; vipassana é, portanto, um método analítico fundamentado na atenção plena e na observação consciente que transcende o auto-centramento no eu.
A prática da meditação pode ser vista como uma preparação para lidar com as situações do dia-a-dia. Deste modo, a meditação não é uma fuga do mundo real. Pelo contrário, é um convite para enfrentar as situações com que nos deparamos com a clareza de um olhar não auto-centrado e por isso imparcial e completo.
Na tradição budista, desenvolver este modo de olhar implica compreender quatro princípios fundamentais:
O sofrimento – todas as situações da nossa vida envolvem sofrimento, em formas óbvias ou subtis, pois todos os fenómenos são por natureza compostos e impermanentes;
A causa do sofrimento – a ignorância sobre a natureza do ‘eu’ e dos fenómenos;
O fim do sofrimento – os nossos obscurecimentos são temporários e podem ser ultrapassados levando à cessação do sofrimento;
O caminho para o fim do sofrimento – desenvolvendo sabedoria, isto é, compreendendo a que os fenómenos são o resultado de causas e condições impermanentes, podemos trilhar o caminho em direção à iluminação e à libertação do sofrimento.
Voltando ao exemplo de Buda, então ainda Siddharta, o príncipe em renúncia, intuímos que para alcançar progresso espiritual e o fim do sofrimento não basta simplesmente adotar um estilo de vida idealizado, apropriarmo-nos de “caminhos espirituais”, supostamente “propícios” ao ”avanço espiritual”, adotando-os como uma forma de materialismo espiritual. O desafio é manter a continuidade nas nossas experiências diárias, entregarmo-nos plenamente a elas, desenvolvendo sabedoria e vivendo eticamente – isto é cultivando, para além da sabedoria, a generosidade, a disciplina, a paciência, a diligência e a concentração.
A nossa atividade profissional torna-se, assim, parte integrante da prática espiritual e não apenas mais um desafio diário que temos de “suportar”. Ao levar-nos a relacionar física e emocionalmente com objetos e pessoas à nossa volta, o trabalho possui um significado espiritual intrínseco. Desenvolver esta sabedoria é, bem entendido, o desafio de uma vida.
Textos de Referência
Dzongsar Jamyang KHYENTSE (2008), What makes you not a Buddhist, Shambala, Boston and London.
Chögyam TRUNGPA (2011), Work, Sex, Money. Real Life on the Path of Mindfulness, Shambala, Boulder.
Shechen RABJAM (2023), O Buda que Há em Ti. Ensinamentos sobre a Grande Panaceira que Derrota a Fixação ao Eu de Shechen Gyaltsap, Padmakara, Lisboa.
Walpola Sri RAHULA (2014), What the Buddha Taught, One World, Oxford.
Este artigo foi publicado na edição nº 28 da revista Líder, sob o tema Silêncio. Subscreva a Revista Líder aqui.

