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Home Artigos Leadership 10 regras por que pautar a vida

Leadership

10 regras por que pautar a vida

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3 Outubro, 2024 | 24 minutos de leitura

Diz a lenda que havia duas palavras inscritas no pátio de entrada do Templo de Apolo, em Delfos. O templo era um dos principais locais de peregrinação, e os visitantes vinham de todos os cantos da Grécia antiga à procura de conselho divino.   Aquilo que liam, quando entravam, era: gnothi seauton.   Conhece-te a ti mesmo.  […]

Diz a lenda que havia duas palavras inscritas no pátio de entrada do Templo de Apolo, em Delfos. O templo era um dos principais locais de peregrinação, e os visitantes vinham de todos os cantos da Grécia antiga à procura de conselho divino.  

Aquilo que liam, quando entravam, era: gnothi seauton.  

Conhece-te a ti mesmo. 

Tendo em conta as evidências mais recentes da Psicologia e da Biologia, da Arqueologia e da Antropologia, da Sociologia e da História, só podemos concluir que os humanos navegaram durante milénios por uma imagem incorreta de si mesmos.

Ao longo de Eras, assumimos que as pessoas são egoístas, que somos animais, ou pior. Durante Eras, acreditámos que a civilização é um verniz superficial que estala à mais pequena provocação. Agora sabemos que esta visão da Humanidade, e esta perspetiva da nossa história, é absolutamente irrealista.  

Tentei apresentar o novo mundo que nos espera se reformularmos a nossa visão da natureza humana. Provavelmente, só aflorei a superfície. Afinal, se acreditarmos que a maioria das pessoas é digna e bondosa, tudo muda. Podemos repensar por completo como organizamos as nossas escolas e prisões, as nossas empresas e democracias. E como vivemos as nossas próprias vidas.  

Neste momento, devo assinalar que não sou fã do género da autoajuda.

Na minha opinião, vivemos numa Era de demasiada introspeção e muito pouca extrospeção. Um Mundo melhor não começa comigo, mas com todos nós, e a nossa tarefa principal é construir instituições diferentes. Mais cem dicas para escalar ao topo da carreira ou visualizar o caminho para a riqueza não nos levam a lado nenhum.  

Mas um amigo perguntou-me se escrever este livro [Humanidade – Uma História de Esperança] mudara a minha própria visão da vida, e percebi que a resposta é «sim». Uma visão realista da natureza humana tem obviamente enormes implicações em como interagimos com outras pessoas. Por isso, valendo o que valem, aqui estão as minhas 10 regras pelas quais pautar a vida, com base no que aprendi nos últimos anos.  

 

I. Na dúvida, assumir o melhor 

O meu primeiro mandamento para mim próprio é também o mais difícil. Os humanos evoluíram para criarem ligações, mas a comunicação pode ser complicada. Dizemos uma coisa que é mal interpretada, ou alguém olha para nós de maneira estranha, ou passam de boca em boca comentários maldosos. Em todas as relações, mesmo numa assente em anos de matrimónio, muitas vezes não sabemos o que a outra pessoa pensa sobre nós.  

E por isso conjeturamos. Digamos que suspeito que um colega não gosta de mim. Seja ou não verdade, de certeza que o meu comportamento vai mudar de maneiras que não vão ajudar a nossa relação. No capítulo 1, vimos que as pessoas têm um enviesamento da negatividade. Um único comentário negativo deixa uma impressão mais profunda que 10 elogios juntos. Na dúvida, tendemos a assumir o pior.  

Entretanto, tornamo-nos vítimas daquilo que é conhecido como retorno assimétrico. Basicamente, significa que, se a nossa fé em alguém foi mal depositada, a verdade virá ao de cima mais cedo ou mais tarde. Descobriremos que o nosso melhor amigo fugiu do país com as nossas poupanças todas, ou que o preço pela casa a precisar de remodelações era mesmo demasiado bom para ser verdade, ou que, depois de seis semanas a usar o Ab King Pro, ainda não temos os abdominais que nos prometeram na televisão. Se andámos a confiar demasiado, acabaremos por descobrir. 

Mas, se decidirmos não confiar em alguém, nunca saberemos se temos razão. Porque nunca vamos ter retorno. Digamos que somos ludibriados por um tipo holandês louro; por isso, juramos nunca mais confiar em pessoas louras da Holanda. Para o resto da vida, suspeitaremos de todos os holandeses louros, sem nunca termos de encarar a simples verdade de que a maioria é bastante digna.  

Por isso, quando estamos na dúvida quanto às intenções de outra pessoa, o que devemos fazer?  

É mais realista assumir o melhor – dar-lhes o benefício da dúvida. Normalmente isso justifica-se porque a maioria das pessoas tem boas intenções. E, na ocasião rara de alguém de facto tentar enganar-nos, a forma como reagimos pode bem ter um efeito não complementar. E se mesmo assim formos enganados? A Psicóloga Maria Konnikova fala disso no seu fascinante livro sobre burlões profissionais. Talvez estejamos à espera de que a sua dica principal seja estar sempre alerta. Mas não. Konnikova, a mais importante especialista em fraudes e falcatruas, chega a uma conclusão muito diferente. Muito melhor, diz ela, é aceitar e contar que, de vez em quando, seremos enganados. É o pequeno preço a pagar pelo luxo de uma vida inteira a confiar nos outros. Muitas pessoas sentem-se envergonhadas quando descobrem que depositaram a sua fé no lugar errado. Se formos realistas, talvez devamos sentir-nos um pouco orgulhosos. Eu iria até mais longe: se nunca fomos enganados, devíamos perguntar-nos se a nossa atitude de base é suficientemente confiante. 

 

II. Pensar em cenários em que todos ganham  

Conta-se a história de que Thomas Hobbes passeava por Londres com um amigo quando, de súbito, parou para dar dinheiro a um pedinte. O amigo ficou surpreendido. Não fora o próprio Hobbes quem dissera que faz parte da nossa natureza ser-se egoísta? O filósofo não viu nenhum problema. Assistir ao sofrimento do pedinte causou desconforto a Hobbes; por isso, soube-lhe bem dar umas moedas ao homem. Logo, a sua ação foi motivada por interesse próprio. 

Nos últimos dois séculos, os Filósofos e os Psicólogos puxaram pela cabeça para responder à questão se o altruísmo puro é coisa que exista. Para ser franco, esse debate não me interessa. Porque imaginemos só o que seria viver num Mundo onde sentíssemos náusea sempre que fizéssemos uma boa ação. Que tipo de inferno seria esse?  

A maravilha é que vivemos num Mundo onde fazer o bem também nos faz sentir bem. Gostamos de comida porque, sem comida, morreríamos à fome. Gostamos de sexo porque, sem sexo, entraríamos em extinção. Gostamos de ajudar porque, sem nos termos uns aos outros, definharíamos. Fazer o bem resulta tipicamente numa sensação boa porque é bom.  

Infelizmente, inúmeras empresas, escolas e outras instituições ainda se organizam em torno de um mito: faz parte da nossa natureza vivermos para competir uns com os outros. «Num grande negócio quem ganha é você, não o outro lado», aconselha Donald Trump no seu livro Pense em Grande – Seja o Melhor nos Negócios e na Vida. «O adversário é esmagado e você sai de lá com algo melhor para si.» 

Na verdade, isso funciona precisamente ao contrário. Os melhores negócios são aqueles em que toda a gente ganha. As prisões na Noruega? São melhores, mais humanas e menos caras. A organização de cuidados de saúde domiciliários de Jos de Blok na Holanda? Providencia melhor qualidade a menor custo, paga mais aos empregados e deixa pessoal e pacientes mais satisfeitos. São cenários em que todos ganham.  

Na mesma linha, a literatura sobre o perdão sublinha que perdoar aos outros funciona no nosso interesse próprio. Não só é uma dádiva, mas um bom negócio, porque perdoar é deixar de gastar energia em antipatia e ressentimentos. Efetivamente, libertamo-nos a nós próprios para viver. «Perdoar é libertar um prisioneiro», escreveu o teólogo Lewis B. Smedes, «e descobrir que o prisioneiro éramos nós.» 

 

III. Fazer mais perguntas  

A Regra de Ouro de quase todos os filósofos da história mundial é alguma versão de: «Não faça aos outros o que não gostaria que lhe fizessem a si.» Esta pérola de sabedoria já era divulgada pelo pensador chinês Confúcio há 2500 anos. Volta a surgir com o historiador grego Heródoto e na filosofia de Platão, e foi registada séculos mais tarde nas escrituras judaicas, cristãs e islâmicas.  

Hoje, milhares de milhões de pais repetem a Regra de Ouro aos filhos. Vem em dois sabores: a imposição positiva («Trata os outros como gostavas que te tratassem a ti») e a imposição negativa («Não faças aos outros o que não gostarias que te fizessem a ti»). Alguns Neurologistas acreditam mesmo que a regra é produto de milhões de anos de evolução humana e nos está programada no cérebro. 

Mesmo assim, acabei por acreditar que a Regra de Ouro fica aquém. No capítulo 10, vimos que a empatia pode ser má conselheira: nem sempre somos bons a percecionar o que os outros querem. Todos os gestores, diretores executivos, jornalistas e governantes que acham que sim, na prática, andam a roubar a voz aos outros. Por isso, raramente vemos entrevistas a refugiados na televisão. Por isso, a nossa democracia e o nosso jornalismo são vias maioritariamente de sentido único. E, por isso, os nossos Estados -providência estão saturados de paternalismo.  

Muito melhor seria começar por fazer uma pergunta. Dar a palavra aos cidadãos, como na democracia participativa de Porto Alegre. Deixar os empregados gerir as próprias equipas, como na fábrica de Jean -François Zobrist. Deixar que as crianças forjem as suas próprias vias de aprendizagem, como na escola de Sjef Drummen.  

Esta variação da máxima familiar, também conhecida como a «Regra de Platina», foi bem resumida por George Bernard Shaw. «Não faça aos outros o que gostaria que lhe fizessem a si», aconselhou. «Os seus gostos podem ser diferentes.» 

 

IV. Moderar a empatia, treinar a compaixão  

A Regra de Platina não pede empatia, mas compaixão. Para ajudar a explicar a diferença, apresento o monge budista Matthieu Ricard, um homem com um domínio lendário sobre os seus pensamentos. (Se isto parecer apelativo, só posso desejar boa sorte a quem quiser meditar as cinquenta mil horas de que ele precisou para o alcançar.)  

Não há muito tempo, Ricard foi convidado pela Neurologista Tania Singer para passar a manhã no seu scanner. Singer queria saber o que acontece no cérebro quando sentimos empatia. E, sobretudo, se há uma alternativa.  

Como preparativo, Singer indicou a Ricard que visse um documentário na noite anterior sobre órfãos solitários numa instituição romena. Quando o deslizou sob o scanner no dia seguinte, Singer pediu-lhe que se recordasse dos olhos vazios daqueles órfãos. Dos seus membros magricelas. Ricard fez o que lhe era pedido, imaginando o mais intensamente que podia como aqueles órfãos romenos se sentiam.  

Uma hora depois, estava um caco.  

Porque é isso que a empatia nos faz. É esgotante. Numa experiência posterior, Singer pediu a um grupo de voluntários que passassem diariamente 15 minutos de olhos fechados a evocar tanta empatia quanto possível, durante uma semana. Foi basicamente o máximo que puderam suportar. No fim da semana, todos os participantes estavam mais pessimistas. Uma mulher disse que, quando olhava para os outros passageiros no comboio depois disso, só conseguia ver sofrimento. 

Depois da primeira sessão com Ricard, Singer decidiu experimentar algo diferente. Mais uma vez, pediu ao monge para pensar nos órfãos romenos, mas agora não era para se imaginar na pele deles. Ao invés, queria que ele aplicasse a aptidão que passara anos a aperfeiçoar, sentindo não como eles, mas por causa deles. Em vez de partilhar da sua aflição, Ricard concentrou-se em invocar sentimentos de afeto, preocupação e cuidado. Em vez de sentir pessoalmente o seu sofrimento, manteve-se separado dele.  

No seu monitor, Singer conseguiu ver de imediato a diferença, porque se acenderam partes totalmente distintas do cérebro de Ricard. A empatia ativa sobretudo a ínsula anterior, que fica mesmo por cima das nossas orelhas, mas piscavam agora o corpo estriado e córtex orbitofrontal. 

O que se estava a passar? A nova mentalidade de Ricard é aquilo a que chamamos compaixão. E, ao contrário da empatia, a compaixão não nos consome a energia. De facto, a seguir Ricard sentiu-se muito melhor. Isso deve-se ao facto de a compaixão ser simultaneamente mais controlada, distante e construtiva. Não nos faz partilhar da aflição de outra pessoa, mas ajuda-nos a reconhecê-la e depois a agir. Mais ainda, a compaixão enche-nos de energia, exatamente o que é necessário para ajudar.  

Para dar outro exemplo, digamos que o nosso filho tem medo do escuro. Como progenitores, não vamos encolher-nos num canto do quarto a gemer ao lado dele (empatia). Em vez disso, tentamos acalmá-lo e reconfortá-lo (compaixão).  

Então, devíamos começar todos a meditar como Matthieu Ricard? Confesso que, ao princípio, isso me pareceu um pouco New Age, mas existem algumas evidências científicas de que a meditação pode treinar a compaixão. O cérebro é um órgão maleável. E se fazemos exercício para manter o corpo em forma, porque não fazer o mesmo com a mente?  

 

V. Tentar compreender o outro, mesmo sem perceber a sua atitude  

Para ser franco, experimentei a meditação, mas até agora não tenho tido grande êxito. Por algum motivo, há sempre outro email, outro tweet ou outro vídeo de um bode num trampolim a exigir atenção imediata. E meditar cinquenta mil horas? Desculpem, mas também tenho vida.  

Sorte a minha, há outra forma de recuar: usar o método preferido pelos Filósofos do Iluminismo no século XVIII. Qual é? A razão. O intelecto. A capacidade de pôr as coisas numa perspetiva racional é um processo psicológico que recruta diferentes partes do cérebro. Quando usamos o intelecto para tentar compreender alguém, isso ativa o córtex pré-frontal, uma zona localizada logo atrás da testa que é excecionalmente grande nos humanos. 

(…) 

Pensemos na visão norueguesa das prisões, que pode parecer contraintuitiva para o resto das pessoas. Ao empregar o nosso intelecto e examinar as estatísticas de reincidências, percebemos que é uma maneira excelente de lidar com os criminosos. Ou pensemos na ética de estadista de Nelson Mandela. Teve de morder a língua repetidas vezes, abafar as emoções e manter-se arguto e analítico. Mandela não era apenas bondoso, era igualmente astuto. Ter fé nos outros é uma decisão tão racional quanto emocional.  

É evidente que perceber a atitude dos outros não significa que tenhamos de concordar com eles. Podemos compreender a mentalidade de um fascista, de um terrorista ou de um fã d’O Amor Acontece sem nos juntarmos ao grupo dos fascistas, terroristas e apreciadores de filmes lamechas. (Tenho de confessar que sou um membro orgulhoso do último grupo.) Compreender o outro a um nível racional é uma competência. É um músculo que podemos treinar. 

A capacidade de sermos racionais é mais necessária para suprimir, ocasionalmente, o desejo de sermos simpáticos. Às vezes, o nosso instinto sociável mete-se no caminho da verdade e da equidade. Porque consideremos: não vimos já todos alguém a ser tratado injustamente e, ainda assim, mantivemo-nos calados para evitar sermos desagradáveis? Não engolimos já todos as nossas palavras para manter a paz? Não acusámos já todos os que lutam pelos seus direitos de agitarem as coisas?  

Acho ser esse o grande paradoxo deste livro. Argumentei que os humanos evoluíram para serem fundamentalmente criaturas sociáveis, mas às vezes a nossa sociabilidade é o problema. A história ensina que o progresso muitas vezes começa com pessoas – como Jos de Blok, da Buurtzorg, e Sjef Drummen, da Agora – que os outros sentem que são moralistas ou até antipáticas. Pessoas com a coragem de dizerem o que pensam em ocasiões sociais. Que levantam dúvidas desagradáveis que nos deixam desconfortáveis.  

Prezemos estas pessoas, pois são elas a chave do progresso.  

 

VI. Amar os nossos como os outros amam os deles  

No dia 17 de julho de 2014, um Boeing 777 da Malaysia Airlines caiu perto da aldeia de Hrabove, na Ucrânia. A bordo seguiam 298 passageiros, 193 dos quais eram holandeses. O aparelho fora abatido por separatistas pró-Rússia. Não houve sobreviventes.  

Ao início, os relatos – aquelas 298 mortes – pareceram-me abstratos, mas depois li uma história num jornal holandês que me atingiu bem fundo. Abria com uma fotografia de Karlijn Keijzer (de 25 anos) e Laurens van der Graaff (de 30); uma selfie dos rostos resplandecentes de um tipo louro e de uma rapariga de cabelo encaracolado tirada mesmo antes de embarcarem. Li que se tinham conhecido num clube de remo de Amesterdão. Que Laurens escrevia para o Propria Cures, um jornal estudantil brilhante, e que Karlijn estava quase a terminar o doutoramento nos Estados Unidos.  

E que eram loucos um pelo outro.  

«Serão sempre aquele casal feliz, nas nuvens de tão apaixonados, que não conseguiam tirar as mãos de cima um do outro», disse um amigo. Não é hipócrita da minha parte, perguntei-me, que, tendo saltado um artigo sobre as atrocidades no Iraque na página 7, fique agora em lágrimas? Normalmente, aquele tipo de reportagem incomoda-me. «Dois cidadãos holandeses mortos ao largo da costa da Nigéria», relatam os jornais, quando um barco cheio de gente se afundou.  

Mas os humanos são criaturas limitadas. Preocupamo-nos mais com aqueles que são como nós, que partilham a mesma língua, aparência e origens. Eu também já fui um estudante universitário holandês e aderi a um clube universitário. Também conheci lá uma rapariga com uns lindos caracóis e teria adorado escrever para o Propria Cures. («Para quem conhecia o Laurens», escreveram os seus colegas de lá, «não é de admirar que tenha sido preciso um míssil antiaéreo para deter o seu corpo poderoso.») 

Foi o irmão de Karlijn que enviou ao jornal aquela selfie sorridente tirada horas antes de morrerem. Escreveu ele: «Só peço que mostrem ao país e ao Mundo a dor por que eu, a minha outra irmã e os meus pais estamos a passar. É a dor de centenas de pessoas na Holanda.»  

E ele tinha razão. Toda a gente conhecia alguém que conhecia alguém que ia naquele avião. Nesses dias, senti-me holandês de uma forma como nunca sentira. 

Porque nos preocupamos mais com pessoas que se assemelham a nós? No capítulo 10, escrevi que o mal opera à distância. A distância deixa-nos arengar contra desconhecidos na Internet. A distância ajuda os soldados a fintar a sua aversão à violência. E a distância tornou possível os crimes mais horríveis da história, da escravatura ao Holocausto.  

(…) 

Como humanos, diferenciamos. Temos favoritos e preocupamo-nos mais com os nossos. Isso não é motivo de vergonha – faz-nos humanos. Mas também temos de compreender que esses outros, esses desconhecidos distantes, também têm famílias que amam. Que são tão humanos como nós.

 

VII. Evitar as notícias  

 Uma das maiores fontes de distanciamento hoje são as notícias. Ver as notícias da hora do jantar pode dar-nos a sensação de estarmos mais ligados à realidade, mas, na verdade, enviesa a nossa visão do Mundo. As notícias tendem a generalizar as pessoas em grupos como políticos, elites, racistas e refugiados. Pior ainda, centram-se nas ovelhas ronhosas.  

O mesmo se aplica às redes sociais. O que começa com um par de rufias a vomitar discurso de ódio à distância é empurrado por algoritmos para o topo do nosso mural do Facebook e do Twitter. É por irem beber ao nosso enviesamento da negatividade que essas plataformas digitais fazem dinheiro, tendo lucros mais altos quanto pior as pessoas se comportarem. O mau comportamento, por captar a nossa atenção, é o que gera mais cliques, e é para onde clicamos que vão os dólares de publicidade. Isso transformou as redes sociais em sistemas que amplificam as nossas piores qualidades.  

Os Neurologistas sublinham que o nosso apetite por notícias e notificações instantâneas manifesta todos os sintomas da adição, e Silicon Valley percebeu-o há muito tempo. Os diretores de empresas como o Facebook e a Google limitam estritamente o tempo que os filhos passam na Internet e nas redes «sociais». Mesmo que os gurus da educação elogiem os iPads nas escolas e as competências digitais, as elites tecnológicas, à semelhança dos barões das drogas, escudam os próprios filhos da sua iniciativa tóxica.  

A minha regra geral? Tenho várias: manter-me longe das notícias da televisão e das notificações instantâneas e substituí-las pela leitura de um jornal de domingo com mais nuances e artigos de fundo, esteja ou não online. Tirar os olhos do ecrã e encontrar-me com pessoas reais de carne e osso. Pensar tão cuidadosamente na informação com que alimento a cabeça como penso na comida com que alimento o corpo. 

 

VIII. Não esmurrar nazis  

Se somos ávidos seguidores das notícias, é fácil sentirmo-nos encurralados pela impotência. Qual é o objetivo de reciclar, pagar impostos e doar para instituições de solidariedade quando outros fogem às responsabilidades?  

Se nos sentimos tentados por esse tipo de pensamentos, lembremo-nos de que cinismo não é mais que outra palavra para preguiça. É uma desculpa para não assumirmos responsabilidade. Porque, se acreditarmos que a maioria das pessoas é corrupta, não precisamos de nos insurgir contra a injustiça. Seja como for, o Mundo vai para o inferno.  

Também há um tipo de ativismo que se parece suspeitosamente com o cinismo. É o benfeitor que anda preocupado sobre tudo com a imagem de si próprio. Ir por esse caminho é tornar-se o rebelde que sabe mais que os outros, distribuindo conselhos sem nenhuma consideração genuína pelos demais. As más notícias são então boas notícias, porque as más notícias («O aquecimento global está a acelerar!», «A desigualdade é pior do que pensávamos!») provam que sempre teve razão.  

Mas existe um caminho diferente, como mostra a pequena cidade de Wunsiedel, na Alemanha. No fim da década de 1980, Rudolf Hess, secretário pessoal de Adolf Hitler, foi enterrado no cemitério local, e Wunsiedel depressa se tornou um local de peregrinação neonazi. Ainda hoje, os cabeças-rapadas desfilam pela cidade todos os anos a 17 de agosto, o aniversário da morte de Hess, na esperança de incitar tumultos e violência.  

E todos os anos, sem esperar pela deixa, os antifascistas juntam-se para dar aos neonazis exatamente o que eles querem. Como é inevitável, vem à tona um vídeo que mostra alguém a esmurrar orgulhosamente um nazi. Mas depois os efeitos demonstram ser contraprodutivos. Tal como bombardear o Médio Oriente é um maná para os terroristas, esmurrar nazis só reforça o extremismo. Valida a sua visão do Mundo e torna muito mais fácil atrair novos recrutas.  

Wunsiedel decidiu experimentar uma estratégia diferente. Em 2014, um alemão engraçadinho chamado Fabian Wichmann teve uma ideia brilhante. E se a cidade transformasse a marcha por Rudolf Hess numa marcha de beneficência? Os moradores adoraram a ideia. Por cada metro que os neonazis percorressem, os habitantes da cidade comprometeram-se a doar 10 euros à organização de Wichmann, a EXIT -Deutschland, que ajuda as pessoas a sair de grupos de extrema-direita.  

Antes do dia em questão, os moradores marcaram linhas de início e fim. Fizeram faixas a agradecer aos participantes pelos seus esforços. Entretanto, os neonazis não faziam ideia do que se preparava. No próprio dia, Wunsiedel acolheu-os com gritos de apoio e lançou confetti sobre eles quando cruzaram a meta. Tudo somado, o acontecimento angariou mais de 20 mil euros para a causa.  

Wichmann destaca que o importante depois de uma campanha como esta é manter a porta aberta. No verão de 2011, a sua organização distribuiu Tshirts num festival de rock extremista na Alemanha. Impressas com símbolos da extrema-direita, ao princípio as Tshirts pareciam apoiar a ideologia neonazi. Mas, depois de serem lavadas, aparecia uma mensagem diferente. «O que a tua Tshirt consegue fazer, tu também consegues. Podemos ajudar-te a libertar-te da extrema-direita.» Isto pode parecer piroso, mas, nas semanas seguintes, o número de chamadas para a EXIT-Deutschland subiu 300%. Wichmann viu como as suas mensagens foram desnorteantes para os neonazis. Onde teriam esperado nojo e ultraje, receberam uma mão estendida. 

 

IX. Sair do armário: não ter vergonha de fazer boas ações  

Para estender essa mão, precisamos de uma coisa acima de tudo. Coragem. Porque podemos muito bem ser rotulados de sentimentais ou exibicionistas. «Quando, pois, deres esmola, não permitas que toquem a trombeta diante de ti», avisou Jesus durante o Ser mão da Montanha; e, «quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, reza em segredo a teu Pai, pois Ele, que vê o oculto, recompensar-te-á». 

(…) 

A bondade é transmissível. E é tão contagiosa que até infeta pessoas que só assistem a ela de longe. Entre os primeiros psicólogos que estudaram o efeito estava Jonathan Haidt, no fim da década de 1990. Num dos seus artigos, conta a história de um estudante que ajudou uma senhora de idade a retirar a neve do seu acesso à garagem. Um dos amigos, ao ver tal ato altruísta, mais tarde escreveu: «Tive vontade de saltar do carro e dar um abraço àquele tipo. Apeteceu-me cantar e correr, ou saltar e rir. Simplesmente ser ativo. Apeteceu-me dizer coisas simpáticas das pessoas. Escrever um poema bonito ou uma canção de amor. Brincar na neve como uma criança. Contar a toda a gente sobre a sua ação.» 

(…) 

 

X. Ser realista  

E agora, a minha regra mais importante por que pautar a vida. Se houve coisa que procurei fazer neste livro foi mudar o significado da palavra «realismo». Não é revelador que, na aceção moderna, o realista se tenha tornado sinónimo do cínico – alguém com uma perspetiva negativa?  

Na verdade, é o cínico que está desligado da realidade. Na verdade, vivemos no Planeta A, onde as pessoas se sentem profundamente inclinadas a ser boas umas com as outras.  

Por isso, sejamos realistas. Sejamos corajosos. Sejamos fiéis à nossa natureza e ofereçamos a nossa confiança. Façamos o bem à vista de todos, e não tenhamos vergonha da nossa generosidade. Podemos ser descartados como crédulos e ingénuos ao início. Mas lembremo-nos: o que hoje é ingenuidade amanhã pode ser bom senso. Está na altura de um novo realismo.  

Está na altura de uma nova visão da Humanidade. 

Este excerto do livro Humanidade – Uma História de Esperança, de Rutger Bregman, foi adaptado com o consentimento do autor e da Bertrand Editora. 

Rutger Bregman é historiador e autor de livros sobre História, Filosofia e Economia traduzidos em mais de 40 idiomas.  

 

Este artigo foi publicado na edição nº 27 da revista Líder, sob o tema Humanity is Calling – Be Silent, Decide with Truth. Subscreva a Revista Líder aqui.

Rutger Bregma,
Historiador e Autor

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