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O que está errado na forma como trabalhamos?

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30 Março, 2021 | 5 minutos de leitura

Da terra do sonho americano chegam histórias de prosperidade e avanço, aliados à alta tecnologia e pesquisa que em muito contribuem para a evolução e desenvolvimento da humanidade. Mas existe também um lado oculto, com histórias dos trabalhadores em áreas de pouca especialização (comércio, retalho, serviços) cujas vidas extremamente precárias, sem apoio ou qualquer tipo […]

Da terra do sonho americano chegam histórias de prosperidade e avanço, aliados à alta tecnologia e pesquisa que em muito contribuem para a evolução e desenvolvimento da humanidade. Mas existe também um lado oculto, com histórias dos trabalhadores em áreas de pouca especialização (comércio, retalho, serviços) cujas vidas extremamente precárias, sem apoio ou qualquer tipo de reconhecimento, têm por vezes um desfecho menos feliz.

No verão de 2014, Maria Fernandes, 32 anos, filha de emigrantes portugueses, morreu enquanto dormia dentro do seu carro, vítima da inalação de gases tóxicos. A portuguesa, já nascida nos EUA, tinha três empregos no Dunkin’Donuts em New Jersey, e descansava no carro entre turnos.

O caso de Maria Fernandes foi retratado na altura como “a cara da recessão” e a autora Jill Lepore, agora reata a história da emigrante portuguesa e lança a questão, num artigo publicado na revista New Yorker, sobre o que está de errado na forma como se trabalha.

A terra prometida

Desde o ano 2014 até hoje, já por várias vezes foi tentada a introdução de um projeto de lei, o Schedules That Work Act, que exige que as empresas avisem os funcionários sobre as mudanças nas programações de turnos com pelo menos duas semanas de antecedência e que os impede da demissão de funcionários por solicitar horários regulares. O projeto nunca foi aprovado nem sequer colocado para votação.

A semana passada rebentou o escândalo, quando os funcionários do Banco Goldman Sachs, afirmaram trabalhar no seu primeiro ano de contrato, uma média de 95 horas por semana, dormindo cerca de cinco horas por dia. No relatório apresentado em fevereiro deste ano, pedem para “só” trabalhar 80 horas semanais (16 horas por dia) e afirmam que a sua saúde física e mental diminuiu drasticamente: 77% diz ter sido “vítima de assédio profissional”.

É na América que existem as mais longas semanas de trabalho, chegando às 50 horas, com a maioria dos empregos do tipo temporário, cujos horários de trabalho são definidos por algoritmos para maximizar os lucros, reduzindo as quebras e pausas. Uma lição que o Japão aprendeu, quando nos anos 70 se morria por “excesso de trabalho”, estando agora bem longe do que se passa do outro lado do planisfério.

Em Portugal, segundo dados da base estatística PORDATA, a duração média semanal de trabalho efetivo da população empregada é de 31 horas, em 2020, em oposição a 39 horas em 1983. Em comparação com outros países, os americanos têm menos férias remuneradas, sem garantias de licença maternidade ou direito legal a baixa médica. Enquanto isso, nas palavras da autora, “somos ensinados a amar o trabalho e a nele encontrar um significado, como se o trabalho fosse uma família ou uma religião”.

Trabalhar com sentido

Vozes levantam-se e alguns contestam o mito do amor pelo trabalho. Argumenta-se que o trabalho não retribui o que uma pessoa nele investe – horas do dia, dedicação, entrega. A ideia de que o trabalho não deveria existir apenas pela compensação económica nasceu nos anos 70. A satisfação com o trabalho, passaria então por metas menos tangíveis como encontrar um propósito para a vida e daí obter motivação e sentido.

A frase de Confúcio, “Escolhe um trabalho de que gostes, e não terás que trabalhar nem um dia na tua vida”, teve furor nos anos 80 e 90, juntamente com a figura do estágio não renumerado, a quebra dos sindicatos e campanhas de redução de impostos sobre ganhos de capital. Em 2005, Steve Jobs afirmava “A única maneira de fazer um trabalho excecional é gostar do que se faz”.

Nos Estados Unidos e no Reino Unido, o movimento trabalhista cresceu em força em finais do século XIX culminando com Henry Ford a implementar a jornada de oito horas e uma semana de trabalho de cinco dias, em troca de maior produtividade e menos rotatividade. A média de horas semanais dos trabalhadores assalariados caiu entre 1930 a 1970, mas, nas últimas décadas, muitos trabalhadores têm lutado por mais.

Encontrar um significado no trabalho, e gostar do que se faz, não é tão errado assim. Questões como a cultura que se encontra no local de trabalho, a oportunidade de sair de casa, a sensação de fazer algo e do respetivo sentido de realização, são evidentes. E muitos revelam o orgulho que têm no que fazem ou criam, especialmente se as suas profissões estiverem relacionadas com um determinado talento.

De volta aos EUA nos anos 80 e 90, essa foi uma época que correspondeu a um declínio nas principais conquistas do movimento trabalhista (8 horas por dia e assistência médica) e perda de adesão aos sindicatos – em 1983, um em cada cinco trabalhadores pertencia a um sindicato; em 2019, apenas um em cada dez o fazia.

As desigualdades da distribuição salarial também foram aumentando, nos anos 60 um CEO ganhava em media mais 20 vezes do que um trabalhador médio, em 2015 essa diferença é 200 vezes maior.

Maria Fernandes trabalhava mais de oitenta horas por semana e ganhava menos de quarenta mil dólares por ano. A sua família regressou a Portugal quando ela tinha onze anos, mas aos 18 ela voltou aos Estados Unidos. Queria ser atriz, comissária de bordo ou esteticista.

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