A conferência digital “Saúde: Construir o Futuro”, decorrida a 6 de maio, desenvolvida pelo Conselho da Diáspora Portuguesa e composta por vários painéis de participantes, reuniu empresas, universidades e instituições. Ciência, Tecnologia e Saúde constituem a base do futuro das sociedades e empresas, cujos modelos e pressupostos foram de sobremaneira impactados pela Pandemia, na forma […]

A conferência digital “Saúde: Construir o Futuro”, decorrida a 6 de maio, desenvolvida pelo Conselho da Diáspora Portuguesa e composta por vários painéis de participantes, reuniu empresas, universidades e instituições.
Ciência, Tecnologia e Saúde constituem a base do futuro das sociedades e empresas, cujos modelos e pressupostos foram de sobremaneira impactados pela Pandemia, na forma de pensar, resolver e encontrar caminhos para o que se revelou ser um novo Mundo. Duas áreas foram particularmente sensíveis a essas transformações, como o caso da Inovação e da Educação, com o aparecimento de novos paradigmas e mudanças disruptivas que levam à reflexão do estado da arte do processo científico e da formação das pessoas, tanto em Portugal como no resto do Mundo.
Se sonharmos alto, os sonhos podem ser concretizados
No painel “Ciência e Inovação”, composto por Belinda Xavier, investigadora e Diretora do Laboratório de Doenças Moleculares Centro Hospitalar de Vaudois, na Suíça, e Maria Manuel Mota, Diretora do Instituto de Medicina Molecular da Universidade de Lisboa, destacou-se a mudança do paradigma na forma como se faz Ciência, cujo ponto de viragem foi provocado pelo COVID-19.
Se por um lado a crise pandémica veio mostrar a importância da Inovação na Ciência, resta saber se é possível manter a sustentabilidade dessa inovação no momento pós-COVID e acelerar esse ciclo em outras áreas da saúde. Há por isso que explorar o novo paradigma da “ciência-espetáculo”, do ponto de vista da confiança do processo científico e da informação ao público.
Acerca da aplicação prática da investigação científica na vida das pessoas, e como isso ficou explícito no processo da descoberta da vacina contra o novo coronavírus, Belinda Xavier remete para a citação da Harvard Business School: “a inovação é, mais do que ter boas ideias, o processo de as fazer evoluir ao ponto de as tornar úteis – de ter uso prático”. De facto, com esta Pandemia, os cientistas deparam-se com a realidade de serem úteis e com isso quebrou-se um padrão de várias décadas, em que se antes a Ciência não chegava às populações, agora os cientistas e a sua linguagem estão alinhados com a sociedade.
A Pandemia veio não só abrir o caminho para a comunicação entre as pessoas e a Ciência, como acelerar a construção de uma “ponte” entre as ideias, comunidades e empresas, que de outra forma levaria muito mais tempo a acontecer.
O exemplo evidente da aplicação da Ciência no mercado é o das vacinas, um processo que Maria Manuel Mota classifica como “maravilhoso”. O novo coronavírus veio mostrar que se pode acelerar a investigação científica em outras áreas, relembrando estarmos a viver “um momento único na história da humanidade” e que tal deve servir como uma aprendizagem em outros domínios, sem esquecer terem sido também momentos difíceis e de muitas perdas.
Belinda Xavier reforça esse ponto de vista, quando refere ser “a inovação o principal veículo da transformação”, para o qual é necessário o investimento em estruturas, legislação e disponibilização de gabinetes de transferência de tecnologia, numa maior sensibilização das partes envolventes para que a passagem da ideia ao lado prático seja o mais acelerada e real possível.
Se é verdade que a Pandemia veio provocar um salto inequívoco aos processos de inovação e investigação, veio também revelar um lado menos positivo quando se percebeu que sem a educação apropriada da população torna-se difícil fazer Ciência sob o risco de criar receios entre as pessoas. A Ciência evolui pela dúvida – ela é essencial para se avançar e ir à procura da verdade, ou seja, a dúvida faz parte do processo científico.
Outra questão que vem mudar o paradigma da forma como se irá fazer Ciência no futuro prende-se com o tempo que decorre entre a dúvida e a posterior comprovação de uma teoria, em que se antes levariam anos até que um processo científico se tornasse público, por ter de obedecer a várias etapas, com esta crise pandémica o processo de investigação aconteceu paralelamente entre a comunicação social e a comunidade científica.
Ambas as investigadoras concordam que hoje se viva um dilema entre a qualidade da Ciência e a sua rapidez – ou seja, o processo científico não pode ser tão rápido que se ponha em causa a sua verificabilidade, mas também não pode demorar tanto tempo para questões urgentes, como é o caso da investigação em outras áreas da saúde.
A sensibilidade para a ciência também deu um enorme salto, em que o público foi como que “acordado” para ela, fenómeno que Belinda Xavier identificou e reforçou com a frase do nobel da economia Daniel Kahneman (2002) “Ninguém toma uma decisão baseada num número, é sempre preciso uma história” – isto é, quando a inovação chega ao público tem que ser contada uma história do caminho que foi feito e não basear-se apenas em resultados
A maior lição desta Pandemia foi, na perspetiva de Maria Manuel Mota, a de que se “sonharmos alto, os sonhos podem ser concretizados”. Prova dessa verdade, foi o facto de se ter alcançado uma vacina num curtíssimo espaço de tempo, servindo de ilustração ao facto de quando a humanidade está unida na solução de um problema, é possível chegar à sua solução.


