Muito se tem escrito e debatido sobre o talento no mundo do trabalho, colocando-se invariavelmente o ónus da tradução prática daquele na organização para a qual o indivíduo trabalha. Como exemplo, atentemos na definição que Noe (2010) concede de Gestão do Talento: «processo que consiste em atrair, reter, desenvolver e motivar… profissionais altamente qualificados, de […]
Muito se tem escrito e debatido sobre o talento no mundo do trabalho, colocando-se invariavelmente o ónus da tradução prática daquele na organização para a qual o indivíduo trabalha. Como exemplo, atentemos na definição que Noe (2010) concede de Gestão do Talento: «processo que consiste em atrair, reter, desenvolver e motivar… profissionais altamente qualificados, de forma a melhorar os resultados de uma organização».
Desporto à parte, raramente viramos as nossas atenções para a responsabilidade do dito talentoso em fazer (ou não) a diferença. Deter competências e potencial não se afigura suficiente para entregar performance. Há que colocar empenho no processo.
A referida “demissão” não constitui, todavia, um exclusivo da esfera profissional. Ocorre, também, nas nossas dimensões pessoal, familiar e social, quando, entre outros, nos escusamos a tirar partido daquilo que sabemos, para o qual “estamos talhados” ou podemos desenvolver.
Todo o ser humano possui um menu mais ou menos alargado de competências passíveis de apoiar, motivar, envolver, inspirar, alegrar, desenvolver o próximo. Passos tão simples como dar atenção, amar, ouvir, dialogar, partilhar, reconhecer, felicitar e elogiar fazem, cada vez mais, a diferença em tempos nos quais tantas vezes buscamos o elaborado para, no fundo, entregarmos o material, o transacional, o pecuniário, o supérfluo, o efémero.
Expressemos, na nossa individualidade para com os outros, atributos tantas vezes definidores das lideranças, inspirando, concedendo o exemplo, investindo no próximo, estimulando a aprendizagem contínua, apoiando a mudança, desenvolvendo capacidades, auxiliando na definição e/ou ajustamento do rumo, contribuindo para ambientes positivos, aceitando a diferença, tirando partido da diversidade, praticando a justiça e a equidade.
Mesmo que, aos olhos de alguém, ou aos nossos próprios, aquilo que possuímos pareça pouco, fazendo a diferença para com o próximo, transformar-se-á em muito. Atentemos na Parábola dos Talentos (Mateus 25:14-30): os servos eram escravos e não auferiam salário. Logo, o servo que recebeu apenas um talento teve nas mãos uma quantia que muito provavelmente nunca teria oportunidade de ganhar em toda a sua vida. Este texto bíblico, faz-nos refletir sobre o dever de aperfeiçoarmos os nossos talentos, assim como de geri-los e partilhá-los.
Ponhamos, portanto, o nosso talento individual a render. Não o guardemos para nós ou para determinados contextos. Coloquemo-lo transversalmente ao serviço dos outros. Deixemos de ser um capital empatado!

Por Manuel Sousa Antunes, Docente do ISCSP (Universidade de Lisboa)

