A invasão da Ucrânia permitiu reformular uma velha ideia: sabia-se que os extremos se tocam; agora sabemos que às vezes se abraçam. O abraço une extrema-esquerda e extrema direita num amplexo inesperado – ou talvez não. O que junta estes opostos polares, além de alegados apoios materiais e eleitorais, é o facto de neste momento […]
A invasão da Ucrânia permitiu reformular uma velha ideia: sabia-se que os extremos se tocam; agora sabemos que às vezes se abraçam. O abraço une extrema-esquerda e extrema direita num amplexo inesperado – ou talvez não. O que junta estes opostos polares, além de alegados apoios materiais e eleitorais, é o facto de neste momento todos caírem na categoria a que Gideon Rachman chamava no Financial Times “Putin understanders”. Quem são estes “compreendedores” de Putin?
À direita encontram-se os nacionalistas deste mundo, saudosos de um sistema verticalmente estruturado, baseado na ordem e no controlo pelo líder, um traço próximo dos velhos fascismos, facto assinalado por Mikhail Khodorkovsky em texto assinado no mesmo jornal britânico. Timothy Snyder escreveu sobre Putin: “Putin é um ditador de extrema-direita admirado por supremacistas brancos de todo o mundo.” O encanto deste grupo por Putin é fácil de compreender: o homem quer restaurar o orgulho pátrio, a ordem e o respeito pelo seu país. Tem o beneplácito do topo da Igreja Ortodoxa russa. Coloca os militares (e a ordem) no centro da sociedade.
À esquerda, a compreensão também se compreende: o inimigo do meu inimigo meu amigo é. A guerra revelou que o ódio aos EUA e ao Ocidente constitui o cerne da ideologia destas esquerdas iliberais, elas próprias atraídas pela ordem vinda do topo (do Estado, neste caso) e pela necessidade de atacar os símbolos do Ocidente. Apoiar um país imperialista e agressor parece não constituir um grande problema para estes lados, agora unidos em torno do desejo de paz, que em alguns casos não passa de um pacifismo de lobos com pele de cordeiro. Interessante é o facto de, deste lado da barricada, se ouvirem frequentes queixas de pressão para o cancelamento provenientes do poder político e mediático. Os anteriores censuradores sentem-se censurados.
O que esta guerra revela é que a democracia é, de facto, um sistema frágil. Enquanto os democratas se aliam aos não-democratas por razões táticas, como por cá tem acontecido, o tecido democrático continua a ser deslaçado. Façamo-lo com consciência do facto e por nossa conta e risco.
