Joaquim Cerqueira Gonçalves foi um filósofo português e também Sacerdote Franciscano, doutorado em Filosofia pela Universidade de Lisboa. O seu pensamento teve influências várias, entre elas a do franciscanismo. Cerqueira Gonçalves refletiu sobre a problemática da natureza e do ambiente procurando uma radicalidade ontológica na relação do Homem com a Natureza, ou como o próprio […]
Joaquim Cerqueira Gonçalves foi um filósofo português e também Sacerdote Franciscano, doutorado em Filosofia pela Universidade de Lisboa. O seu pensamento teve influências várias, entre elas a do franciscanismo.
Cerqueira Gonçalves refletiu sobre a problemática da natureza e do ambiente procurando uma radicalidade ontológica na relação do Homem com a Natureza, ou como o próprio preferia, com o ambiente, com o sentido de poder erigir uma nova forma de pensar o ambiente superando a relação antropocêntrica que o Homem com esta desenvolveu ao longo dos tempos.
Nessa análise, terei em consideração o texto XXVII, de Manuel Cândido Pimentel, parte integrante da sua obra Razão Comovida, que se deteve sobre a obra Em Louvor da Vida e da Morte, de Cerqueira Gonçalves, publicada em 1998.
Cerqueira Gonçalves considera que as questões do ambiente devem ser pensadas “muito acima da axiologia legalista e de reivindicação moralizante dos movimentos ecológicos.”. Quer dizer-nos com isto que não é suficiente enquadrar teoricamente a questão, criando regras para punir quem não respeita os preceitos ambientais, e apresenta uma suspeita em relação à ecologia na medida em que esta, de alguma forma acaba por se limitar ao campo ético e do direito.
Cerqueira Gonçalves procurou, para fundar a sua Filosofia do ambiente, descer ao plano radical, o que implica não se ficar pela Natureza em si tal como esta tem vindo a ser tomada desde os idos tempos gregos e da ciência moderna, mas considerar também o plano metafísico onde a própria ontologia merecerá ser repensada. Por isso, ética e direito serão saberes acessórios, não menosprezáveis enquanto parte de um todo com carácter universalizante.
A ética não assenta a sua razão na radicalidade do pensamento na medida em que se basta com as questões de Natureza Humana, sendo a realidade ambiental mais vasta do que isso. O Homem é uma parte da questão atendendo à “fugaz onticidade humana”. A ética que Cerqueira Gonçalves defendia era animada por uma vocação ontológica “não assente na vaga Natureza Humana, mas que tendo por horizonte o sentido de uma união comungante em exercício: do agir humano no mundo com o amor universal pela comunidade de todos os seres.”. A definição de ética aqui dada é de tal forma ambivalente que ultrapassa os limites da Natureza Humana e lança-se para uma abordagem universalizante que convoca o outro, os demais seres, e o agir humano animado pelo amor.
Com esta abordagem sobre o que deva ser a ética, Cerqueira Gonçalves assume a necessária união entre os saberes éticos e os poéticos, no sentido da criação de uma ética onde há espaço para o ideal humanista e também para homo faber, constatando que foi a cisão entre aqueles saberes que fez crescer as “ideologias de dominação” do homem sobre os outros seres. Nesta nova ética deverá haver lugar para o ser.
Assim sendo, assumindo a centralidade do ser no domínio ético, atinge Cerqueira Gonçalves a ideia de unidade por via do agir (ético) e do fazer (poiético) constitutivas do ser. Afastada fica a ideia de uma ética exclusivamente ligada à Natureza Humana. O discurso da ética passa assim a ser o discurso ontológico com toda a abrangência significante que isso acarreta.
Nesta análise, onde a ontologia assume preponderância, também o agir ganha dimensão sobre o fazer, sendo a ação um movimento de manifestação do ser-no-mundo. Esta centralidade dada ao ser, relega para segundo plano qualquer abordagem antropocêntrica, adotando Cerqueira Gonçalves o paradigma da comunidade pois é este que melhor nos ajuda a perceber o ser-no-mundo já não enquanto figura dominadora, mas nas relações de família e de amor que estabelece.
É seguindo esta linha de pensamento que conseguimos entender porque não serve falarmos de ecologia assente na ética e no direito sem quaisquer preocupações ontológicas ou metafísicas; nunca será possível cumprir uma lei se verdadeiramente não se amar todos os seres. A questão primeira, fundante e original é a da relação comunitária que dá sentido ao ser-no-mundo, radicando esta dinâmica relacional numa ontologia global.
Cerqueira Gonçalves fala-nos de uma “emergência ontológica global”. Será com base nesta emergência ontológica global que deverá nascer uma Filosofia do Ambiente, que retoma as questões do ser.
Este ser deve superar as fronteiras daquilo que diz respeito a uma ontologia negativa, que trata as questões do ser confinando-se a algumas categorias: essência, definição, diferença específica, géneros e espécies. Nesta ontologia, que chama de regional, confunde-se o ser com a natureza, afeta à lógica e à racionalidade enquanto instrumentos para estruturação da realidade.
É necessário regressar ao ser, sem que isso signifique regressar à Natureza ou à cultura. Só sendo possível fazer esse regresso ao nível ontológico, procurando a unidade entre todos os seres.
É através da ideia de participação e comunidade que este regresso ao ser se pode dar, seguindo o rumo da intimidade dos singulares, ausente do pensamento formalista de género e espécie. Será assim, para Cerqueira Gonçalves, uma ontologia personalista que vai além do humanismo.
É através da intimidade singular de cada pessoa que atingimos o ser, não será por via exclusiva das características humanas anónimas que conseguimos uma ontologia do ser-no-mundo.
Afasta-se de uma orientação monista pois na conquista do que seja o ser é de atender às diferenças ontológicas, o que implica aceitar uma ontologia de essência pluralista: “Unidade, pluralidade e singularidade harmonizam-se no interior do modelo comunitário.”
Esta lógica comunitária permite-nos perceber as fortes influências franciscanas no pensamento de Cerqueira Gonçalves e o teor da ontologia que preconiza. Há um sentido de participação e de dependência que perpassa a ideia de comunidade e que funda a ontologia por este preconizada.
Cerqueira Gonçalves afasta-se do conceito de Natureza por este estar ligado a uma ontologia de matriz tradicional associada ao formalismo da ciência, onde o ideal humanista assume todo o protagonismo e, de certa maneira, inspira o Homem na sua relação de dominação face à natureza.
Uma Filosofia do Ambiente, para Cerqueira Gonçalves, deve ambicionar ir além da Natureza e do saber ético, de uma ontologia de cariz tradicional procurando, ao invés, ir ao encontro do ser, seguindo uma ontologia global, onde a ideia de participação, comunidade, amor, que subjazem à dinâmica do encontro do ser-no-mundo. Encontrar a radical unidade do ser naquilo que de mais íntimo existe em cada pessoa, em cada plural e, nesse pressuposto pensar as questões ambientais.

