Sinopse John J. Mearsheimer, professor da Universidade de Chicago, é uma das maiores referências atuais dos estudos sobre relações internacionais. Em 2014, ele tomou a iniciativa de explicar que o alargamento da NATO à Ucrânia teria como consequência uma invasão russa e uma tremenda destruição daquele país e do seu povo. Assim sucedeu, oito anos […]
Sinopse
John J. Mearsheimer, professor da Universidade de Chicago, é uma das maiores referências atuais dos estudos sobre relações internacionais. Em 2014, ele tomou a iniciativa de explicar que o alargamento da NATO à Ucrânia teria como consequência uma invasão russa e uma tremenda destruição daquele país e do seu povo. Assim sucedeu, oito anos depois. Eis porque é importante conhecer esta figura e a sua obra.
O seu livro The Tragedy of Great Power Politics, em 2001, arrumou o Kenneth Waltz Theory of International Politics nas estantes e inaugurou um novo século de atenções. O livro enfrenta os contentinhos da Silva que embandeiraram em arco com a Queda do Muro e o colapso do Império Soviético, na mira de um «fim da História» (o Hegeliano mais deturpado conceito da actualidade), com a concórdia e a prosperidade universal de uma «comunidade internacional». Wait a minute, guys! – disse Mearsheimer. A realidade (cá está ela) é que «a política internacional sempre foi um negócio implacável e perigoso, e é provável que continue assim» (p. 2). O mundo está condenado a uma perpétua competição entre os grandes poderes. Daí que seja fundamental compreendê-la. Avança, então, com os seus três «factos» (M. adora listagens):
«1) a ausência de uma autoridade central, acima dos Estados, que possa protegê-los uns dos outros;
2) o fato de os Estados sempre possuírem alguma capacidade militar ofensiva e
3) o fato de os Estados nunca poderem ter certeza sobre as intenções dos outros Estados.» (p. 3)
Por isto, os Estados, com os «grandes poderes» à cabeça, inclinam-se para quanto mais poderosos forem relativamente aos seus rivais, melhores hipóteses terão de sobreviver e de se proteger. Esta busca de poder é «genuinamente trágica» e conduz ao incessante reforço da capacidade militar, ao assegurar de zonas estratégicas de defesa e… a confrontos, sempre que esse processo colidir com a lógica dos outros «grandes poderes», sobretudo se vivermos num sistema internacional de crescente poder multipolar como o que se ia instalando. Eis a teoria Mearsheimerista do realismo ofensivo, com a maior brevidade possível. Em suma, o reverso da de Kenneth Waltz e uma dor de cabeça para o mundo.
Como «o derradeiro teste de qualquer teoria é o de melhor explicar acontecimentos do mundo real», arranja-se, por aí, algum caso para exemplificar tanto Mearsheimerismo? Arranjou-se e com uma carninha da mais fresca possível. Em 2008, em Bucareste (era para ter sido em Portugal) e com a presença de uma nova celebridade chamada Vladimir Putin, o 20th NATO Summit «acolheu» o interesse da Geórgia e da Ucrânia em integrarem a famelga. «A NATO», dizia a declaração final, «dá as boas-vindas às aspirações euro-atlânticas da Ucrânia e da Geórgia de serem membros da NATO.» Acrescentando, «nós concordámos, hoje, que esses países venham a ser membros da NATO». E isto nas barbas de Putin!!!
Diga-se que J. J., entretanto, foi indo ao ginásio fortalecer a musculatura da coragem. Mesmo à beira de umas eleições presidenciais norte-americanas e perante a habitual louvaminhice pró-israelita de todos os candidatos, o nosso R. Wendell Harrison Distinguished Service Professor of Political Science at the University of Chicago entendeu meter-se com esse poderosíssimo lobby mundial. Publicou, com Stephen M. Walt, The Israel Lobby and U.S. Foreign Policy (2007; primeiro, em artigo na London Review of Books, de 23 de Março de 2006), afirmando mimos como estes:
«Não há… nenhuma razão moral convincente para o relacionamento acrítico e intransigente dos Estados Unidos com Israel… dado o brutal tratamento de Israel aos palestinianos nos territórios ocupados, considerações morais sugeririam que os Estados Unidos seguissem uma política mais imparcial em relação aos dois lados, e até mesmo mais a favor dos palestinianos.» (p. 5)
Oops! Que isto é mesmo forte e serviu a canídeos para, no mínimo (vide «Israel and academic freedom», 2015), lhe colarem um rótulo de antissemita para toda a eternidade. Perante isto, ter-se oposto à Guerra do Iraque e avisado, antecipadamente, que seria um desastre, foi muito mais suave – mas adiante, porque o que nos interessa aqui é o embate seguinte. O Summit da NATO foi uma cereja no topo do chantilly de festança de arromba para o nosso herói de Chicago. Passaria de teórico a profeta (… de desgraças).
(continua)
* Este texto é a segunda parte de três que a Líder publicará. Foi inicialmente escrito para integrar um livro que um conjunto de académicos portugueses entendeu editar sobre a atual situação internacional. Como, entretanto, esse projeto editorial fracassou, aqui fica como algo que oxalá seja útil para o conhecimento destas matérias.
Referências
John J. Mearsheimer, The Tragedy of Great Power Politics, New York, W. W. Norton & Company, 2001.
John J. Mearsheimer, The Israel Lobby and U.S. Foreign Policy, New York, Farrar, Straus and Giroux, 2007.
John J. Mearsheimer, «Israel and academic freedom», in Akeel Bilgrami and Johnathan R. Cole, eds., Who is Afraid of Academic Freedom?, New York, Columbia University Press, 2015, pp. 316-333.
John J. Mearsheimer and Stephen M. Walt, «The Israel Lobby», London Review of Books, 28 (6), March 23, 2006, pp. 3-12.
Kenneth Waltz, Theory of International Politics, New York, 1979, McGraw-Hill, 1979.

