O silêncio é sonho único de vida. Sempre que me interrogo sobre o futuro, há um cenário certo, pormenorizado, específico. Uma pintura, outra pintura e tantas mais em alinhamentos de repouso. O silêncio da observação, acompanhado por pensamento sem fim. Passar o resto dos meus dias nesse silêncio, em pausas prolongadas, a contemplar obras de arte, […]
O silêncio é sonho único de vida. Sempre que me interrogo sobre o futuro, há um cenário certo, pormenorizado, específico. Uma pintura, outra pintura e tantas mais em alinhamentos de repouso. O silêncio da observação, acompanhado por pensamento sem fim. Passar o resto dos meus dias nesse silêncio, em pausas prolongadas, a contemplar obras de arte, acertos de pedra, poesias e cor, entre outras mais voltas de mão. Um gesto contínuo de olhar em silêncio para o mundo.
Em tempos de aceleração e de exaustão, a iniciativa Open Conventos 2024 propôs uma reflexão urgente: o que nos resta do silêncio e da pausa no século XXI? Num dia de maio, iluminado por uma primavera subtil, à sala onde as paredes guardavam ecos e tranquilidades que desafiam o ruído juntaram-se para, uma conversa aberta, cinco pessoas, de distintas áreas, para conversar sobre Pausa e Silêncio, numa sociedade que se esquece de como parar.
Ana Margarida de Carvalho, romancista e jornalista, trouxe a experiência de uma vida dedicada às palavras e a necessidade de silêncio, em busca das palavras. A pausa é onde a vida acontece. É no intervalo entre as palavras que a história se forma. O espaço vazio nos textos, tal como nas vidas, permite que a criação surja. Os seus livros revelam-nos que o ritmo de uma narrativa é tanto sobre o que é dito quanto sobre o que é omitido.
Inês Tavares Lopes, maestra, reforçou o papel essencial do silêncio na música: «Sem pausa, não há melodia; o silêncio é o que dá forma ao som.» Como maestra adjunta do Coro Gulbenkian, explicou como o silêncio entre as notas não é feito de vazio, mas o momento em que a música respira e se torna compreensível.
O P. João Norton, arquiteto e jesuíta, trouxe a ligação entre a arquitetura e a espiritualidade, ao defender que o espaço vazio é tão significativo quanto o espaço ocupado. O silêncio é o elemento central na criação de ambientes que convidam à contemplação e à introspecção, algo aprendido tanto na arquitetura quanto na vivência espiritual.
As irmãs Anatália e Mailys, monjas de Belém, compartilharam a prática diária de um silêncio que transcende o ruído: «Quando silenciamos, descobrimos que há algo para ser ouvido». Para as monjas, o silêncio é uma escuta ativa, uma forma de se reconectarem com o divino e consigo mesmas.
Este breve retrato de uma breve conversa, entre pessoas de tão variadas funções, sobre a importância do Silêncio e da Pausa nas nossas vidas, quer pessoais, quer profissionais, remete-nos imediatamente para a pergunta: O que andamos nós a fazer ao mundo, se pouco o escutamos, se quase não o olhamos?
Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano, que tanto gosto de ler, alerta-nos no seu livro O Aroma do Tempo (Relógio D’Água) que vivemos sem tempo para nos demorar nas coisas, pois já não estamos familiarizados com a pausa. O tempo perde o seu aroma. Inspiremo-nos nesta ideia: o silêncio e a pausa podem ajudar-nos a reencontrar a essência do tempo.
Há cerca de sete anos, decidi sair de Lisboa para viver no campo. A busca pelo silêncio inexistente numa profissão obrigatoriamente exercida em espaço aberto, de televisões aos berros, de gente a passar em corrida ininterrupta, de luzes brancas em camadas intensamente incomodativas, levou-me à Aldeia do Silêncio. Bem que poderia ser este o seu verdadeiro nome. Desde essa altura, a recuperação dos dias atribulados, dos ruídos stressados, dos atropelos do pensamento, acontece por aqui, neste lugar de onde vos escrevo. Aqui, a pausa é feita de passeios entre vinhas, de cheiros a cidreira nascida no pomar, de ventos ouvidos. Atualmente, a pausa é um ato de resistência, contra a obsessão da conexão. Parar não é apenas um momento de descanso. É essencialmente um valor ético. A pausa é a oferta à contemplação, a negação do excesso. O desejo de futuro passa por esta Aldeia do Silêncio e pelas pausas feitas nos corredores dos museus do mundo inteiro.
A questão primordial permanece: que pessoas queremos ser? A resposta pode estar na assunção de que o mundo é um lugar melhor onde o silêncio e a pausa são necessidades fundamentais e não luxos ou exuberâncias.
Se pararmos, poderemos começar a ouvir.
E a ouvir, em silêncio, saberemos imaginar.
BIO
Como jornalista, trabalhou na RTP entre 1996 e 2023, onde desempenhou funções de Editora de Arte e Cultura e foi Autora e Coordenadora do programa “As Horas Extraordinárias”, transmitido na RTP3, de 2015 a 2023. Foi também Autora da crónica diária homónima na Antena 1 entre 2021 e 2023. Hoje, escreve a crónica “Um quarto que seja seu”, publicada no Jornal de Letras e frequenta o doutoramento em Media e Sociedade na Universidade Autónoma de Lisboa, como bolseira de mérito.
Este artigo foi publicado na edição nº 28 da revista Líder, sob o tema Silêncio. Subscreva a Revista Líder aqui.

