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Denise Calado

Mulheres de Armas

8 Março, 2022 by Denise Calado

No momento que escrevo este texto estou no Parlamento Europeu (PE), um dos palcos da decisão dos últimos dias, nesta guerra em território ucraniano que ninguém queria e que todos tentaram evitar. Estou num sítio que designamos por ‘passerelle’, que faz jus ao nome: uma zona de café onde todas as pessoas passam para ver e ser vistas. Faz parte da vida, faz parte do jogo.

Mas hoje este sítio está diferente. A vida, as conversas, as gargalhadas, que nos davam sinal de recuperação da pandemia ficaram em suspenso. Agora há conversas, naturalmente, mas num simples exercício de análise à distância, de ouvir mais e falar menos, é possível perceber que não há a alegria normal do burburinho constante da vida política. A guerra, de certa forma, paralisou-nos, também aqui. Há quase um segredar de palavras, de entusiasmo, como que com medo de se ser eufórico.

Faço esta introdução para dizer que aqui também há receio, há pausa e ponderação, mas que é aqui que estão, para mim, dos melhores exemplos de liderança que temos visto nos últimos dias.

As lideranças femininas que tantos apregoavam, ambicionavam e defendiam têm tido, neste tempo, um papel absolutamente fundamental.

A Presidente da Comissão Europeia (CE), Ursula Von Der Leyen, e a Presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, fizeram, na sessão extraordinária de plenário desta semana, discursos que me enchem de orgulho de fazer parte desta família europeia. Uma liderança com humanismo, com a força e assertividade, que não deixam margem para dúvidas.

Dir-me-ão: estas mulheres são apenas representativas de uma estrutura, na realidade, não podem decidir nada. Discordo. Na realidade, podem fazer e muito. Podem cativar, podem mostrar ao mundo os seus reais valores, podem mostrar ao outro lado o que não vão aceitar, podem enviar esperança e força para quem está em situação vulnerável, podem dizer ‘contem connosco’.

“Agressores e belicistas não têm lugar na casa da democracia”, disse Roberta Metsola para centenas de pessoas que se juntaram frente ao PE, na tarde da última 3a feira. Antes, Ursula von der Leyen já tinha dito que “Este é um momento de verdade para a Europa. A forma como respondermos hoje ao que a Rússia está a fazer determinará o futuro do sistema internacional. Temos de mostrar o poder que está nas nossas democracias”.

Mais do que condenar é preciso marcar posição, é preciso criar pontes com as pessoas. Gosto de pessoas que não saltam etapas, que percebem o seu lugar, que tentam, por todos os caminhos possíveis, encontrar um ponto de convergência e resolução. E é por isso que estamos expectantes, porque os sinais são positivos. Saber resistir é firmar palavra, é marcar posição, é actuar de forma a que nos vejam como líderes. Estas duas mulheres têm feito isso. Enquanto cidadã europeia é um orgulho enorme fazer parte deste momento da História que nos dá medo, sim, mas nos devolve fé e inspiração, em doses absolutamente iguais.

É claro que o mundo não vai ficar igual. Ninguém vai ficar igual, qualquer que seja o desfecho. É nestes momentos difíceis em que todos somos colocados à prova que surgem os verdadeiros heróis capazes de provocar em nós mais união, mais força, mais humanidade, mais esperança.

 

Arquivado em:Opinião

Oito mulheres inspiradoras

8 Março, 2022 by Denise Calado

Marcava o calendário o ano de 1977 quando a Organização das Nações Unidas proclamou o 8 de março como o Dia Internacional da Mulher. Esta data, que vem relembrar as conquistas das mulheres no decorrer da história, vem também recapitular a luta contra o preconceito e desigualdade de direitos, que ainda se manifestam em pleno século XXI.

É também o tempo ideal para se falar de mulheres, também elas líderes, inspiradoras, nas suas mais diversas áreas. Empresárias, artistas, investigadoras, ativistas, políticas, e muitas outras que marcam a diferença. É no contexto de as dar a conhecer que vem a primeira edição da iniciativa “40 over 40” do projeto Fe:maleOneZero (F10), que, juntamente com a Capgemini, vem eleger as mulheres mais inspiradoras do mundo. Estão, entre elas:

Kaja Kallas

A primeira mulher a ser Primeira-Ministra da Estónia, há muito que mantém uma visão realista sobre os conflitos entre a Ucrânia e a Rússia e as decisões de Putin. “Não se pode negociar com alguém que te aponta uma arma” afirmou. Tem afincadamente desafiado o Kremlin com as suas relações aos aliados da NATO e da União Europeia, e apoiado os ucranianos com armamento, defensores de cibersegurança e excelência digital.

 

Ngozi Okonjo-Iweala

Ministra nigeriana das Finanças e dos Negócios Estrangeiros é também a primeira mulher africana a ser Diretora Geral da Organização Mundial do Comércio. Em criança, carregou a irmã durante cinco quilómetros até ao hospital mais próximo, empurrando por entre uma multidão de 600 pessoas e subindo por uma janela de forma a garantir que era atendida. A sua atual tarefa, embora não tão dramática, também necessita de vontade e assertividade para impulsionar o comércio. “Acredito que quando se encontram problemas, também se deve encontrar soluções”.

Brandi Carlile

A cantora e compositora, seis vezes vencedora de Grammy, usa a sua voz e palavras para unir as pessoas, e a sua abertura para partilhar experiências da sua vida pessoal incentivam a conexão. Eterna defensora das mulheres, é também um ícone da comunidade LGBT, filantropa, empresária, e está nomeada para cinco Grammy’s neste ano, e “Broken Horses” está na lista de reprodução do Best of 2021 do Spotify de Barack Obama

Elif Shafak

A romancista turco-britânica oferece uma poesia simultaneamente moderna e mística, feminina e feminista, amorosa e assombrosa, em 19 livros que representam um manifesto para a igualdade, valores liberais e tolerância. É com o seu livro “The Fourty Rules of Love” que chega à essência do que precisamos de ouvir nestes tempos mais difíceis: o amor não pode ser explicado e, ainda assim, explica tudo.

Isatou Ceesay

A ativista e empreendedora social, já aos 25 anos, no ano de 1997, começou a reutilizar sacos de plástico que eram descartados para fazer novos e vender. Desta ideia de “Trash to Treasure” (lixo ao tesouro) nasceu a Women’s Iniciative Gambia, que, não só veio criar trabalho e garantir rendimento às mulheres da Gambia, como veio também proteger o ambiente. Também conhecida como a “Rainha da Reciclagem”, é um exemplo de vida como se tudo pode transformar, quando assim bem o queremos dentro de nós.

Linda Zhang

Com o trabalho de trazer mudanças às autoestradas, vias aéreas, parques e entradas nos Estados Unidos da América, a Chief Nameplate Engineer da Ford está por detrás do F-150 Lightning, o veículo elétrico que apela a modelos de transporte mais verdes. Foi reconhecida pela TIME Magazine como uma das pessoas que trabalha para cumprir a agenda da COP26.

Beatriz Faro

A líder da Unidade de Negócios Inflammation & Immunology da Pfizer, da América do Norte e Canadá, e presidente da Global Women Network, é oradora sobre temas de diversidade e equilíbrio da vida pessoal e profissional. Em 2019 recebeu o prémio Luminary pela US Healthcare Businesswoman Association, pelo impacto nos objetivos de paridade de género. Tem como lema #womenwillwin!, relembrando que as mulheres podem conquistar tudo.

 

Jane Goodall

A Primatologista e ativista ambiental compromete-se há mais de 60 anos com os chimpanzés da Tanzânia e a conservação da natureza. Foi o primeiro ser humano a observar macacos e a publicar as suas descobertas, partilhando informações que vieram a mudar a forma como os vemos. Ainda aos 87 anos mantém a mesma sede de conhecimento e amor à natureza, falando sobre as ameaças que os chimpanzés enfrentam, sobre crises ambientais, e sobre as suas razões de esperança para que consigamos resolver os problemas que, nós próprios infligimos ao Planeta Terra, relembrando que “o maior perigo para o nosso futuro é a nossa apatia”.

 

Por Patrícia Monsanto

Arquivado em:Artigos, Leadership

Dedicação, paixão e erro – os traços de uma liderança sem género

8 Março, 2022 by Denise Calado

Camilla Giesecke assumiu há um ano o cargo de Chief Expansion Officer da Klarna, uma das Fintech mais promissoras da Europa, que no final de 2021 entrou no mercado português. Fundada em 2005, com cerca de cinco mil colaboradores e mais de 100 nacionalidades, a Klarna é dos principais serviços globais de pagamentos e compras online. Após um variado percurso profissional na área financeira e na banca, e em que até fundou o seu próprio negócio na área da moda, Camilla Giesecke é hoje a líder da expansão global da empresa, para além de mãe de três filhos pequenos que no seu tempo livre gosta de andar a cavalo, tocar viola e cantar. É também uma grande defensora das mulheres que assumem posições de liderança que diz não ter género.

A Klarna entrou no final de 2021 no mercado português, seguindo um plano de expansão global liderado por si. Como está a correr?

Portugal foi o quinto país para onde expandimos os nossos serviços depois da Nova Zelândia, França, Polónia e Irlanda. O nosso objetivo em todos os nossos 20 mercados é ajudar os consumidores a pouparem tempo, dinheiro e a tomarem decisões informadas, além de sermos também um parceiro de crescimento para os retalhistas. A construção de operações num novo mercado é definitivamente um desafio, pelo que a nossa equipa no terreno é fundamental e está a crescer rapidamente. Com o lançamento a ter acontecido há apenas quatro meses, prevemos um futuro de sucesso para a Klarna em Portugal. Além disso, a app de compras também permite que os nossos utilizadores comprem com a Klarna em qualquer loja online.

 

Como vê a continuidade do plano, sendo que hoje é inquestionável o peso e a presença do online na vida de todos. Há alguns “pontos fracos”, ou apenas coisas positivas?

Acredito que temos de olhar para as oportunidades que a revolução digital está a criar e desafiar-nos a torná-la melhor. Melhor, que significa experiências de consumidor mais seguras, rápidas e inspiradoras. Os estudos de mercado mostram como os consumidores estão ansiosos para se tornarem mais digitais na forma como compram, como pagam e como fazem as transações bancárias. Os pagamentos online, digitais e flexíveis, oferecem aos consumidores mais opções e controlo sobre a forma como pagam, assim como poupam tempo e dinheiro. Ao mesmo tempo, para as marcas, esta é uma oportunidade de desbloquear o crescimento e acertar na logística que envolve o processo de compra. Um bom exemplo que os nossos insights mostram, é que a grande maioria dos consumidores compraria online com mais frequência se pudesse receber primeiro a encomenda, antes de pagá-la na totalidade. Quanto aos pontos fracos, esses significam oportunidades! Acreditamos que a loja física irá também evoluir para o bem dos consumidores e iremos investir para tornar essa experiência tão boa como o online, assim como totalmente integrada.

 

Como uma das Fintech mais valiosas da Europa, de que forma estão a implementar os vossos objetivos de promoção de bem-estar financeiro (financial wellness)?

O bem-estar financeiro está realmente no centro do nosso negócio e é algo pelo qual sou pessoalmente apaixonada. Aliás, os nossos principais investimentos são em produtos, serviços e em marketing para a promoção do bem-estar financeiro. Os consumidores devem, em primeiro lugar, pagar com o dinheiro que têm. Ponto final. É por isso que estamos a oferecer a nossa opção ‘Pay Now’. Através das opções ‘Pay Later’, ajudamos os consumidores a mudarem de cartões de crédito caros para cartões de débito, fornecendo o acesso ocasional ao crédito quando necessário, sem juros e sem taxas, e com um cronograma de pagamento regular e a curto prazo. Queremos capacitar os consumidores a assumir o controlo das suas finanças e a gastar dinheiro de forma sustentável. O nosso modelo de negócio é baseado nas pessoas que nos pagam a tempo – porque não cobramos juros nem dependemos de taxas de atraso. Assumimos todos os riscos da transação. Os nossos objetivos estão, por isso, muito alinhados com os do consumidor – contamos com pessoas que gastam com responsabilidade e cumprem os seus pagamentos. Da mesma forma, continuaremos a desempenhar um papel ativo para garantir que as pessoas tenham as ferramentas e os recursos para gerirem as suas finanças.

 

Da perspetiva da gestão de pessoas, e com mais de cinco mil colaboradores, como estão a enfrentar os desafios na atração e retenção de talento?

O que pretendemos alcançar não é fácil, por isso precisamos de garantir que nós, e as pessoas que trazemos para a Klarna, são ousadas e irracionais o suficiente para assumir riscos e aceitar nada para além do melhor. Tendo expandido para cinco novos mercados em apenas um ano e com um ambicioso plano de expansão para 2022, a contratação das melhores pessoas é uma prioridade para nós, e mostra o nosso compromisso em proporcionar aos nossos consumidores a melhor experiência de compra. O talento também atrai talento, por isso o processo de contratação é fundamental.

 

Alguma vez sentiu desigualdade pelo facto de ser mulher?

A mudança por vezes exige sacrifícios e batalhas, e eu tentei escolher as minhas com cuidado. Também encontrei o preconceito típico e o tratamento desigual que muitas mulheres já experienciaram, assim como muitos outros indivíduos com origens diferentes da maioria. Também tive a sorte de conhecer muitas pessoas justas e solidárias ao longo do caminho, especialmente na Klarna. Para mim, tentar ser solidária e generosa na forma como trato as outras pessoas, especialmente aquelas que provavelmente me irão superar, é realmente algo que quero fazer e deixar como marca para o futuro. Quando se trata da minha vida pessoal, de facto, na minha família, não se fala sobre equilíbrio entre vida profissional e pessoal. Vemos essas partes da vida como bastante integradas. O meu marido e eu concordamos que, por enquanto, ele está a assumir mais responsabilidades em casa, pois os nossos três filhos ainda são pequenos. Para mim, a melhor forma de alcançar o equilíbrio na vida é sentir que estou a gastar o meu tempo em algo significativo, e que me dá energia. Eu não trabalho muito apesar da minha família, mas sim eu trabalho muito para a minha família.

 

Por que liderar no feminino é diferente e quais os traços inconfundíveis dessa liderança?

Não tenho a certeza se a liderança feminina é diferente. Na minha opinião, a liderança não tem género e é algo que todos devemos desenvolver, independentemente da idade, sexo ou do lugar que ocupamos na hierarquia de uma organização. Para mim, liderança significa dar o meu melhor, mostrar tanta paixão e dedicação que as outras pessoas também se inspirem a unir forças connosco. Isso também significa coragem para tentar e falhar – falhar significa que estamos a seguir em frente, falhar é bom. O feedback (bom e mau) que recebo fala mais da minha personalidade do que de traços que supostamente estariam ligados ao género, na minha opinião.

 

Hoje é dia internacional da mulher e segundo os dados do Women in Digital Scoreboard 2021, apenas um terço dos licenciados em Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM) são mulheres. O que diria às raparigas e mulheres que escolhem esta área ou que se questionam sobre as suas capacidades?

Conheço todos os dias grandes mulheres na área da tecnologia e gostaria que nenhuma delas questionasse as suas competências, pois certamente estão ao mesmo nível dos homens! A criação de melhores pré-requisitos para a igualdade de género exige que indivíduos ousados ​​e com visão de futuro assumam a liderança. Tenho a sorte de ter encontrado esse líder no Sebastian Siemiatkowski, CEO e fundador da Klarna. Eu tento ser eu mesma! Acredito que a mudança também requer modelos, e não ser a “única”. Para as mulheres e raparigas que consideram uma carreira em tecnologia, eu citaria Michelle Obama no seu livro “Becoming”: “Nunca tome decisões com base no medo. Tome decisões com base na esperança e na possibilidade. Tome decisões com base no que deve acontecer, não no que não deve.”

 

 

Por Rita Saldanha

Arquivado em:Entrevistas, Leadership

Se Putin fosse uma mulher?

8 Março, 2022 by Denise Calado

Esta não é pergunta que mais preocupa o mundo neste momento, mas é a pergunta que devemos fazer quando comemoramos o Dia Internacional da Mulher, assim declarado pelas Nações Unidas, em 1977. Contudo, antes dessa data, no dia 8 de março de 1917, uma onda de protestos contra a fome, organizado por mulheres operárias, tomou conta da Rússia e acabou por conduzir à Revolução.

Após a Revolução bolchevique, esta data é reconhecida entre os soviéticos para celebrar a “mulher heroica e trabalhadora”.

 

Na semana passada Putin, antecipando talvez as comemorações, reuniu um grupo de mulheres para falar sobre o atual conflito na Ucrânia e manteve a sua narrativa, as suas ameaças e a sua típica maneira de pensar e liderar que muitos já designaram como autoritária, imperialista, ressentida, até paranoica. Eu diria, meramente logico-dedutiva com utilização de premissas viciadas pelo ressentimento ou pela megalomania. Não sei o que disseram as mulheres, e muito menos o que pensavam enquanto ouviam o seu “czar”, mas acredito que se fossem elas no lugar de Putin, não soariam sirenes em Kiev.

 

Em tempos, entrevistei uma filósofa portuguesa, Maria Luísa Ribeiro Ferreira, que tinha acabado de publicar o livro “As Mulheres na Filosofia”. Durante essa conversa perguntei “se havia uma razão de género feminino e outra de género masculino?” Maria Luísa respondeu: “Entendo que na racionalidade há muitas moradas, ou seja, há muitas maneiras de nos situarmos na razão. Ora, tem sido indevidamente associado a um modo masculino de pensar o facto de se dar realce a uma razão dedutiva, argumentativa e lógica. Considera-se como modelo a racionalidade geométrica. Mas esse conceito de razão tem de ser alargado e para isso serve muito a experiência e o “modus vivendi” das mulheres. O que não quer dizer que se possa falar dicotomicamente de uma razão masculina oposta a uma razão feminina. Toda essa experiência e trabalho feitos sobre o modo feminino de pensar, de fazer filosofia, de raciocinar, de praticar a ciência, etc, poderão vir a contribuir para um conceito alargado de razão.”

 

Alargar o conceito de razão através da introdução da dimensão feminina e do seu modo de pensar, seria o modo ideal de pensar, ou como nos disse a filósofa francesa Sylviane Agacinski, o desenvolvimento de uma razão mista. É esta pensadora que introduz o conceito “mixité”, no âmbito da análise filosófica da razão. Esse misto é no fundo o que nos define como seres humanos. Trata-se do resultado de uma dialética, de um diálogo permanente entre dois modos de estar no mundo que não são idênticos. O modo feminino e o modo masculino.

Alguns filósofos foram muito preconceituosos em relação às mulheres, como aliás explica Maria Luísa Ribeiro Ferreira: “Baruch Espinosa era muito preconceituoso relativamente às mulheres. No final do seu Tratado Político, diz que as mulheres não podem participar num governo democrático, pois por natureza não foram feitas para isso.”

 

Espinosa terá chegado a essa conclusão porque conseguiu identificar uma forma de pensar diferente, embora o tenha feito de uma maneira negativa, rejeitando a possibilidade de as mulheres terem uma participação ativa no governo de um estado, ele entendeu que há duas realidades distintas. Era aqui que queria chegar. Há duas maneiras diferentes de pensar. E por isso, se Putin fosse mulher não seria este o teatro a que estaríamos a assistir.

 

O que podia mudar no nosso mundo se, de facto, esta razão feminina ganhasse dimensão. Se tivéssemos mais mulheres a liderar, segundo Maria Luísa Ribeiro Ferreira, “haveria um sentido de realidade muito maior, uma atenção à prática, uma capacidade de diálogo e de procura de pontos comuns. Não pretendo dizer que as mulheres sejam melhores do que os homens, mas constato que as mais das vezes têm certos dons propícios ao estabelecimento de consensos.” E se Putin fosse uma mulher? Eu diria que talvez tivesse conseguido melhores resultados no campo da diplomacia e não teria atingido o ponto de não retorno que levou a uma ofensiva militar. Não há uma mulher na mesa das negociações entre a Ucrânia e a Rússia, e é talvez isso que falta, para que não tenhamos de experimentar uma terceira Guerra Mundial.

 

Há também uma outra dimensão da razão, a chamada razão experimental – ou também razão poética, assim definida por María Zambrano. Esta é a razão que nos serve para tomar decisões que não se fundamentam exclusivamente no pensamento crítico, matemático, lógico-dedutivo. Este tipo de racionalidade convoca também o ponto onde a alma dói, onde a natureza se verga, onde a ética do cuidado impera e permite ao pensamento lógico-dedutivo corrigir-se ou adaptar-se.

As boas decisões, as decisões justas, têm na sua base um modo de pensamento livre que não é refém de exclusivismos matemáticos, de pensamento crítico e lógico-dedutivo. É o modo de pensar feminino, inspirado na ética do cuidado, do consenso e do diálogo. A razão ideal é o resultado desta união. De um modo masculino e feminino de pensar.

Na semana passada, em derradeiro desespero de causa, tocava-se piano na fronteira da Polónia com a Ucrânia na esperança de que a música tocasse no coração de Putin e o comovesse. No fundo, um apelo a que Putin fosse mulher por uns minutos. Isto porque a razão comovida é a que impede o homem de transformar o mundo num inferno. Se Putin fosse uma mulher teria ouvido esta música no Kremlin e teria pedido um imediato cessar-fogo para negociar, para cuidar dos milhares de pessoas que sofrem e que não vão esquecer que Putin é um homem só, que não ouve, não vê, não sente. Putin está perdido no meio de uma história de czares.

Arquivado em:Opinião

A loucura de Putin

7 Março, 2022 by Denise Calado

A semana que passou foi fértil em discussões e perfis sobre a saúde mental de Putin. Como seria expectável, uns defendem que o ditador russo está são, ao passo que outros explicam que estará mentalmente perturbado. Não pretendendo traçar um perfil, para o que nem estou habilitado, proponho outra explicação: e se Putin for mais um caso de hubris?

Hubris é a palavra que os gregos usavam para referir a doença dos poderosos. Eis a ideia: o poder sobe à cabeça e altera a maneira como pensamos. A habituação cria potencialmente grande desinibição, levando os poderosos à aprendizagem de que tudo lhes é permitido. Nos casos mais graves acabam mesmo por desenvolver um pensamento messiânico, que lhes atribui o poder, quasi-divino, de completar uma missão de fundamental importância. Estes personagens tornam-se particularmente destrutivos quando o seu comportamento gera a ideia de que são alvo das maiores conspirações.

O mundo está infelizmente cheio de vítimas da hubris. Putin será o caso mais visível, mas Trump foi-o também, tal como tratado por David Owen em Hubris: The road to Donald Trump. Na Etiópia Abiy Ahmed repete o padrão. Nas empresas, é possível que muitos escândalos recentes tenham sido precipitados pela patologia hubrística. A doença não pode ser erradicada porque nós, humanos, somos vulneráveis às tentações. Mas pode ser mitigada com uma medicina eficaz: boas instituições, com pesos e contrapesos. Colocar todos os ovos no mesmo saco é o maior dos males, como o caso russo atesta.

PS1. A Rússia até pode ocupar toda a Ucrânia mas já perdeu a guerra. Não desuniu a Ucrânia nem o Ocidente. Provou a Putin quão errada era a sua ideia de que a Ucrânia não é uma nação. Putin fez do seu país um Estado pária, apenas apoiado pelas piores companhias. Uma desgraça.

PS2. Os exemplos de coragem dos militares e dos cidadãos comuns ucranianos são inesquecíveis. Os dos russos que se manifestam contra o ditador também. Para a História guarda-se o exemplo de Elena Osipova. Aos 77 anos, mostrou que a coragem não escolhe idades. Um exemplo para todos.

PS3. Não tomemos a nuvem por Juno. Tolstoi continua a ser recomendável e a comunidade russa que cá e lá vive não cometeu nenhum crime. Os cidadãos não são o regime.

PS3 Noutro domínio, partiu Mark Lanegan. A sua música fica connosco. Blues Funeral é um dos dez ou vinte discos da minha vida. Obrigado, Mark.

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Hélder Garcês é o novo Country Sales Manager da Cegid Meta4

7 Março, 2022 by Denise Calado

Hélder Garcês é o novo Country Sales Manager em Portugal da Cegid Meta4, empresa especialista em soluções de gestão na cloud para profissionais nas áreas das Finanças, RH, Contabilidade e Retalho.

Nas suas novas funções, o novo Country Sales Manager tem como objetivo auxiliar os clientes deste mercado estratégico para a empresa, a alinhar a sua gestão de RH com a estratégia corporativa, para além de reforçar a posição da empresa em Portugal através de uma oferta de soluções de folha de pagamento e talento SaaS líder no mercado.

“O meu desafio e ambição é posicionar as soluções da Cegid, ao Mercado português, para a digitalização de todos os processos de Recursos Humanos. A minha energia será essencialmente focada, não apenas em sermos os melhores, mas a construir algo novo e significante, que permita suportar os Recursos Humanos em tempos tão desafiantes como os que atravessamos.” comenta Hélder Garcês.

Patrícia Santoni, Diretora Geral da Cegid na Iberia, refere: “Estamos muito satisfeitos que o Hélder tenha decidido aceitar o desafio, e não tenho dúvidas que a sua vasta experiência no setor e grande conhecimento dos nossos clientes e parceiros garantirão o sucesso da nossa ambição em Portugal, um mercado que é muito estratégico para nós”.

 

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