No momento que escrevo este texto estou no Parlamento Europeu (PE), um dos palcos da decisão dos últimos dias, nesta guerra em território ucraniano que ninguém queria e que todos tentaram evitar. Estou num sítio que designamos por ‘passerelle’, que faz jus ao nome: uma zona de café onde todas as pessoas passam para ver e ser vistas. Faz parte da vida, faz parte do jogo.
Mas hoje este sítio está diferente. A vida, as conversas, as gargalhadas, que nos davam sinal de recuperação da pandemia ficaram em suspenso. Agora há conversas, naturalmente, mas num simples exercício de análise à distância, de ouvir mais e falar menos, é possível perceber que não há a alegria normal do burburinho constante da vida política. A guerra, de certa forma, paralisou-nos, também aqui. Há quase um segredar de palavras, de entusiasmo, como que com medo de se ser eufórico.
Faço esta introdução para dizer que aqui também há receio, há pausa e ponderação, mas que é aqui que estão, para mim, dos melhores exemplos de liderança que temos visto nos últimos dias.
As lideranças femininas que tantos apregoavam, ambicionavam e defendiam têm tido, neste tempo, um papel absolutamente fundamental.
A Presidente da Comissão Europeia (CE), Ursula Von Der Leyen, e a Presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, fizeram, na sessão extraordinária de plenário desta semana, discursos que me enchem de orgulho de fazer parte desta família europeia. Uma liderança com humanismo, com a força e assertividade, que não deixam margem para dúvidas.
Dir-me-ão: estas mulheres são apenas representativas de uma estrutura, na realidade, não podem decidir nada. Discordo. Na realidade, podem fazer e muito. Podem cativar, podem mostrar ao mundo os seus reais valores, podem mostrar ao outro lado o que não vão aceitar, podem enviar esperança e força para quem está em situação vulnerável, podem dizer ‘contem connosco’.
“Agressores e belicistas não têm lugar na casa da democracia”, disse Roberta Metsola para centenas de pessoas que se juntaram frente ao PE, na tarde da última 3a feira. Antes, Ursula von der Leyen já tinha dito que “Este é um momento de verdade para a Europa. A forma como respondermos hoje ao que a Rússia está a fazer determinará o futuro do sistema internacional. Temos de mostrar o poder que está nas nossas democracias”.
Mais do que condenar é preciso marcar posição, é preciso criar pontes com as pessoas. Gosto de pessoas que não saltam etapas, que percebem o seu lugar, que tentam, por todos os caminhos possíveis, encontrar um ponto de convergência e resolução. E é por isso que estamos expectantes, porque os sinais são positivos. Saber resistir é firmar palavra, é marcar posição, é actuar de forma a que nos vejam como líderes. Estas duas mulheres têm feito isso. Enquanto cidadã europeia é um orgulho enorme fazer parte deste momento da História que nos dá medo, sim, mas nos devolve fé e inspiração, em doses absolutamente iguais.
É claro que o mundo não vai ficar igual. Ninguém vai ficar igual, qualquer que seja o desfecho. É nestes momentos difíceis em que todos somos colocados à prova que surgem os verdadeiros heróis capazes de provocar em nós mais união, mais força, mais humanidade, mais esperança.
Kaja Kallas
Brandi Carlile
Isatou Ceesay
Beatriz Faro
Camilla Giesecke assumiu há um ano o cargo de Chief Expansion Officer da Klarna, uma das Fintech mais promissoras da Europa, que no final de 2021 entrou no mercado português. Fundada em 2005, com cerca de cinco mil colaboradores e mais de 100 nacionalidades, a Klarna é dos principais serviços globais de pagamentos e compras online. Após um variado percurso profissional na área financeira e na banca, e em que até fundou o seu próprio negócio na área da moda, Camilla Giesecke é hoje a líder da expansão global da empresa, para além de mãe de três filhos pequenos que no seu tempo livre gosta de andar a cavalo, tocar viola e cantar. É também uma grande defensora das mulheres que assumem posições de liderança que diz não ter género.