Os momentos iniciais e finais de um debate, são oportunidades de ouro para os candidatos convencerem e persuadirem o eleitorado. A maior ou menor competência dos candidatos a Presidente dos Estados Unidos para apresentarem mensagens claras, fazendo uso nomeadamente de uma linguagem enfática, aliada ao uso eficaz dos sinais não-verbais e de uma argumentação e de um storytelling eficaz, são fundamentais para gerir perceções de credibilidade e proximidade, fatores essenciais para ganharem a confiança do eleitorado, nomeadamente, dos indecisos.
No debate a que assistimos esta noite, falhar na preparação significa estar preparado para falhar. Neste sentido, os candidatos centraram-se, nos últimos dias, em preparar adequadamente as suas estratégias de comunicação verbal e não-verbal, para procurarem tirar o máximo partido do debate e influenciar as pessoas que se encontravam do outro lado do ecrã.
Um exemplo marcante da influência dos comportamentos não-verbais na perceção pública ocorreu durante o debate presidencial de 1992, entre George H.W. Bush, Bill Clinton e Ross Perot. Quando Bush olhou para o seu relógio, muitos interpretaram esse gesto como uma demonstração de desinteresse ou impaciência relativamente ao debate, tendo criado um contraste desfavorável com a postura de Bill Clinton, que se revelava mais cativante e empático diante das preocupações dos eleitores.
As prestações de Kamala Harris e Donald Trump refletem não só as suas capacidades de comunicação individuais, mas também a forma como respondem às dinâmicas e às expectativas dos respetivos partidos e eleitorados. Compreendermos melhor a maneira como estas interações se enquadram nas estratégias de campanha mais abrangentes e quais são as suas implicações eleitorais, é crucial para avaliar o impacto potencial do debate. Afinal, estes confrontos podem alterar as trajetórias das campanhas, consolidar ou erodir apoios e influenciar decisivamente a decisão dos eleitores indecisos.
O relógio começa a contar o tempo, no momento em a câmara foca os candidatos pela primeira vez. Ainda antes dos candidatos começarem a falar, nesses segundos iniciais em que entram em cena, a comunicação não-verbal impera!
Tem início o processo de gestão de impressões, que vai ter um peso importante na forma como os candidatos vão ser percecionados nas fases subsequentes do debate. Esta dinâmica da gestão de impressões, aquilo que podem parecer meros pormenores, são, na realidade, ‘pormaiores’, dado o poder que têm para afetar, de forma mais ou menos consciente, as perceções de vitória ou derrota num embate político.
- Instantes iniciais: a primeira vez que a câmara foca o palco onde vai decorrer o debate, vemos Kamala Harris a entrar em cena em primeiro lugar, com uma postura sóbria e confiante, um bom contato visual, uma expressão facial afável e um andar vigoroso e convicto. Revela também, através da sua linguagem corporal, que procura ativamente o contato com Donald Trump, tanto que vai cumprimentá-lo no seu próprio território. O aperto de mão entre ambos é firme e neutro sem nenhum candidato a procurar a ‘upper hand’. Da primeira vez que os candidatos olham diretamente para a câmara, observamos um sorriso aberto, empático e com marcadores de autenticidade no rosto de Kamala, enquanto, da parte de Donald, vemos um sorriso congelado, com a boca tensa e pouco natural. A conclusão é que, nestes instantes iniciais, Kamala sai na frente.
- Abertura: Ambos os candidatos aparecem diante das câmaras com fatos formais e tradicionais, tendo optado pelo azul-escuro que, frequentemente, está associado a perceções de credibilidade. Ostentam o pin da bandeira dos Estados Unidos, que se encontra colocado de forma bem visível no casaco de ambos, procurando transmitir um sentimento patriótico. Cabe a Kamala Harris abrir o debate sob a capa dos arquétipos do criador e do herói salientando, por um lado, a visão de que acredita na ambição, nas aspirações, nos sonhos dos americanos e, por outro, a coragem para assumir as suas origens, procurando uma identificação com a classe média e estimulando o sentido de pertença, ao dizer que foi a única que foi criada na classe média e também a única pessoa no palco com um plano que visa levantar a classe média e os trabalhadores da América.
Começa com um contacto visual baixo, fator que corrige logo de seguida, e daí em diante foca a câmara praticamente todo o tempo, realizando acenos de cabeça suficientes, procurando criar proximidade e uma conexão emocional com a audiência. Manifesta gestos amplos e abundantes com a palmas das mãos bem visíveis e realiza as alegações iniciais praticamente sem hesitações, o que a ajuda a transmitir uma imagem de poder pessoal, que poderia ser ainda mais saliente se não tivesse denotado algum nervosismo, tanto através de uma elevada movimentação inicial do corpo, como através de algum nível de secura na boca.
Quando refere o ‘Trump’s sales tax’, termo cunhado pela própria, e quando procura reproduzir aquilo que os economistas dizem, realiza o gesto do pequeno círculo com a mão direita, procurando associar rigor à sua narrativa. Introduz de forma sucedida um pequeno apontamento de storytelling pessoal, quando refere a sua mãe, irmã, e em especial, a sua segunda mãe, que era uma empreendedora, para realizar uma ligação emocional feliz da sua infância com os pequenos negócios, dizendo mesmo que adora pequenos negócios, estabelecendo, mais uma vez, uma ligação forte com a classe média.
Nas alegações iniciais de Trump, este começa por corrigir que não tem qualquer ‘sales tax’, procurando desfazer a impressão inicial criada por Kamala. A bom ritmo e de forma articulada, refere de forma assertiva e expedita, fazendo bom uso da técnica do exemplo, aquelas que são as suas principais bandeiras eleitorais, a emigração, a criminalidade, a inflação e os impostos que tenciona aplicar novamente aos países estrangeiros, nomeadamente à China.
Ancora-se essencialmente ao arquétipo do governante, projetando autoridade e firmeza, estabelece um contacto visual forte com a câmara, mantém uma postura bem enraizada no púlpito e sobrancelhas tensas, emanando dominância, porém foram pouco evidentes os comportamentos não-verbais de proximidade, fundamentais para criar uma afiliação afetiva com a audiência, como por exemplo o sorriso e os acenos de cabeça. Ao contrário de Harris e de forma surpreendente, o nível de gesticulação visível de Trump foi praticamente inexistente, o que é inabitual nele, perdendo assim uma oportunidade de ouro para trazer mais eficácia à sua narrativa.
Na fase passiva do discurso, quando os candidatos estão em silencio a aguardarem pela sua vez de falar, foi visível um contraste comportamental. Donald Trump optou por uma expressão facial neutra e por fitar consistentemente a câmara, ignorando Kamala Harris. Por outro lado, Kamala foi mais expressiva, tendo optado por fitar o seu adversário uma parte substancial de tempo. Manifestou diversos comportamentos de desaprovação, ora abanando a cabeça, ora olhando para baixo. Os comportamentos dos candidatos na fase em que se encontram em silêncio, ajudam as pessoas a formarem perceções a posição que estes têm relativamente às ideias do seu oponente, momento a momento, e também, relativamente à forma como reagem quando encontram oposição.
- Encerramento: Coube a Donald Trump encerrar o debate e, por isso, foi dada a palavra inicialmente a Kamala Harris. A candidata começa por trazer contraste ao seu discurso, partilhando que está projetada para o futuro enquanto o adversário está orientado para o passado. Os gestos são visíveis em grande parte do tempo e são abundantes e sintónicos com a narrativa, tal como no início do debate. Ao contrário das alegações iniciais, revelou mais enraizamento e menos movimentação atrás do púlpito, o que ajudou as pessoas a centrarem-se mais no conteúdo da sua mensagem. O contato ocular com a câmara esteve muito presente. Voltou a usar o recurso do storytelling de forma eficaz, relembrando o período em que foi procuradora e durante o qual colocou as pessoas em primeiro lugar.
Donald Trump começou o discurso procurando trazer um dilema ao eleitorado, ou seja, se Kamala esteve no poder e não fez o que prometeu, porque será diferente no futuro. Procura levar os eleitores a acreditarem que ele é a escolha certa para concretizar as mudanças necessárias e revitalizar a nação, enfatizando sua experiência anterior como presidente e criticando a administração atual por falhas percebidas. O dilema apresentado por Donald Trump é estratégico e serve para semear dúvidas na mente dos eleitores sobre a capacidade de Kamala Harris de cumprir suas promessas.
Continuou a usar exemplos práticos e colocou questões abertas ao eleitorado, de forma a dirigir a sua atenção para aquilo que está menos bem e que se encontra por realizar. Fez uso de uma linguagem simples e facilmente entendível pelas pessoas e colocou em cima da mesa diversos fantasmas, nomeadamente o da 3ª guerra mundial. Evidenciou um contato ocular relevante, porém continuou a realizar gestos que não estavam visíveis na câmara e nesse capítulo relevou, mais uma vez, pouco sentido de oportunidade. Mais para o fim, corrigiu essa situação e os seus gestos já estavam mais visíveis no ecrã, transmitindo assertividade e até alguma agressividade quando decide apontar o dedo à sua adversária enquanto faz uso de um tom de voz dominante.
Os candidatos concluem o debate sem se cumprimentarem, tendo saído rapidamente do palco. Este gesto final destacou a tensão palpável e as diferenças irreconciliáveis entre os dois, refletindo o clima divisivo e competitivo da campanha.
Em resumo, os instantes que abrem e encerram os debates são cruciais. Estes são os momentos de maior verdade, exigindo dos políticos uma preparação minuciosa. As mensagens, tanto verbais como não-verbais, transmitidas nestes períodos, são as que mais influenciam o público.

