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Rita Saldanha

«Os psicopatas bem sucedidos estão nos boards das empresas e no poder político», afirma Brian Klaas

28 Novembro, 2023 by Rita Saldanha

Uma em cada cem pessoas no Mundo apresenta traços de psicopatia, contudo esse número sobe para 25 em 100, quando falamos de lideranças de empresas e organizações, incluindo políticas. Afinal, o poder corrompe ou atraí os corruptos?

Brian Klaas é o autor do livro Corruptíveis, uma obra que após 500 entrevistas a antigos ditadores, empresários, tiranos, políticos, dos perfis mais e menos maquiavélicos, tenta traçar um padrão e partilha 10 lições sobre «Como atrair os incorruptíveis». No livro deixa a dedicatória: «A todas as pessoas boas e não-psicopatas que deveriam estar no poder, mas não estão».

É o poder que ‘estraga’ as pessoas, ou são as pessoas que têm uma natural tendência para se corromperem? A resposta é que há um «tipo de pessoas que são atraídas pelo poder» e a chave para ter melhores pessoas em cargos de chefia, tanto nas empresas como na política, passa por escolher precisamente aqueles que não querem o poder.

Numa altura em que o nosso País vive na sua atualidade uma crise política de poder, corrupção e perfis corruptos, este foi o mote para o primeiro encontro off the record, promovido pelo projeto editorial Líder. O objetivo é criar um momento privado que procura a partilha de conhecimento, sem tabus e sem filtros. Não são divulgadas imagens dos participantes nem o conteúdo da conversa após a talk do autor. A intervenção de Brian Klass foi filmada e será a primeira a integrar a série ‘Off The Record’, que ficará disponível na Líder TV, a partir de 2024.

Ter ‘fome de poder’ é um sinal perigoso 

Na sua investigação, o Professor Associado de Política Global na University College of London, tem como objetivo perceber quem procura, tem e mantem o poder, versus aqueles que nunca se tornaram poderosos. Os que têm fome de poder, incorrem em processos de auto-seleção para cargos de liderança e assim a vida corre-lhes bem. E aqui está um sinal de alerta.

«Quem quer o poder, tem fome de poder, e isso torna a auto-seleção uma questão. Um psicopata tem um charme superficial que numa entrevista de recrutamento de 45 minutos faz com que consiga convencer as pessoas a gostar dele», afirma.

O problema da auto-seleção, ou seja, das mentes ‘menos puras’ quererem lugares de poder, resolver-se-ia, em parte, com uma boa dose de investimento no recrutamento e no tipo de seleção que é feita, que se baseia nas mesmas práticas desde há 100 anos: uma entrevista de emprego. Algo tem de ser feito para se mudar.

«A forma como o poder é apresentado às pessoas afeta quem quer tornar-se poderoso», defende o também apresentador do podcast “Power Corrupts”, para quem não há uma única solução. Na sua visão, «se toda a gente pensa que a classe política é corrupta, abusadora e terrível, então as pessoas não querem ter esse papel», e com isso seguir uma carreira política.

 

Os psicopatas bem sucedidos 

A psicopatia e os traços maquiavélicos estão patentes em muitas pessoas em cargos de chefia e de poder. Esses são os bem sucedidos. Já os mal sucedidos cometem crimes e estão nas prisões. «Os psicopatas bem sucedidos estão nos boards das empresas e no poder político», afirma, com a ressalva de que também há pessoas boas, líderes que querem servir os outros.

Mas a sociedade, na forma como hoje está constituída, e pelos sistemas, muitos deles hierárquicos, com poder e consequências desses atos de poder, tem de conceber um novo desenho desses sistemas, e partir do pressuposto que todas as pessoas podem ser psicopatas.

E daí surge, para além da ideia dos processos de recrutamento, a ideia de responsabilização, a accountability. «As pessoas devem tomar responsabilidade pelos seus atos e quando são responsabilizadas pelo que fazem isso replica-se no futuro», adverte. Deve-se representar o poder de uma maneira que atraia as pessoas, que se torne apelativo mesmo para quem não o procura, sobretudo para esses. E para quem assume um comportamento errado, estando num lugar de poder, tem de haver consequências.

 

Portugal e o «paradoxo do poder em 2023» 

Sobre a situação política em Portugal, Brian Klaas afirma: «A Democracia é testada em escândalos, pois os escândalos determinam até que ponto estamos dispostos a aceitar qualquer grau de maleficência». «É preciso provas e comprovar que houve uma má conduta, e se, na verdade existiu uma má conduta, então a sociedade deve questionar, ‘toleramos isto?’ ou ‘podemos sempre exigir melhor’», defende.

O que na sua opinião parece «perturbador», é o ponto a que a sociedade chegou de low standards, ou seja, baixos níveis de exigência.

Aqui identifica o «paradoxo do poder em 2023»: se perguntamos às pessoas se querem tornar-se políticos, muitos poucos dizem que sim, e «quantos de nós conhecemos pessoas que seriam excelentes primeiro-ministro, ou CEOs?», incita. Mais uma vez reforça a ideia de que «parte desta solução está por se continuar a deixar que as pessoas se auto selecionem para lugares de poder».

Tal como afirma no seu livro: «nós chegamos mesmo a comportarmo-nos de forma diferente consoante a forma como acreditamos que um sistema funciona, e não como ele de facto funciona».

 

Criar governos sombra e abrir canais de informação 

Para o especialista em democracia, autoritarismo e política externa dos EUA, uma das formas de garantir melhores perfis, os incorruptíveis, passa por criar governos sombra a partir de uma escolha aleatória de pessoas. Nos EUA, por exemplo, a ideia passa por criar um ‘congresso sombra’ de 435 pessoas, o número de congressistas, que durante um ano agem como se fossem os próprios, a debater os mesmos assuntos e a votar as mesmas leis. O governo sombra é feito por pessoas que não têm fome de poder e por isso assumem um compromisso que difere dos que estão efetivamente no Congresso.

Esta ideia poderia ser financiada pelos milionários, os mesmos que «não são necessariamente uma boa influencia para a política, mas que neste campo poderiam ser uma boa ajuda», defende.

 

E o Populismo? 

Torna-se evidente que «a corrupção tornou-se um trampolim para o populismo», como lidar com esta realidade?

Para Brian Klaas, aquele é «o maior desafio do século 21 para as democracias» são as pipelines de informação. Na sua opinião, se uma das formas de definir democracia é um governo com base em «consentimento informado» – ou seja, que informa as pessoas e que estas devem concordar com o que está a ser feito – «se não temos informação não podemos concordar, e se for má informação, não se pode consentir», diz.

Dai a corrupção e a responsabilização ligam-se. «Quando as pipelines de informação são não confiáveis, e escolhe-se um grupo de media que diz tudo o que se quer, não há responsabilização, pois não se descobre o que foi mal feito», afirma o autor, dando o exemplo do seu país. «Até hoje, os apoiantes de Donald Trump acham que ele não fez nada de mal, pois as notícias não mostram», partilha. E relembra as 91 acusações criminais dirigidas ao ex-Presidente.

«Não se resolve o problema do populismo enquanto não se encontrar uma solução para as pipelines de informação das nossas democracias. Tem de haver um sentimento partilhado do que se está a passar na sociedade. A Democracia é sobre um sentimento partilhado de realidade. Se queremos fazer com que ela funcione, tem de haver um compromisso, e não existe compromisso se não houver um sentido partilhado sobre o que se está a passar», conclui.

 

 

Arquivado em:Artigos, Encontros, Leadership

Liderar com confiança em nós próprias, mas sempre disponíveis para aprender

20 Novembro, 2023 by Rita Saldanha

No atual mundo empresarial, a presença das mulheres em cargos de liderança tem crescido consideravelmente. Este avanço é resultado de um longo processo de superação de desafios inerentes à sociedade e que todos os dias temos tentado contrariar, nós e tantas mulheres antes de nós, que têm aberto este caminho. Como mulher e diretora geral da Coca-Cola em Portugal, tenho o privilégio de contribuir para essa mudança e gostaria de partilhar como tenho trilhado o meu caminho.

Um dos desafios mais evidentes é o equilíbrio entre a vida familiar e profissional. Acredito que, nós mulheres, somos naturalmente empáticas e cuidadoras, o que por vezes pode parecer que precisamos de fazer malabarismos para conseguir conjugar um lar feliz (e que funciona lindamente), com uma carreira de sucesso.  É por isso que, como sociedade (empresas e instituições), devemos apoiar a criação de ambientes de trabalho que permitam a conciliação entre estes papéis, como por exemplo com flexibilidade de horários e local de trabalho, programas de licença parental mais inclusivos.

A exigência que temos connosco também se pode tornar num desafio. Muitas vezes cobramo-nos demasiado, aspirando a “perfeição” em todas as áreas da nossa vida. É fundamental darmo-nos mais permissão para saber que é importante fazer simplesmente “bem feito” e inclusive darmo-nos permissão para falhar, lembrarmo-nos que é através dos erros que mais aprendemos, e que a jornada rumo à liderança e a realização pessoal, tanto a nível pessoal como no profissional, é repleta de desafios e aprendizagens.

Para além disso, a herança histórica e social desempenha um papel fundamental nos desafios que as mulheres enfrentam na liderança empresarial. Não posso deixar de reconhecer que em algumas fases da minha vida profissional experienciei uma cultura mais “machista”, em que era a única mulher. Nesses momentos, também é importante saber lidar com a situação e fazermo-nos ouvir, não nos deixarmos “oprimir” por ser a minoria, mostrar a riqueza da diversidade e avançar com confiança em nós próprias!

Também como sociedade, é fundamental ajudarmo-nos umas às outras. Criar uma rede de apoio e encontrar os nossos “aliados”, sejam família ou amigos. Isto é algo que é muito forte na América Latina e que eu acho que é um “facilitador” para conseguirmos gerir melhor a parte profissional e pessoal. Saber que podemos aceitar um convite, porque temos alguém que pode ajudar com os filhos, e que nós também podemos ajudar a vizinha.

Outro aspeto crucial para mim, e um conselho que daria à minha filha, é procurar sempre a independência financeira e emocional, de forma a ter liberdade para tomar decisões com confiança e seguir os nossos objetivos e aspirações na vida. Evitando, na medida do possível, ser refém de circunstâncias que nos impeçam de concretizar os nossos sonhos. Devemos procurar o ambiente em que queremos estar, que se adeque aos nossos valores e onde possamos desenvolver o nosso potencial; e não ter medo da mudança, ou bom… ter medo, mas fazer na mesma, porque há muitos caminhos e nós temos o poder de decidir qual o que queremos percorrer.

Por fim, não devemos aceitar e resignar-nos perante a desigualdade não só de género, mas também no que diz respeito a minorias. A luta pela igualdade não é apenas uma responsabilidade das mulheres, mas de toda a sociedade. A diversidade de género é essencial para a inovação e o sucesso empresarial. Encorajo todas as mulheres a desafiar as barreiras, a acreditar em si mesmas e a se tornarem líderes nas suas áreas de atuação.

As mulheres provam diariamente a sua capacidade de liderar e inovar. Acreditemos em nós mesmas, trabalhemos juntas, apoiemo-nos umas as outras e continuemos a quebrar barreiras. O mundo precisa do nosso talento e visão.

 

Arquivado em:Opinião

Boas práticas de gestão e desenvolvimento de talento vão estar em destaque

15 Novembro, 2023 by Rita Saldanha

CONNECT ISQe é o nome do evento que no próximo dia 28 novembro (3ªfeira) vai reunir no Tagus Park, em Oeiras, clientes, parceiros e entidades de referência no mercado empresarial para um encontro e partilha de boas práticas na gestão e desenvolvimento de talento. O encontro anual do ISQe decorre entre as 10h00 às 16h00 e as inscrições terminam a dia 22 de novembro, 4ªfeira.

O CONNECT ISQe conta com a intervenção de Isabel Moço, Key Note Speaker ligada à área de RH que tem como missão profissional desenvolver pessoas e negócios, apresentações ISQe e Cornerstone, bem como a partilha de experiências através de casos de sucesso apresentados pelos clientes ISQe: Turismo de Portugal, Ascendi e Fidelidade.

O evento dá acesso privilegiado a oportunidades de networking e troca de experiências e conhecimento na gestão e desenvolvimento de pessoas. É também uma oportunidade para ficar a conhecer casos de sucesso suportados em soluções comuns aos participantes bem como desenvolvimentos futuros.

A participação neste evento carece de confirmação enviado pelo ISQe, por email.

 

Clique aqui para mais detalhes (agenda e inscrição)

 

 

Arquivado em:Líder Corner, Notícias

WYtalks: Kindology, be kind to all kinds

13 Novembro, 2023 by Rita Saldanha

A importância da saúde mental está na ordem do dia: da infância à idade adulta, os números de burnout, ansiedade e depressão têm vindo a causar prejuízos humanos descomunais.

A última WYtalk da Casa da Praia recebeu a Kindology – Be kind to all Kinds, uma comunidade de psicólogos e terapeutas, com uma proposta inovadora de circularidade na saúde mental, comprometida na promoção da mesma nas organizações e na busca pela realização e felicidade, em todos os aspetos da vida.

Susana Coerver, co-founder deste projeto, abriu a sessão para falar sobre a missão da Kindology na democratização do acesso a cuidados de saúde mental, tornando-a acessível a todos, através de um modelo de responsabilidade social enquanto serviço, em que são proporcionadas consultas a quem não tem condições para pagar por uma consulta de Psicologia.

Seguiu-se Joana Pena Ferreira, uma das psicólogas – “kindologists” – que colabora com este projeto – para falar sobre kindness e do conceito de felicidade, desconstruindo as suas várias dimensões entre o ser e o estar e a sua vertente comportamental.

Partilhou o facto surpreendente de que 50% da felicidade depende da nossa genética inata, e que a restante percentagem se divide entre os 40% que dependem das nossas escolhas e atividades intencionais e os 10% que se devem a fatores externos. O foco da WYtalk reverteu assim para estes 40% que dependem efectivamente de cada um de nós, e aquilo que podemos fazer e está nas nossas mãos trabalhar.

Foi abordada a relação entre a felicidade e o bem-estar, e do papel das emoções positivas e a sua influência na nossa percepção de felicidade, através do modelo PERMA-V, de Martin Seligman, conhecido como pai da Psicologia Positiva. De forma sucinta, Joana explicou que Seligman selecionou cinco ingredientes motivacionais que contribuem para o bem-estar das pessoas:

  1. P de Positive Emotions: A importância das emoções positivas e a resiliência, cultivando, explorando e integrando emoções positivas no nosso dia-a-dia, como por exemplo, passar tempo com quem gostamos ou investir em hobbies e atividades criativas que nos dêem prazer.
  2. E de Engagement: O viver o momento presente por inteiro – já dizia Ricardo Reis: “Sê inteiro. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes”, tendo foco nas tarefas que temos em mãos e que fazem sentido para nós.
  3. R de Relationships: O sentirmo-nos apoiados, acolhidos, amados e valorizado pelos outros, já que as nossas relações desempenham um papel relevante no bem-estar e na satisfação, e que devemos cultivar o nosso lado inerentemente social.
  4. M de Meaning / Propósito: sermos guiados por um propósito de vida, envolvermo-nos com uma causa com a qual nos identificamos, sentirmos que pertencemos. Servir a algo maior que nós mesmos ajuda-nos a ter uma maior satisfação com a vida.
  5. A de Achievements / Realizações: a automotivação e o estabelecer de metas autopropostas que sejam especificas e mensuráveis, sejam elas profissionais ou pessoais, contribuem para o nosso bem-estar.

 

Ao longo desta apresentação, a psicóloga falou do papel ativo na felicidade própria, na da comunidade, e também no impacto que as nossas ações têm no outro. Introduziu o conceito de “power-skills”, ferramentas comportamentais, que através do seu desenvolvimento e treino tornam-nos verdadeiramente competentes: esta competência é o conjunto das nossas habilidades e técnicas comportamentais, dos conhecimentos que trazemos da vida, incluindo a experiência individual de vida de cada um e a nossa atitude. As capacidades de gestão de conflitos, de comunicação, de gestão de tempo, de criatividade, curiosidade, sentido de humor, de generosidade, honestidade, resiliência, a importância do erro para a inovação, entre outras, são exemplos de skills que contribuem para esta construção de competência, e consequentemente, para uma percepção de felicidade mais ativa e mais presente.

O papel significativo da resiliência esteve em destaque – para saber sofrer, para saber sorrir – entendendo que ser resiliente não é aguentar até não poder mais, mas sabermos reconhecer os nossos próprios limites, e encontrar ferramentas para lidar com as adversidades da vida, estratégias de coping e uma gestão emocional eficaz que suportam este caminho da busca de momentos de felicidade. Tudo isto se treina, todas estas capacidades se trabalham, porque não são uma forma de ser, mas uma forma de estar.

Este conceito da importância das power-skills foi também referido no contexto do local de trabalho, juntamente com as questões de liderança, gestão de conflitos, e de gestão do tempo e de pessoas, e do papel do colaborador, para que ocorra de forma eficaz e positiva. É importante a mudança de mentalidade e de abordagem para um local de trabalho saudável e para a criação de ambientes propícios à a felicidade, seguros psicologicamente, olhando às características do trabalho em si, da cultura organizacional, das culturas internas e do desenvolvimento individual dentro das organizações.

Terminámos esta WYtalk tão enriquecedora e inspiradora com o insight fundamental de que a felicidade está intrinsecamente ligada ao nosso comportamento, aos nossos pensamentos e às nossas ações específicas, para promover o bem-estar individual e bem-estar comum.

 

Arquivado em:Líder Corner, Notícias

Polarizando, pouco a pouco

6 Novembro, 2023 by Rita Saldanha

Fala-se da polarização em curso nas nossas sociedades. Mas quem polariza são sempre os outros. E importa saber como acontece a polarização. Eis alguns exemplos recentes com aspeto de polarizadores – sempre feitos pelas melhores razões e em nome de um bem maior.

  1. Israel não estará em guerra com o Hamas mas a conduzir um genocídio do povo palestiniano. A guerra é horrível e as suas leis poderão estar a ser violadas por Israel, mas isso parece não ser suficiente para demonizar o país. Aumenta-se o nível e passa a ser genocídio para transmitir melhor a mensagem – mesmo que do outro lado se insista na tese dos ataques como uma ‘operação sagrada’.
  2. Por cá há extrema-direita mas não há extrema-esquerda. Estranho mundo político o nosso. O CDS enquanto partido relevante era fascista. Depois de reduzido a quase nada passou a ser democrático.
  3. A História ou é um motivo de orgulho pátrio (à direita) ou uma fonte de culpas coloniais que é preciso expiar (à esquerda). Não pode ser simplesmente História, com os seus altos e baixos.
  4. O governo quer malhar na oposição e invoca o nome de Passos. Pessoalmente sonho ingenuamente com o dia em que um governo não venha responsabilizar o anterior governo (de outra cor política), por aquilo que não consegue fazer ou por aquilo que o país tem de mau.
  5. O Parlamento parece por vezes o sítio onde se cumprem papéis estreitos e pré-definidos com tonalidades maniqueístas e não o órgão onde se decide como melhorar o país.

O problema é que, por cá como em Israel, é preciso fazer pontes. Depois de demonizar o outro, as pontes ficam destruídas. Será assim tão difícil perceber que os taticismos eleitoralistas estão a matar a democracia? Os consensos geram-se ao centro, com adversários, não com inimigos. Estes movimentos que vemos todos os dias matam a possibilidade dos acordos de regime de que necessitamos como pão para a boca. Vemos essa necessidade todos os dias: na escola, na saúde, na habitação. E insistimos.

 

Arquivado em:Leading Opinion, Opinião

Revista Líder nº23 – outono/ 2023

20 Outubro, 2023 by Rita Saldanha

Reborn from Chaos: The Path for a New Renaissance é o grande tema da revista Líder n.º 23. A edição já está disponível nas bancas (incluindo livrarias, Fnac e Bertrand) e em formato digital.

Muitos foram os caminhos e hipóteses que explorámos até encontrar a capa desta edição da Líder. Podemos dizer que abrimos muitas caixas e enfrentámos momentos de caos. Mas a de Pandora revelou-se a mais certa. A capa, com assinatura da FCB Lisboa, retrata o mito da Caixa de Pandora, uma narrativa que, acredite, relaciona-se muito com a complexidade do papel de liderança e as características necessárias para enfrentar desafios.

Na entrevista de abertura, estamos frente a frente, via Zoom, com Caroline Farberger. Cinco anos depois do seu coming out e temos o privilégio de conhecer uma mulher trans feliz, desassombrada, que tomou uma decisão difícil, sem nunca perder a bravura. É a primeira CEO, pelo menos da Europa, a assumir publicamente a transição de género; ninguém o tinha feito antes a um nível executivo. Esta é uma das histórias mais transformadoras, verdadeiramente inspiradora e reveladora da importância de se ser genuíno. Afinal, estamos apenas a falar de coragem, empatia e amor, elementos basilares a uma boa liderança.

Nos Líderes em Destaque, João Vieira de Almeida (Senior Partner/ Chairman da VdA) e Marta Rebelo (Consultora na a.normal) deixam o seu testemunho sobre o tema da saúde mental.

No tema de capa decidimos iniciar uma expedição no sentido de desvendar os caminhos fundamentais para reerguer o Mundo. Apercebemo-nos de que seria uma viagem possivelmente sinuosa e que, tal como na Ilíada de Homero, teríamos de convocar a rota e as pessoas certas e zarpar sem demoras. Não tivemos descidas do Olimpo, a morada eterna dos Deuses, nem fizemos uso de Oráculos, nem de ilustres adivinhos, como o Calcas, mas adentrámo-nos em questões incómodas e fomos ao outro lado do Mundo para obtermos a melhor versão deste (novo) Mundo. Nesta edição concentrámo-nos em explorar três áreas. O ângulo Humanista: As grandes questões da Vida e o Humor; Política e Geopolítica: Relações Internacionais e Macroeconomia; e Ciência, Tecnologia e Digital. Ponto por ponto, analisado por estudiosos nacionais e internacionais.

No primeiro ponto do tema de capa vamos poder compreender melhor as grandes questões da vida e também o que pode o humor fazer no sentido de termos melhor líderes. Entrevistámos Sabine Hossenfelder, hoje um fenómeno de Youtube, que tem dedicado a vida aos fundamentos da Física, em especial à sobreposição entre a Física e a Filosofia. Uma conversa à volta das grandes questões da vida. «É o momento mais incrível para a computação quântica, a descoberta de exoplanetas e a astronomia de ondas gravitacionais. É uma época miserável para ser um físico de partículas», explica à Líder. Neste mesmo ângulo abarcámos e embarcámos pelo Humor, como algo salvífico da Humanidade. Se formos um pouco atrás, Umberto Eco mostrou-nos em O Nome da Rosa como o humor e o riso eram excomungados no sistema fechado da teologia medieval. Por seu lado, o Iluminismo veio garantir que o humor é uma legítima necessidade humana e uma força, um exercício daquilo que Northrop Frye, crítico literário, chamou “mito de liberdade”. E mais, defende-se que existe um humor ténue nos deuses nas obras clássicas. Não fosse também a Comédia de Dante Divina. Recentemente, faz sentido salientar as palavras de Charles Chaplin: “Creio no riso e nas lágrimas como antídotos contra o ódio e o terror.” Já o filósofo francês Gilles Lipovetsky destaca-se como um crítico da sociedade hipermoderna, termo este que ele mesmo cunhou para se referir à sociedade contemporânea, e é também um autor que nos ajuda a compreender o quanto o humor está impregnado em diversas áreas da sociedade. Neste capítulo, Emilia Bunea, CEO e cofundadora da Ed.movie, vem defender a centralidade do humor no exercício da liderança.

No segundo ângulo, Chris Miller vem abrir o capítulo “Política e Geopolítica: Relações Internacionais e Macroeconomia”. Em entrevista, o Professor de História Internacional na Tufts University’s Fletcher School e autor de A Guerra dos Chips (Dom Quixote), desvenda como estamos a passar da Era Atómica para a Era do Silício. «A Guerra dos Chips está apenas na sua fase inicial», partilha, e a razão é simples: o Mundo não consegue funcionar sem estes chips. Bruno Ferreira Costa, Politólogo e Docente na Universidade da Beira Interior, no texto “Do Caos e da Esperança: A Incerteza dos Tempos Modernos” escreve sobre quatro grandes desafios associados ao projeto europeu e os impactos na política nacional. E responde a uma questão central na construção do futuro: Que Europa pretendemos edificar? Em “A Mitologia em Socorro da Europa”, Miguel Morgado, Professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica, faz uso da mitologia grega e de como esta proporciona pelo menos três alternativas de abordagem às crises. “Chamemos-lhes a abordagem de Proteu, a abordagem de Orfeu e a abordagem de Hércules. Foram três figuras cuja caracterização mitológica consiste sobretudo em lidar com as forças da desordem”. “Do Caos para a Penumbra”, de Luís Campos e Cunha, Professor da Nova SBE, é um texto que toca na ferida e pretende despertar o leitor de uma possível morrinha. Em “Os Efeitos no Emprego e na Produtividade de Choques Transitórios da Procura”, Martim Leitão, aluno de Doutoramento em Economia na University of Maryland, College Park, EUA, escreve sobre como as crises se propagam numa economia. Esta linha de investigação pode ainda contribuir para um melhor desenho de políticas públicas e é uma compilação da sua Tese, de 2022, distinguida como a melhor no nosso País no âmbito da Economia Portuguesa, atribuída pelo Banco de Portugal. E José Félix Ribeiro, Consultor da Fundação Calouste Gulbenkian e doutorado em Relações Internacionais, com numerosos estudos e artigos sobre Economia Internacional e Geopolítica, serve-se do “Tabuleiro Mundial” para trazer ao de cima o que entende que serão as Rivalidades e Cooperações no Horizonte 2050.

No último ângulo sobre “Ciência, Tecnologia e Digital”, sentimos o coração cada vez mais agitado de curiosidade. É nestas áreas que o conhecimento evolui de forma exponencial, pode mesmo dizer-se que o que é neste momento verdade amanhã pode ser obsoleto. «Temos um conhecimento muito mais profundo e um controlo muito maior sobre o nosso habitat, o controlo cada vez mais completo de que dispomos sobre as forças da Natureza traz consigo também riscos significativos. Entre a nossa maior capacidade para controlar os riscos existenciais e o risco que nós mesmos criamos ao dominar forças cada vez mais poderosas existem muitas e importantes questões», lembra Arlindo Oliveira. O Professor do IST e presidente do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores (INESC) deixa-nos várias reflexões sobre “O Futuro da Humanidade”, integradas no livro Ciência, Tecnologia e Sociedade (Guerra & Paz). “As Máquinas Podem ser Conscientes?”. Ficamos a saber neste artigo que Sebastian Sunday Grève (Chinese Institute of Foreign Philosophy and Peking University) e Yu Xiaoyue (Universidade de Pequim) encontraram uma forma inesperada de responder “sim”. Estes filósofos sedeados em Pequim estão a trabalhar nas bases cognitivas das relações entre humanos e máquinas, em estreita colaboração com colegas de outras disciplinas. No artigo “A Ciência pode resgatar o Humanismo?”, a neurocientista Luísa V. Lopes dá-nos a resposta completa e deixa-nos com muito para refletir. A Filosofia e a Tecnologia, acreditem ou não, dançam uma valsa complexa e interligada. “Explorando os Limites do Conhecimento”, um ensaio de Hélder Vieira Costa, CEO da Contactus, examina a relação entre Wittgenstein e a Inteligência Artificial. Não há como negar o otimismo latente do tema de capa, ainda assim a intenção foi trazer uma visão abrangente da Humanidade. Vivemos numa Era em que temos muitas opções à nossa frente, dominada pela curiosidade, a sabedoria, onde cresce o perigo, mas onde permanece também o que nos salva; esperemos que o lado do Bem vença sempre. E tal como na Ilíada, temos também águas misteriosas, mares pouco navegados e terras ainda por desbravar. O futuro, esse trará algumas tormentas e náufragos, mas sabemos que virá carregado de muita beleza e da incessante procura de sentido. O ideal é prepararmo-nos, estarmos atentos ao outro e informados para velejar da melhor forma neste Mundo inquieto e com tanto por descobrir. E tal como num texto épico, a vida tem tanto de complexo como prazeroso.

Lançámos o repto: “Afinal, que Mundo queremos nós?”. Uma ideia para um Mundo ideal mais humano. Neste exercício de pensamento, reunimos alguns agentes da mudança, vozes da sociedade nas suas diferentes áreas para nos darem uma ideia para refazermos o Mundo. A saber: Ana Aresta (Presidente cessante da Direção da Associação ILGA Portugal); Ana Sofia Fernandes (Presidente da Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres); António Pedro Vasconcelos (Realizador); Manuel S. Fonseca (Editor Guerra & Paz); Marco Paiva (Diretor artístico da Terra Amarela, ator e encenador); Maria Vlachou (Diretora Executiva da Acesso Cultura); Miguel Real (Escritor e Professor); Monica Rey (Produtora Executiva da Lisboa Criola); Onésimo Teotónio Almeida (Professor e Ensaísta na Brown University (EUA)); Ricardo Costa (CEO do Grupo Bernardo da Costa); Sara Barradas (People & Happiness Director do Grupo Capricciosa); Selma Uamusse (Música e Artivista); Sofia Simões de Almeida (Senior Manager na Talabat (grupo Delivery Hero), Dubai); Susana Coerver (Head of Marketing da Kindology); e Chat GPT 3.5. Ideias, todas elas, muito entusiasmantes.

A fechar a edição da Líder três dossiers especiais. O primeiro, Leading Tech sobre O desafio de Regulamentar a utilização da Inteligência Artificial”. No Leading Politics falamos sobre a origem do termo woke e os novos ativismos. E Leading People faz o retrato dos seguintes temas: “O Compromisso Social das Organizações”; “Diversidade e Inclusão”; Retiros e Formações Inspiracionais”; e “Coaching”.

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