Foram ontem apresentados os resultados do “Inquérito às Práticas Culturais dos Portugueses 2020”, elaborado pelo Instituto de Ciências Sociais (ICS), a pedido da Fundação Calouste Gulbenkian, com o objetivo de dar a conhecer o retrato do público português às instituições culturais e contribuir para a produção de políticas que apoiem a cultura.
José Pais, professor do ICS e coordenador do estudo, salientou que as práticas culturais têm pesos diferentes consoante a faixa etária, educação e até influência familiar, sendo que naturalmente os mais velhos e com baixa escolaridade são os que menos participam, tanto na cultura em formato online, tanto presencial.
Acerca do acesso a conteúdos digitais, e em contexto pandémico, a população mais jovem (15 aos 24) foi das que mais “intensificaram as suas práticas culturais com recurso à internet”, sendo que 40% passou a ver mais filmes, 21% a ler mais revistas, jornais e livros online, e 16% a assistir a espetáculos de música, sendo que o telemóvel é o dispositivo preferencial para o fazer.
As escolas continuam a ser das principais divulgadoras de cultura, sendo que 61% dos inquiridos aponta que é a instituição que mais se empenhou a realizar visitas a exposições, museus, bibliotecas e monumentos. São também as que mais promovem a participação artística. Já fora do contexto escolar, também a educação e a idade influenciam a participação artística: “as práticas artísticas amadoras são tão mais recorrentes quanto mais elevadas são as qualificações académicas dos inquiridos, quanto mais jovens são”, afirmou o investigador.
O estudo chamou também à atenção aos hábitos de leitura dos portugueses, revelando que as gerações mais novas têm vindo a perder o interesse pela leitura, 43% dos jovens dos 15 aos 24 anos são os que menos prazer retiram da leitura. Para acrescentar, a grande maioria dos inquiridos, na sua infância e adolescência, não foi estimulada à leitura no seio familiar: cerca de 71% nunca foi com os pais ou outro familiar a uma livraria, 75% a uma feira do livro, 77% a uma biblioteca, e mais de metade (54%) nunca lhes foi lido um livro. Felizmente, e contrariando as percentagens, os inquiridos mais jovens cujos pais têm qualificações superiores reconhecem, com maior frequência, a necessidade deste apoio familiar, tornando-as mais sensíveis aos valores culturais.
Em termos de audiovisuais existe uma clara distinção, sendo que 90% relata ver diariamente televisão, contra 40% que ouve diariamente rádio e 41% que se liga à internet. Mais uma vez justificada pelo envelhecimento da população, dado que os mais idosos são os que mais se expõem à televisão, seguidos dos inquiridos com rendimentos mais baixos.
Os dados, uma vez mais, indicam que a escolaridade tem um papel importante também na visita a centros culturais, sendo que 70% dos visitantes que os frequentaram tinham uma escolaridade superior, contra 11% com escolaridade até ao terceiro ciclo.
Nos 12 meses anteriores ao início da pandemia, 41% dos inquiridos foi ao cinema, e a percentagem é duplicada entre os jovens dos 15 aos 24. A falta de tempo, interesse, preços dos bilhetes e a nova possibilidade de ver filmes noutros formatos digitais são das principais razões que destacam para não irem tantas vezes ao cinema. No que toca a concertos ao vivo e espetáculos, os festivais e festas locais são os mais frequentados (38%), seguido de música ao vivo (24%). O teatro, o circo, o ballet ou dança clássica e a ópera são os menos assistidos pelos inquiridos.
Numa nota final, Miguel Lobo Antunes salientou a importância de promover a cultura e como pode ser feita através dos media: “há medidas macro e medidas micro, uma medida macro, ou seja, uma grande campanha de estímulo (…), é insistir com a televisão pública que, nos noticiários, deem mais informação sobre o que se passa”, apontando que seria uma medida eficaz dada a taxa elevada de pessoas que vêm televisão, nomeadamente os noticiários.
O trabalho de campo do estudo foi realizado nos últimos meses de 2020, e contou com a coordenação de Miguel Lobo Antunes, José Machado Pais e Pedro Magalhães.
Por Patrícia Monsanto
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