A História já nos deu a oportunidade de conhecermos vários tipos de líderes. Das empresas ouvimos falar de todo o tipo de experiências de liderança, na sociedade civil, na escola, nas famílias também. Dos bons aos maus líderes, dos mais racionais aos mais emotivos, dos psicopatas aos obsessivos. Mas temos falado suficientemente de líderes sensíveis, sensitivos e com bom senso? Não será esse o debate que interessa fazer agora? Talvez importe saber se estamos enganados na forma como escolhemos quem nos lidera. Já agora, o que pode fazer das pessoas altamente sensíveis, excelentes líderes?
Sensitive Leadership ou Liderança Sensitiva remete- -nos, antes de tudo, para a necessidade de compreensão do significado das palavras sensibilidade e sensitivo. Quando falamos de sensibilidade, do latim sensibilitas, estamos no domínio da faculdade de sentir, também no âmbito do apelo ao sentimento de humanidade e compaixão, e, no campo estritamente físico, falamos da delicadeza do gesto que se traduz na meticulosidade e menos propensão para o erro. Quando falamos de sensitivo, estamos a adjetivar e referir-nos ao que tem capacidade de sentir, também ao que é pungente e vivo, e também ao que é suscetível, se magoa ou sensibiliza com facilidade. Muitas vezes tendemos a falar de sensibilidade e bom senso, como se andassem lado a lado; o bom senso, que tem origem no latim sensus, significa órgão de sentido, faculdade de sentir e pensamento. Junta aqui o pensamento, a razão e, nessa medida o juízo claro, a prudência. Podemos dizer que se trata de uma capacidade de pensar e sentir. Se lhe atribuirmos a qualidade de bom, bom senso, então estamos já no domínio do equilíbrio nas decisões ou nos julgamentos em cada caso que se apresenta.
Este enquadramento de significados é relevante para contextualizar o que vamos falar a seguir. Vamos procurar entender o que é uma liderança sensitiva, como se distinguem os líderes mais sensitivos dos que não o são, quais as vantagens de podermos ter lideranças sensitivas e as sete características de líderes sensitivos.
Já desde os anos noventa que Elaine N. Aron, Investigadora no campo da Psicologia Clínica, estuda personalidades altamente sensíveis. Escreveu inclusivamente seis livros sobre HSP (High Sensitive Person) e é hoje internacionalmente reconhecida como uma das principais Cientistas a estudar a Psicologia do amor e das relações. No seu livro The Highly Sensitive Person, dá uma nova definição à expressão “altamente sensível” e resolve alguns equívocos que existiam entre sensibilidade e traços específicos de personalidade como são a introversão e a timidez. Tal como Melody Wilding (Professora de Comportamento Humano no Hunter College, Coach Executiva para empreendedores inteligentes e sensíveis, e autora de Trust Yourself) refere na Forbes: “Aron tem em mente tanto o paciente quanto o profissional, enquanto sugere maneiras de adaptar o tratamento para pessoas altamente sensíveis e como lidar com os problemas típicos que surgem. Descreve como cerca de 20 a 30 por cento da população tem um sistema nervoso altamente sintonizado que processa informações profundas dentro e ao redor de si. Simplificando, as pessoas altamente sensíveis pensam e sentem tudo mais profundamente – não porque sejam fracas ou inadequadas – mas por causa da sua genética”. Ainda na Forbes, Melody diz-nos que a sensibilidade traz alguns desafios, até porque pode ser uma sobrecarga emocional, contudo, “é uma força poderosa para se ter como líder. De facto, estudos mostraram que HSPs têm circuitos mentais e neuro químicos mais ativos em áreas relacionadas com a atenção, a planificação de ações, a tomada de decisões e fortes experiências internas. Por outras palavras, têm uma capacidade profunda de canalizar o seu foco com precisão, fazer escolhas ponderadas e gerar insights valiosos para trazer grandes ideias para a mesa”. Quando pensamos tradicionalmente que as pessoas aparentemente mais sensíveis não terão capacidade para serem líderes, parece que pode ser exatamente o contrário. Também Brian Klass, no seu livro Corruptíveis, nos diz que “temos uma série de preconceitos cognitivos que nos levam a ser atraídos por pessoas que parecem ser bons líderes, mas não são”. Normalmente, segundo este autor, os que aparentam ser bons líderes são os mais carismáticos, mais racionais, mais fortes e mais altos, tendencialmente homens e brancos. Brian até alerta no seu livro para que se “pense cuidadosamente sobre como atrair aqueles que naturalmente não querem o poder. Eles geralmente são os melhores líderes”. Estas podem ser as tais pessoas altamente sensíveis.
Tal como Aron referiu na Forbes, na entrevista dada a Melody: “As pessoas sensíveis costumam ser vistas no trabalho como aquelas que estão stressadas e ansiosas – aquelas que as pessoas percebem e dizem: “Ah, ela é tão sensível. Ela não aceita críticas.”
As pessoas sensíveis de alto funcionamento não são tão notadas e, para essas pessoas, o céu é o limite. A pesquisa é muito clara sobre as suas capacidades, incluindo a empatia. HSPs de alto funcionamento geralmente são reconhecidos apenas porque amam sua solidão… as HSPs, em particular, precisam de um ambiente de baixa estimulação e feedback fornecido de uma maneira específica. Se as empresas prestassem mais atenção aos HSPs e às suas necessidades, provavelmente manteriam os seus melhores colaboradores.”
Ainda seguindo esta linha de pensamento, de que as pessoas HSPs podem ser excelentes líderes, Aron refere-se na entrevista a um artigo de John Hughes onde este descreve as três habilidades específicas que podem fazer deste tipo de pessoas excelentes líderes. A primeira é “a subtileza, pois as HSPs absorvem tudo o que acontece ao seu redor, especialmente as subtilezas que os outros tendem a perder. As HSPs vivem num mundo de constante bombardeio sensorial. Palavras. Conversas. Sinais não verbais. Movimento. Sons. Cheiros. Emoções. Tudo é absorvido. Embora possam facilmente ficar sobrecarregados e sentirem-se forçados a deixar uma situação, absorver as subtilezas do ambiente é uma habilidade de liderança inestimável.” A segunda habilidade: “Os HSPs naturalmente preferem processar as informações recebidas em vez de agir e falar. Os membros da equipa sentem-se mais valorizados porque podem falar e contribuir livremente, sem a perspetiva de serem desligados por um líder ansioso para promover as suas próprias ideias ou avançar com a sua agenda. Os HSPs estão mais bem equipados para liderar porque naturalmente ficam em segundo plano, permitindo que os membros da equipa falem livremente, compartilhem e brilhem”.
Finalmente, Hughs diz que: “Líderes ressonantes parecem dizer e fazer a coisa certa na hora certa. Isso não é sorte ou magia, é a sua capacidade inata de sentir profundamente, processar muito bem e considerar pacientemente as palavras e ações certas para o momento. HSPs fazem isso naturalmente”. Estas habilidades referidas por Hughes permitem-nos olhar de uma forma diferente para este tipo de pessoas e, eventualmente ver força onde antes víamos fraqueza. São sempre pessoas especiais, e tal como Aron refere na entrevista: “É importante entender que os HSPs levam o feedback muito a sério. Eles valorizam o feedback que é dado com palavras positivas. Se falar demais, eles vão ler e refazer tudo, em vez de apenas ajustar o que precisava ser mudado.”
O silêncio é sagrado para as HSPs, sendo também pessoas que tendem a ver todos os lados negativos de uma situação, como refere Aron: “Pessoas sensíveis tendem a ver todas as maneiras pelas quais uma situação pode dar errado e isso deixa-as ansiosas. Não acho que apenas pensar positivamente realmente funcione para a maioria das pessoas sensíveis”. Contudo, não tendo uma abordagem otimista das situações e a crença de que tudo vai correr bem, para que não sejam boicotadas pela ansiedade deverão dar um passo atrás e seguir a recomendação de Aron e perguntar-se: “Qual a probabilidade de isso acontecer? E se acontecer será assim tão mau?” No portal Truity, uma plataforma fundada por Molly Owens, em 2012, com o objetivo de tornar as avaliações de personalidade de alta qualidade mais acessíveis – tanto para indivíduos quanto para pequenas empresas, encontramos um trabalho de Nathan Falde, com revisão clínica de Steven Melendy, publicado em agosto de 2022, que procura explicar as razões pelas quais as pessoas altamente sensíveis são melhores líderes e aponta as sete características principais que estão na origem dessa capacidade de melhor desempenharem funções de liderança. Diz-nos Nathan que “Pessoas Altamente Sensíveis têm um temperamento de fácil adaptação combinado com uma confiança tranquila que os torna ideais para a maioria dos cargos de liderança. São sensíveis às necessidades dos outros e transparentes na sua preocupação com o bem-estar de todos. Isso ajuda-os a obter apoio e cooperação de pessoas de diversas formações e personalidades, que passam a confiar neles implicitamente”. No elenco das sete características temos, como primeira, acreditarem na motivação construtiva, isto quer dizer, que de acordo com Nathan “quando uma Pessoa Altamente Sensível assume a liderança, ela é firme na sua determinação de facilitar o melhor desempenho de todos. Entusiasma-se com o potencial das pessoas e esforça-se para promover um ambiente onde todos são incentivados a experimentar coisas novas e a voar.
Quem trabalha com um líder HSP não terá de se preocupar em ser repreendido se cometer um erro. Uma Pessoa Altamente Sensível é tão naturalmente compassiva e empática que se sente legitimamente mal quando outras pessoas lutam ou falham”. Isto significa que “para uma Pessoa Altamente Sensível, o conceito de motivação através do medo e da intimidação é absurdo e degradante”.
A segunda característica prende-se com o facto de serem pessoas incansáveis na busca de consensos, ou seja, antes de avançarem ou tomarem decisões querem sempre obter um consenso. Para isso, “garantem que a opinião de todos é considerada e nunca encerram a discussão ou o debate prematuramente. Os líderes HSP estão genuinamente interessados em ouvir as ideias de outras pessoas”, e a consequência desta atitude de liderança será conseguirem ter equipas onde as pessoas não se sentem em segundo plano, ou sentem que as suas opiniões só estão a ser pedidas por condescendência e percebem que a forma como a liderança chega ao consenso é “verdadeiramente democrática”.
Em terceiro lugar, as lideranças altamente sensíveis premeiam a criatividade e incentivam as suas pessoas regularmente, como refere Nathan: “Ninguém que trabalha sob a liderança de uma pessoa altamente sensível precisa de se preocupar em ter os seus instintos criativos sufocados. HSPs têm uma consideração tremendamente alta por pessoas criativas e, consequentemente, encorajam aqueles com quem trabalham a ir além, pensar fora da caixa e ir contra a corrente sempre que possível. Eles estão sempre à procura de soluções novas, melhores e mais inovadoras e veem todos como uma fonte potencial de novas ideias”. Contudo, ao que parece, estes líderes também têm respeito pela tradição e não fazem coisas novas só pela vontade de fazer diferente.
A quarta característica está relacionada com a forma como ouvem os outros, pois fazem-no com interesse real e de uma forma sincera, o que implica controlar os egos. E esta atitude tem como consequência o facto de não terem “medo de mudar de rumo ou alterar o ponto de vista se alguém apresentar um argumento convincente para uma perspetiva alternativa”. Mas o mais notável é “não serem capazes de adotar uma postura cínica ou autoritária. Têm muito respeito pela sabedoria dos outros para serem tão tacanhos ou manipuladores. A sua sinceridade a esse respeito transparece sempre, o que ajuda a criar uma dinâmica de equipa saudável e sustentável.”
Em quinto lugar, não têm altos e baixos quando falamos da forma como tratam os outros, pois fazem-no sempre com respeito em todos os momentos, pois é isso que esperam também dos outros. Essa caraterística faz deles “líderes atenciosos e sensíveis, em parte por[1]que são inspirados pelo exemplo dado por grandes líderes com quem se cruzaram. Eles veem como uma obrigação serem tão respeitadores com os outros quanto já foram com eles”. Mas mais surpreendente: “estão determinados a não replicar qualquer abuso que possam ter recebido das mãos de empregadores, gestores ou líderes de equipa imprudentes e desrespeitadores, caso tenham sido expostos a tais indivíduos”.
A sexta característica das lideranças altamente sensíveis é a de serem pessoas que procuram resolver muito rapidamente todas as disputas e sentimentos feridos. São ativos na resolução de conflitos e tentam evitá-los. Quando resolvem os conflitos procuram sempre fazê-lo de forma definitiva, ou seja, são excelentes mediadores pois são justos e equilibrados. Talvez seja por terem estas características que “líderes altamente sensíveis ficam indignados com a injustiça, no entanto, e se um membro da equipa foi claramente maltratado por outro, eles não hesitarão em exilar o indivíduo que estava errado”.
Finalmente, a sétima e última característica identificada por Nathan é o facto de estes líderes colocarem acima das suas próprias necessidades, as necessidades das suas equipas. E são ainda algumas as situações que os deixam desconfortáveis: “Há muitas coisas que podem fazer uma Pessoa Altamente Sensível sentir-se desconfortável. Eles podem ser incomodados por muita estimulação sensorial, como ruído excessivo, luzes brilhantes, odores fortes ou muita atividade no ambiente ao redor. Os sentimentos podem ser facilmente feridos e eles podem deixar o impacto de um comentário rude ou insensível durar horas ou até dias. A sua empatia é tão desenvolvida que eles podem ser profundamente afetados pelo sofrimento físico, emocional ou psicológico dos outros, especialmente se a pessoa que está a sofrer for alguém próximo”.
Esta sensibilidade que parece ser extrema, e que até podemos achar que impede o líder de desempenhar bem a sua função, não tem exatamente essa consequência pois “uma Pessoa Altamente Sensível numa posição de liderança investirá o tempo e a energia necessários para conhecer os outros membros da sua equipa como pessoas. Aprende o máximo que pode sobre como cada pessoa pensa, se comporta e quais as suas preferências pessoais”. Também, estes tipos de líderes conhecem-se bem e, por isso, sabem que estas características são as suas forças e confiam na sua empatia para obterem respeito e saberem contornar os desconfortos que sentem resultantes da sua extrema sensibilidade.
Sensitive Leadership ou Liderança Sensível e Sensitiva pode ser uma nova abordagem para combater conceitos estereotipados de líderes em relação aos quais nem sempre temos ouvido contar as melhores histórias. Talvez seja este o momento de fazer a viragem e escolher, como nos sugere Brian Klaas, para líderes aqueles que fogem do poder. Esse pode ser um bom indicador.
Este artigo foi publicado na edição de primavera da revista Líder
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